Se a vida é teatro? Talvez. Em política, forçosamente. Porque sempre tem gente olhando. Com público à espreita, do zero emerge um Hamlet dentro de nós. Chega a ser um reflexo. E o palco do ascendente “espectro direitista” abrange mocinhos de toda espécie.

O mais controverso carrega uma sombra na lapela. Este cavaleiro das trevas passa longe das angústias de Shakespeare e encarna o morcego da Marvel. Enquanto os aspirantes a Coriolano planejam seu retorno triunfante sentados à mesa do triste exílio, ele já invadiu o palácio dos três poderes pelo teto envidraçado, derrubou a papelada mentirosa que suja a mesa da Plenária e deu rolê nos seguranças do salão verde. 

Justiceiro por natureza e bandalheiro por livre e espontânea cólera, o intervencionista é um incompreendido. 

Expressão de um estado de espírito permanente na sociedade, é o espelho da indignação popular. Mais exatamente, o reflexo que escapa da moldura para converter-se em gesto selvagem.

Atire a primeira pedra quem nunca sentiu pulsar dentro de si uma vontade louca de pôr abaixo o prédio que abriga o STF. Atire a primeira pedra quem nunca sonhou (ou até planejou) esperar Rodrigo Maia na saída para esbofetear-lhe a fuça. Atire a primeira pedra quem nunca desejou em segredo invadir o Congresso, pôr todos os pilantras desavisados numa jaula, botar pra correr o universo dos cabides de emprego que andam de iate às nossas custas e, num cume apoteótico, surgir diante do povo ostentando uma vitória concreta sobre o inimigo.

Mas a máquina estatal moderna amarra o fôlego nos tentáculos da burocracia. E resta ao cavaleiro rebelde da direita ouvir a arenga erudita dos conservadores e tomar pito dos liberais, ambos ciosos em proteger um estado de direito que, por ora, só existe em suas pacíficas esperanças.

Ele silencia e conserva o fôlego. Recolhe-se e aguarda. Não tarda muito a Dias Toffoli usar o Judiciário para obstruir investigações contra os seus amigos; ao presidente do Senado rejeitar mais um pedido de impeachment contra Gilmar Mendes; a um sublacaio da esquerda velhaca injetar veneno no café do Ministro da Justiça.

É nessa hora, diante dos colegas melancólicos, imersos na mais amarga perplexidade, que ele levanta os olhos, estufa o peito, retoma o orgulho e grita: SELVA! 


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