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domingo, 5 dezembro, 2021

NA MARCA DA CAL丨Salvando a Copa do Mundo

Revista Mensal
Paulo Sanchotene
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é mestre em Direito pela UFRGS e possui um M.A. em Política pela Catholic University of America. Escreveu e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. É casado e pai de dois filhos. Atualmente, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, onde administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna).

Há tanta coisa para falar sobre futebol, dinheiro e mercado que confesso ter passado o mês com bloqueio de escritor. Poderia falar da nova Lei do Mandante, que faz parte do processo de concentração de recursos em poucos clubes que vimos ocorrer desde a criação do Brasileiro por pontos corridos em 2003. Esse processo é mundial, e, no fundo, é o que inspirou a tentativa da criação da SuperLiga de futebol com os grandes clubes europeus.

Essa concentração de dinheiro é decorrente de políticas monetárias absurdas e doentias que vêm ocorrendo a tempos, e acelerando ultimamente. No futebol, a conseqüência é que para certos clubes ter lucro é absolutamente irrelevante. Eles funcionam numa regra diferente dos demais. O futebol vai-se tornando uma brincadeira de multi-trilhardários – e quem não consegue entrar na roda vai-se apequenando.

Dinheiro em excesso provoca idéias ruins e, com essas, enormes desperdícios. Eis que aparece a proposta ridícula de se realizar Copa do Mundo a cada biênio. Eu sei que os temas levantados nos parágrafos anteriores são interessantes, mas essa estapafúrdia insistência da FIFA me incomoda mais do que deveria.

Resolvi desabafar e apresentar para vocês a minha própria ideia absurda para contrapor à infantilidade do Infantino. A minha proposta é, em princípio, simples: a Copa do Mundo permanece ocorrendo a cada 4 anos, mas com 64 seleções. Simples, mas o diabo está nos detalhes

Primeiro ponto: acabar com a Confederação da Oceania

Concordemos que a Oceania ter uma confederação para si é ridículo. Sem a presença da Austrália, então, a situação tornou-se insustentável. Uma mera fusão com a Ásia tornaria ainda maior uma confederação já enorme em demasia.

Para resolver esses problemas, sugiro dividir-se a Confederação da Ásia em duas, e fundir aquela com os países mais orientais com a OFC. Passaria, assim, a existir a Confederação do Pacífico (PFC). Cada uma dessas novas confederações (Ásia e Pacifíco) teria 6 vagas diretas à Copa.

Segundo ponto: criar uma Confederação do Caribe

A Copa América tem convidados a décadas, e a Copa América Centenário foi um sucesso. Clubes mexicanos já disputaram a Libertadores. Tais fatos me convenceram que a divisão das confederações nas Américas está equivocada.

Seria melhor separar o Caribe, elevando a atual CFU à confederação, passando a ser CFC. Sugiro também fundir-se a atual Conmebol com o restante da Concacaf. Essa confederação, reunindo América do Norte, Central, e Sul, chamar-se-ia de Concsaf.

O Caribe teria 1 vaga direta na Copa, enquanto a Concsaf teria 10 [50% dos 20 membros].

De resto, tanto a Europa (UEFA) quanto a África (CAF) permaneceriam como são. A UEFA teria 26 vagas; e a CAF, 12.

Terceiro ponto: classificando-se para a Copa

Como o país-sede não teria vaga assegurada [já volto a esse tema, aguarda!], sobrariam 3 vagas em aberto. Essas seriam disputadas numa Repescagem por 12 seleções: 6 da Europa; 2 das Américas; e 1 de cada uma das confederações restantes (África, Ásia, Pacífico, e Caribe).

No geral, as vagas ficariam distribuídas assim:

VAGAS: 64
Europa (UEFA): 26 [+6]
África (CAF): 12 [+1]
Américas (Concsaf): 10 [+2]
Ásia (AFC): 6 [+1]
Pacífico (PFC): 6 [+1]
Caribe (CFC): 1 [+1]

Total: 61 [+12]

A repescagem seria com 3 chaves de 4 equipes – 2 da Europa e 2 do resto do mundo. Séries semifinais e finais definiriam as últimas vagas. Bem simples e direto.

Por que essa idéia é melhor do que uma Copa a cada dois anos?” Calma! Não terminei ainda.

O primeiro passo foi equilibrar as confederações. Isso acabará tendo efeito também sobre os torneios de clubes, mas estou focando agora apenas nas seleções nacionais.

Tampouco nos esqueçamos que a FIFA aumentou o número de participantes de 32 para 48 em 2026. Passar para 64 não mudaria muito em relação à qualidade das seleções; porém, permitiria modificar a forma de organização do torneio. [E convenha-se que grupos de 4 equipes são melhores que os de 3.]

Quarto ponto: a organização da Copa

Uma vez definidas as 64 seleções, essas seriam divididas em 16 grupos de 4. Porém, os grupos não ficariam na mesma sede. Haveria 4 sedes diferentes para a fase de grupos, uma em cada região distinta do globo: Europa (Norte); África (Sul); Ásia/Pacífico (Leste); e Américas/Caribe (Oeste).

Assim, a Copa do Mundo se espalharia pelo planeta. Ao invés de apenas uma sede única, haveria uma sede principal e, no mínimo, mais 3 sedes auxiliares. Depois, os países classificados se reuniriam na sede-mor para definir o campeão.

A Copa, portanto, continuaria tendo uma sede identificável; porém, agora estaria sempre mais perto das pessoas. Afinal, cada região sempre sediaria [algo d]a Copa a cada quadriênio.

E, claro, nessa organização, não há como o(s) país(es)-sede ter(em) vaga direta na Copa do Mundo.

Quinto ponto: aproximando-se do Infantino

Infantino quer uma Copa a cada dois anos. Ora, bastaria realizar a Primeira Fase no ano anterior, na mesma época em que havia a Copa das Confederações. De certa forma, fazendo assim, ocorreriam as tais “duas copas” a cada quatro anos, como ele deseja.

Pode-se até fazer uma nova fase de grupos na sede principal, inclusive. De maneira que, vejam só, tudo mudaria apenas para que se fique como está agora.

Com essas alterações aqui apresentadas, haveria mais dinheiro, agradaria bastante gente, e não se estragaria a Copa do Mundo. Pelo contrário, agregaria mais e estaria mais próxima das pessoas – isso sem depreciar a festa.

Mudanças devem ser feitas, sempre; mas que essas preservem aquilo que é essencial. Inclusive, permite-se deixar a UEFA realizar a Euro sem receio algum. Entendeu agora, Infantino?

Chê, não precisa nem me agradecer!



— ANEXO —

Sobre o Número de Partidas:

No total, caso a fórmula de disputa mantenha-se com uma fase de grupos seguida de etapas eliminatórias, a Copa do Mundo passaria a ter 128 jogos.

Em cada sede auxiliar, haveria no mínimo 24 partidas; já a sede principal sediaria pelo menos 32 jogos – ou 56, caso também seja sede da primeira fase.

Atualmente, são disputados 64 partidas numa Copa do Mundo. Em 2026, serão 80 jogos.


— ANEXO II —

Repescagem: 12 equipes (3 vagas)
CFC 2; AFC 7; PFC 7; Concsaf 11 e Concsaf 12; CAF 13; e UEFA 27, UEFA 28, UEFA 29, UEFA 30, UEFA 31, e UEFA 32.


— ANEXO III —

As novas confederações propostas:

PFC – Pacific Football Confederation: 32 membros
*OFC (Oceania), 11
– Fiji, Nova Caledônia, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné, Samoa, Samoa Americana, Ilhas Cook, Ilhas Salomão, Taiti, Tonga, e Vanuatu.
*AFF (SE Ásia), 12
– Austrália, Brunei, Camboja, Cingapura, Filipinas, Indonesia, Laos, Malásia, Mianmar, Tailândia, Timor-Leste, e Vietnã.
*EAFF (Ásia Oriental), 9
– China, Coréia do Norte, Coréia do Sul, Guam, Hong Kong, Japão, Macau, e Mongólia.

AFC – Asia Football Confederation: 25 membros
*WAFF (Asia Ocidental), 12
– Arábia Saudita, Barém, Catar, Emirados Árabes, Iêmen, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Palestina, e Síria.
*CAFA (Ásia Central), 6
– Afeganistão, Irã, Quirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão, e Uzbequistão.
*SAFF (Ásia Meridional), 7
– Bangladexe, Butão, Índia, Maldivas, Nepal, Paquistão, e Seri Lanca.

Concsaf – Confederação Norte-Centro-Sul-Americana de Futebol: 20 membros
*Conmebol (América do Sul), 10
– Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai, e Venezuela.
*UNCAF (América Central), 7
– Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, e Panamá.
*NAFU (América do Norte), 3
– Canadá, Estados Unidos, e México.

CFC – Caribbean Football Confederation: 25 membros
*CFU (Caribe), 25
– Anguila, Antígua e Barbuda, Aruba, Baamas, Barbados, Bermuda, Cuba, Curaçao, Dominica, Dominicana, Granada, Guiana, Haiti, Ilhas Caimã, Ilhas Turcas e Caicos, Ilhas Virgens, Ilhas Virgens Americanas, Jamaica, Monserrate, Porto Rico, Santa Lúcia, São Cristóvão e Neves, São Vicente e Granadinas, Suriname, e Trindade-e-Tobago.

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