Roberto Lacerda recorda o clássico “O luso e o trópico” para honrar a memória de Gilberto Freyre, cuja reflexão sobre a “Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal” (subtítulo de Casa grande & Senzala) ainda brilha entre as jóias do patrimônio intelectual brasileiro.

Publicado dez anos após a conferência ‘Uma cultura moderna: a luso-tropical’ (Goa, 1951), a obra O Luso e o Trópico, do polímata Gilberto Freyre (sociólogo, antropólogo, político, historiador, jornalista, escritor, poeta e pintor), está inserida em uma seqüência lógica de obras de estudos sociológicos do autor; que negou ser um sociólogo (Como e porquê não sou sociólogo, 1968). Este brasileiro, de família das mais antigas, com algum sangue ameríndio, imortal da Academia Pernambucana de Letras e que foi adepto do protestantismo batista à irreligião, mas acaba adepto do que ele mesmo chamou “catolicismo popular”, é reconhecido como um dos maiores intelectuais da história do Brasil.

Todas as facetas de Gilberto Freyre ficam à mostra em O Luso e o Trópico. Talvez Otto Maria Carpeaux, ao se deparar com essa obra, dissesse que “é de grande frescor”. Frescor esse que transborda da escrita para a imaginação do leitor, que se não estiver abatido de alguma enfermidade, conseguirá visualizar desde o espírito português que impulsiona as Grandes Navegações, até a miscigenação através de uniões previamente desejadas; os casamentos com mouras, ainda em Portugal, abririam caminho aos demais casamentos interculturais, a começar pela Guiné.

O português dos séculos XV e XVI está atrás de terras quentes; diferente de seus irmãos católicos da Espanha. Mesmo os casamentos mencionados possuem também esse elemento, influenciando a escolha dos contemporâneos de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral: os portugueses preferiam mulheres de terras quentes, fugindo do frio como o Diabo foge da Cruz.

Freyre aborda todos os aspectos possíveis da exploração dos trópicos pela gente portuguesa, desde a ocupação ecológica até as assimilações de costumes locais, como banhos diários e – no interior das casas, por influências da Índia – vestimentas adaptadas ao calor, como roupas mais coloridas, largas e leves, sandálias, véus, pijamas, xales etc. – algo que escandalizaria os frios ingleses. Na arquitetura, misturaram matérias primas e modelos externos locais, com arquitetura interna e técnicas “modernas” de sua nação.

O autor nos faz sentir o espírito cristão desses portugueses, mesmo não mencionando o objetivo das Grandes Navegações: levar a palavra de Deus a outros povos; o que podemos interpretar como Cruzadas Marítimas. Porém, não são negligenciados os demais aspectos dessas explorações de novas terras, tanto suas motivações – como exposto acima -, e os desdobramentos para a formação do que ele nomeará: civilização lusotropical. Também denuncia a campanha caluniosa em meios intelectuais contra o desbravador português que, segundo o autor:

Ligou mais do que ninguém a civilização européia aos trópicos, através de uma obra não apenas intuitiva, mas, em parte, científica: de estudo, previsão e experimentação, e não somente de aventura.

São Paulo, É-Realizações, 2010, pág. 69

As artes não são negligenciadas por Gilberto Freyre; antes, recebem lugar de destaque em sua análise da civilização lusotropical, desde Luís de Camões até Fernando Mendes Pinto. A ciência lusotropical terá em Garcia d’Orta seu pioneiro. Freyre chamará a arte lusotropical de “uma arte simbiótica”.

O centro dessa obra será a demonstração de Gilberto Freyre dos aspectos gerais da integração dos portugueses aos trópicos, não apenas sem esquecer, mas dedicando dois capítulos à fundamental ação do Cristianismo e da cristianização, principalmente da diferença entre o método português e dos europeus do Norte: o Cristianismo oral frente ao “Cristianismo bíblico”. Enquanto povos como os ingleses e holandeses – e mais adiante os belgas – preocupar-se-ão em “proteger” seus estilos de vida e até vestimentas, de qualquer influência dos povos colonizados, até os padres portugueses adaptarão as vestes sacramentais – usando materiais mais leves, as alargando e clareando um pouco – para serem melhor recebidos pelos povos tropicais, em especial na Índia, obtendo assim melhores resultados na cristianização, enquanto os leigos misturar-se-ão e formarão famílias, em uma integração sem precedentes, inclusive incentivada e promovida pelo infante Dom Henrique, ao qual Gilberto Freyre dedica dois capítulos.

Um capítulo é dedicado ao estudo da transmutação da língua portuguesa nas colônias, algo que hoje é foneticamente perceptível, mas à época estava em processo de desenvolvimento. A pluralidade da língua portuguesa nos trópicos, através das influências dos diversos povos autóctones, recebe atenção diferenciada do autor, que também analisa seus reflexos no processo sociológico de integração.

Por fim, o último capítulo será uma reavaliação e análise dos demais, “catalogando” os aspectos gerais abordados nesta obra, que talvez seja o ápice do trabalho de retratação histórica dos caluniados portugueses, iniciado com Casa-Grande & Senzala (que chegou a ser queimado em praça pública por defensores do revisionismo histórico ligados a movimentos marxistas, usando da acusação de “linguagem imprópria” e até “obscena” para angariar apoio da Igreja; conseguindo apenas “justificar” a participação de antecessores da Teologia da Libertação nessa empreitada), aclamada como Magnum opus de Freyre.

Ao leitor que goste, ou esteja interessado em iniciar estudos sociológicos sobre o desenvolvimento da civilização lusotropical (inclui Brasil, Goa, Guiné etc), essa obra de Gilberto Freyre não pode faltar na estante.

fim
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