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terça-feira, 21 setembro, 2021

GOVERNANÇA E ESTRATÉGIA丨Estratégia ofensiva e defensiva nas Cruzadas

Revista Mensal

A PARTE QUE NÃO TE CONTARAM

Era domingo à noite, um domingo destes qualquer, Enzo sai de casa, encontra sua amiga Sheila e os dois vão à uma pizzaria. Enzo é o típico jovem “moderninho”, coque samurai, “trader” de opções, vegano, desarmamentista e mora com a mãe; Sheila, típica jovem “empoderada” , cabelo verde raspado na lateral e com uma franja azul, tatuagem com símbolo do feminismo no braço, pró linguagem neutra, “tiktoker” dançarina de funk, blogueira que fecha parceria com marca de biquinis. Como era período imediatamente após mais um lockdown, a pizzaria que frequentavam veio a falência, então, procuraram outra, encontrando em seu bairro apenas a pizzaria do Sr. Brás, que ainda estava sem letreiro para não denunciar o crime de trabalhar durante o #ficaemcasa. Entraram na pizzaria e já acharam muito esquisita a quantidade de heterossexuais no local; chegaram a ver o absurdo de uma menina estar com um balão rosa e um menino com um balão azul, mas apesar de extremamente retrógadas, essas coisas ainda eram toleráveis. Entretanto, houve o momento e que o estabelecimento foi longe demais: Enzo foi ao banheiro e na porta, para simbolizar o sanitário masculino, havia a figura de um Cavaleiro Cruzado adornado com a famosa frase dos apoiadores de Donald Trump, “Deus Vult” (Deus quer). Imediatamente, ao se deparar com o desenho, como um vampiro que encontra a luz do Sol, Enzo protege o rosto com os braços, corre em direção a Sheila e interrompe o vídeo de dublagem que ela estava fazendo no Instagram reels, gritando: – Vamos embora, aqui é o lar máximo dos fascistas, todos aqui são machistas, islamofóbicos, imperialistas, opressores e contra a diversidade cultural – os dois saem correndo antes de pedir a pizza. Seu Brás olha para seu auxiliar, se dirige à plaquinha debaixo da televisão e pontua o placar da noite: 

Após mudar o placar, o velho Brás Diz: “Eles nem sabem que só podem fazer isto graças ao que está naquela porta”.

Esta é uma história fictícia, no entanto bastante verossímil. Narrei aqui uma cena em que a percepção histórica deturpada leva as pessoas a uma percepção de mundo deturpada e não consigo contar quantas vezes coisas parecidas aconteceram ao meu redor, sobretudo quando se trata das Cruzadas. Mas acredite, os militantes mais inflamados não são detentores exclusivos dos equívocos históricos. De certa forma, todos nós fomos afetados nas nossas escolas. 

Deixa-me adivinhar: seu professor no ensino médio, chegou com uma camisa do Che Guevara, escreveu uma série de tópicos sobre Idade Média e um destes eram as Cruzadas. Consideravelmente semelhante ao que Enzo gritou, seu professor abordou o tema de maneira sucinta e aproximadamente nestes termos: “Havia uns Árabes que estavam “de boa” jogando pingue-pongue ali pelos lados de Jerusalém, vivendo de maneira amistosa com cristãos e judeus da região numa troca cultural harmoniosa e feliz. A Igreja Católica, sedenta por poder, liderou uma série de expedições militares a fim de abrir rotas comerciais, saquear as riquezas dos muçulmanos, impondo o cristianismo aos adeptos da religião da paz e no fim das contas as Cruzadas foram um fracasso”.

Como tudo no materialismo histórico, esta maneira de encarar os fatos é simples, fácil e completamente errada. 

Confusão 1 – Havia uns Árabes…

O primeiro erro é criar a narrativa metonímica povo pela religião. Este início de frase carrega em si a ideia errada de que todo árabe é muçulmano e que não há muçulmanos de outra origem. Este raciocínio é completamente anacrônico, pois diversas regiões que são dominadas hoje pelo Islã eram cristãs no período das cruzadas. Podemos citar a Síria, onde o Apóstolo Paulo muito pregou e a própria Constantinopla, hoje Istambul, que era o grande Limite da Área de Defesa Avançada (LAADA) Cristã, ou seja, dali para frente era praticamente território inimigo.

Confusão 2 – …estavam “de boa” jogando pingue-pongue ali pelos lados de Jerusalém, vivendo de maneira amistosa com cristãos e judeus da região…

Logicamente, a parte do pingue-pongue é ironia, mas para entender os outros erros desta parte, vou falar um pouco sobre a história do Islamismo e sua relação com os Cristãos.

O que define o início do calendário Islâmico é o fenômeno chamado Hégira que é a fuga de Maomé de Meca para Medina no ano de 622. Se em Meca Maomé foi perseguido por pregar os ensinamentos de Allah pela palavra, em Medina o profeta passou a entender que a vontade de Allah deveria ser imposta pela Espada, inclusive este é, para alguns grandes clérigos do Islã, o motivo que dá coerência aos versículos contraditórios do Corão, que no início pregam certa fraternidade para com outras religiões e depois pregam a morte de todos os infiéis. A explicação seria que os primeiros versos, mais brandos, se referem ao período de Maomé em Meca e os versos posteriores, mais voltados a violência, teriam sido escritos em Medina.

Maomé se torna governante de Medina e em 629 conquista Meca se tornando o homem mais poderoso da região, expandindo a fé islâmica até sua morte. Após a morte de Maomé, o Islamismo entra em franca expansão alcançando uma impressionante quantidade de territórios. Tudo isto por um motivo muito simples: desde aquela época até hoje, os muçulmanos acreditam que sua jornada é uma repetição do caminho de Maomé, então este movimento para outros territórios é sempre encarada como a própria Hégira, seguida da conquista de cidades, expansão de fronteiras e eliminação dos hereges (saída da “Casa do Islã” para “terras do caos”, que são terras onde não predomina a cultura Islâmica).

Particularmente sobre os territórios há um aspecto muito relevante dentro do Islamismo: para o muçulmano, a terra que uma vez pertenceu ao Islã, pertencerá eternamente ao Islã. Então, sempre que perdem um local conquistado, os discípulos de Maomé convocam a Jihad, que neste caso particular é extremamente forte, pois está alinhada com um escrito no Corão que diz: 

“Mas se vos pedirem socorro, em nome da religião, estareis obrigados a prestá-lo”.

Uma vez convocada a Jihad por este preceito, todos os povos Islâmicos ao redor da região estão doutrinariamente obrigados a auxiliar na retomada das terras que uma vez foram “Casa do Islão”, muitas vezes obtendo sucesso.

Mapa

Descrição gerada automaticamente

Um destes territórios era Jerusalém, que foi conquistada no ano de 638. Se se você é daqueles que acredita que os muçulmanos realizavam apenas belas trocas culturais com os povos dominados e que a convivência com outras religiões era supertranquila, preste atenção em alguns fatos que se deram ao longo destes QUATRO SÉCULOS ANTES DA PRIMEIRA CRUZADA:

  • Peregrinos cristãos crucificados em Jerusalém;
  • várias pessoas degoladas e mulheres  apedrejadas;
  • imposição do Islamismo sob ameaça de enforcamento;
  • proibição de outras crenças (com destaque para Judaísmo e Cristianismo);
  • cobrança da Jizia, taxação imposta aos não convertidos ao Islã, que variavam de 10% à 50% dos ganhos e eram determinadas de maneira arbitrária;
  • a conversão de muçulmanos ao Cristianismo considerada crime contra o próprio Allah (apostasia) e tratada com punições públicas incluindo pena de morte;
  • marcação nas mãos de cristãos e judeus para “tratamento distintivo” (seleção de bairros para não muçulmanos, permissão para estupro de filhas de cristãos e judeus, usurpação de riquezas). 

Além destas atrocidades, ocorriam várias agressões a símbolos religiosos cristãos. O Séc. X foi marcado pela destruição de várias igrejas e pela tentativa de destruição da Igreja da Ressurreição e da Igreja do Calvário. Já no Séc. XI, o grande episódio foi quando os muçulmanos trituram o túmulo da igreja do Santo Sepulcro até virar pó. Segundo a crença cristã, ali era o lugar onde estavam enterrados os ossos de Jesus Cristo.

Olhando para estas ocorrências, já se pode perceber que as relações entre muçulmanos e outras religiões não eram tão fraternas assim, mas a coisa perde o rumo de vez quando os Seljúcidas tomam Jerusalém. O Emir Ibne Cutalmiche entra na cidade sob a promessa de respeitar os povos não islâmicos que ali estavam, mas no meio do caminho ele dá uma pensada, e já para mostrar como seria o ritmo de sua gestão, mata 3000 pessoas na sua chegada. É então instituído o Sultanato de Rum com capital em Nicéia, fazendo referência ao que seria a “Nova Roma” deixando claras as ambições expansionistas dos muçulmanos.

Finalmente Governança e Estratégia

Neste momento, passaremos a tratar realmente de governança e estratégia. Então, precisamos falar a mesma linguagem. Considere que governança são todas as técnicas envolvidas na estabilidade de um conjunto que chamamos de política, sustentada sobre os pilares da conservação de poder, defesa da soberania e uso da força para proteção ou expansão de fronteiras.

A governança está extremamente ligada à estratégia, pois esta dirá o caminho a ser seguido para se obter tal estabilidade. 

Ao longo dos séculos as estratégias utilizadas nos deixaram alguns ensinamentos, dentre eles, os princípios de guerra.

Para análise das Cruzadas utilizaremos os seguintes princípios: 

  • Objetivo: Diz respeito ao estabelecimento de objetivos claramente definidos e atingíveis.
  • Unidade de Comando: Atribuição de autoridade unitária que dá coesão a um poder de combate.
  • Ofensiva: Caracteriza-se por levar a ação bélica ao oponente, se obter e
  • manter a iniciativa das ações
  • Moral: Estado de ânimo ou atitude mental de um indivíduo, ou de um grupo de indivíduos, que se reflete na conduta da tropa.
  • Massa: A concentração de forças para obter a superioridade decisiva sobre o inimigo. 
  • Surpresa: emprego de força onde o oponente, em um contexto de tempo e espaço, não esteja preparado ou só perceba a situação quando já não pode apresentar uma reação eficiente.
  • Prontidão: capacidade de pronto atendimento da Força para fazer face às situações que podem ocorrer em ambiente de combate.

Os pricípios de Guerra são estabelecidos para que os comandantes em cada nível de planejamento dê a tônica de sua intenção. Consideraremos aqui o Papa Urbano II como comandante no nível Político.

Dito isto, podemos voltar às confusões, mas ainda tratando de governança e estratégia.

Confusão 3 – …A Igreja Católica sedenta por poder, liderou uma série de expedições militares…

Não era sede de poder, era necessidade. Concordo integralmente com o Padre Paulo Ricardo quando ele afirma que as Cruzadas em direção ao Oriente foram, sob todos os aspectos, guerras de defesa. Os muçulmanos valiam-se do princípio da massa principalmente nas convocações das Jihad. Sua cavalaria, diferente da europeia, era leve e dispunha de arqueiros montados (sou instrutor de equitação e afirmo que lançar flechas estando montado não é para qualquer um). Com estas características de flexibilidade e mobilidade, possivelmente os Seljúcidas tomariam a Europa pelo Leste e avançariam rápido até tornar-se todo o continente dominado pelo Islã. 

Desenho de um cavalo

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Diante da ameaça Seljúcida, o Imperador Bizantino Aleixo I Comneno decidiu que precisava do apoio do Ocidente e enviou um embaixador ao Papa Urbano II. Aqui devemos lembrar alguns pontos:

  1. A Igreja da época havia sofrido uma Cisma que a dividiu em

Católica Apostólica Romana no lago ocidental e Igreja Católica Ortodoxa no lado oriental. 

  1. No Oriente a igreja era extremamente fragmentada;
  2. O Império Bizantino havia perdido várias batalhas para os Seljúcidas;
  3. Estamos falando da Idade Média, período em que cada Nobre defendia suas terras e seu povo, ou seja, não havia ainda a unidade nacional (Estado).

O Papa Urbano II, grande estrategista, percebeu a importância de atender ao chamado dos bizâncios. Naquele momento, o que estava em jogo era a defesa do velho mundo cristão e sua intensão estava carregada dos princípios de guerra. Por isso, considero o pontífice o grande nome no nível político. 

Depois da queda do Império Romano, a única instituição que poderia dar maior unidade de comando aos bellatores medievais era a Igreja. A unidade de comando é tão importante que assim como ela foi o fator de sucesso para os cristãos, particularmente da primeira cruzada, também foi o ponto chave do comando de Saladino, nas vitórias rivais séculos depois.

Estabelecer Jerusalém como objetivo a ser conquistado, apesar de ser muito pontual frente aos 400 anos de opressão muçulmana e seus vastos territórios, não só daria um sentido à força de combate europeia, como diminuiria consideravelmente os conflitos internos e elevaria o moral dos que se lançassem nesta arriscada empreitada. Valendo-se da surpresa, Urbano II convocou todos os cristãos para a missão, um pensamento mais acertado que o de Aleixo, que havia requisitado apenas 300 cavaleiros bem treinados para auxiliar no front.

Aconteceu que por volta de 100 mil europeus entre combatentes e não combatentes puseram-se em marcha, o que caracteriza também o princípio da massa e finalmente o princípio da ofensiva ao buscar o contato em terreno inimigo. Pode parecer contraditório falar em ofensiva numa guerra que afirmo ser defensiva, mas a história nos mostra que defesa não ganha guerra, por isso doutrinariamente toda operação defensiva deve ter em si o máximo de ações ofensivas. A prontidão ficou evidenciada posteriormente, principalmente pela cavalaria pesada europeia, que possuía a grande capacidade de se ajustar e manobrar de acordo com as evoluções do combate. Não posso dizer que o Papa pensou e calculou tudo isto, mas que ele acertou, ele acertou.

Imagem digital fictícia de personagem de desenho animado

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

…a fim de abrir rotas comerciais, saquear as riquezas dos muçulmanos…

Esta frase reflete o clássico materialismo histórico, a ótica marxista que explica absolutamente toda a história humana pelo vetor econômico. Funcionaria exatamente assim se não houvesse um detalhe chamado realidade. O documentário do History Channel sobre as Cruzadas, por exemplo, começa abordando os interesses tão somente materiais dos cruzados e, na cena seguinte, informa que a empreitada de enfrentar perigos em busca da terra santa custava pelo menos 6 anos de economias àqueles que tentassem. Estas duas afirmações seguidas só fazem sentido se existir realmente um maior vetor de fé e esperança, o que automaticamente relegaria a explicação econômica a planos secundários.

Imagino que se eu perguntasse a um defensor da ótica marxista, como cuidar da alimentação, consumo de água, acondicionamento de bagagens, higiene, saúde, segurança e hospedagem de 5 pessoas numa viagem de Rio até São Paulo num ônibus fretado, ele sentaria a choraria. Imagina um contingente com milhares de pessoas. A incapacidade de pensar nas dificuldades logísticas da época chega a ser assustadora: o trajeto Paris – Jerusalém representava mais de 3.200 km dos quais aproximadamente metade era em território cristão e os outros 1600 km eram em território inimigo. Para se ter uma noção de quão vantajosa era a viagem, dos 100.000 que partiram, chegaram ao cerco de Jerusalém por volta de 20.000. Não me parece vantajoso para os donos de terras, que já tinha suas inimizades na vizinhança… Novamente trago aqui palavras do padre Paulo Ricardo:

“Eles tinham profunda consciência do quanto eram pecadores, e estavam dispostos a suportar as privações da Cruzada como um ato penitencial de amor e caridade. A Europa está repleta de documentos medievais que confirmam esses sentimentos, documentos por meio dos quais aqueles homens falam conosco até hoje. Basta que os escutemos. É claro que eles não se opunham a capturar espólios quando isso era possível. Porém, a verdade é que as Cruzadas eram notoriamente ruins para a pilhagem. Poucas pessoas enriqueciam, mas a grande maioria retornava sem nada”.

Confusão 4 – …impondo o cristianismo aos adeptos da religião da paz…

Essa é a mais fácil. Simplesmente não há registro algum nas palavras do Papa Urbano que fazem menção à conversão dos muçulmanos. A ordem era clara: tomar a cidade santa das mãos dos opressores. Sobre religião da paz, há que se voltar um pouco à mentalidade islâmica. Para os muçulmanos, o conceito de paz não está ligado a um antônimo de guerra, mas sim a um ordenamento interior do espírito. Ou seja, estar em paz é estar em um local sob domínio de Allah, com todos os infiéis subjugados.

Confusão 5 – …no fim das contas as Cruzadas foram um fracasso.

Talvez essa afirmação faça sentido para aqueles que pensam que os feitos dos homens são relevantes apenas em seu tempo. Do ponto de vista dos resultados, as peregrinações retornaram, mas a cidade sagrada não fora efetivamente tomada como queria Urbano II. Jerusalém ficou sob domínio cristão por quase dois séculos. Mas o grande problema não era conquistar, e sim manter.

Contudo, acredito que a grande questão não era a Terra Santa. Jerusalém era um símbolo que promoveu a união da cristandade sob a cruz e, graças àquelas batalhas, hoje, você pode ler e discordar deste artigo, Sheila pode usar biquini (e não burca) e Enzo pode chamar seu pai de “papi” como tanto gosta.

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