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terça-feira, 26 outubro, 2021

ESPECIAL丨O velho-oeste entre História e Mito

Revista Mensal
Cassia Queiroz
Historiadora e cineasta com Especialização em Cinema e Educação. Mestranda em Patrimônio Cultural.

“Quando a lenda é mais forte que o fato, publique-se a lenda. ”

Célebre frase proferida pelo jornalista interpretado por Edmond O´Brien no filme O Homem que Matou o Facínora, realizado por John Ford.

Uma das minhas diversões preferidas na infância era assistir aos filmes de bangue-bangue com meu pai e, nas férias com meus primos e os moleques da fazenda, encenar histórias de cowboys no espaço entre o curral e um velho paiol de dois andares, conhecido como o nosso Monument Valley do Cerrado.

Monument Valley

O cinema é, sem sombra de dúvidas, o constructo cultural de um povo. O sucesso dos filmes de faroeste comprova a tese. É inegável a força que o imaginário do western, um gênero popular de filmes “B” das décadas de 10 a 50, alçado ao panteão dos clássicos, se impôs na construção de uma romântica conquista do Oeste americano, afetando de forma singular não só minha visão de mundo como historiadora e cineasta, mas a de centenas de pessoas.

O Mito

O gênero inaugura o cinema americano, no final do século 19, com Thomas Harper Ince e D. W. Griffith, o criador da montagem paralela, uma técnica de narrativa cinematográfica que dava mais emoção às cenas de resgate. Nessa época, já pensavam as produções com foco no índio americano. A inspiração para os enredos vinha da literatura de faroestes do meado do século 18, a qual alimentava o sentimento de que os cidadãos brancos e cristãos deveriam exterminar os cruéis selvagens para resgatarem suas mulheres capturadas.

The Battle of Gettysburg (1913), de Thomas Harper Ince

O filme Rastros de Ódio (1956) ilustra bem esse tópos do imaginário americano. A sombra ameaçadora do índio Scar, líder dos Comanches, diante da pequena e amedrontada Debbie, minutos antes de raptá-la, e o sentimento de angústia do tio Ethan (John Wayne) para resgatar sua sobrinha, “de um destino pior do que a morte”, eram relatos de experiências recorrentes nas dime novels dos anos 40.

Confesso que essa cena do rapto tomou um bom espaço na minha imaginação, provocando gargalhadas no meu pai, ao encenar, de posse da minha espingarda de chumbinho, como enfrentaria os índios, caso tentassem fazer o mesmo comigo.

A tradição do selvagem perseguindo viajantes pelo deserto do Oeste americano foi mantida por John Ford, que introduziu um elemento novo na história: o plano americano. Esticou o plano médio até o meio das coxas dos atores para que o revolver no coldre aparecesse na hora de sacarem a arma dando mais dramaticidade nas cenas de duelos.

Cena do clássico “No Tempo das Diligências”

Mas é preciso primeiro entender que “o tema dos filmes de western não são tiroteios, não são brancos versus índios, não são xerifes e bandidos, não é nem mesmo a fronteira. O tema é sempre um só e o mesmo: a lealdade, a força coesiva sem a qual a sociedade se desmantela”, como bem observa Olavo de Carvalho.

Esses valores e sentimentos inseridos nos roteiros tiveram como base um platô para a encenação das árias: um Oeste fantasioso habitado por homens valentes, mulheres frágeis e uma orgulhosa cavalaria, todos entranhados numa narrativa do medo dos cruéis selvagens que impediam a chegada do progresso e da civilização às terras do Far West ou extremo Oeste.

Essa visão ufanista do surgimento da nação americana, apresentada no filme Cimarrom (1931) com centenas de carroças, correndo em direção ao quase inabitável território de Oklahoma, rendeu ao gênero o primeiro Oscar de melhor filme.

Esse blend de personagens rústicos e padronizados com diálogos que passavam um conjunto de regras e convenções próprios da conservadora estrutura familiar americana; heróis solitários que, pelos seus próprios esforços, em meio ao caos individual e coletivo, conseguiam permanecer fiéis ao código de honra é, para o filósofo francês Jacques Rancière o “desejo de criar uma “imagem da sociedade imediatamente legível para todas as classes”.

Essa “tradição inventada”, idealizada da ‘América’, contribuiu para criar o espírito nacionalista republicano.

A História

A história tem outra versão. Os assentamentos de colonos pela Homestead Act, a Lei do Povoamento do Oeste, que Abraham Lincoln baixou em 1862, por exemplo, eram rigidamente controlados pelo governo e o porte e uso de armas, dentro das cidades, muito mais rigoroso do que atualmente. Em muitas dessas vilas se lia placas na entrada com os dizeres: “Você é bem-vindo, suas armas não”.

Os caubóis eram, na verdade, peões fortes e habilidosos no manejo do gado e cavalos, cuidando das propriedades rurais, e até mesmo da segurança local. Nessa época, era mais provável morrer de doenças e acidentes naturais do que de uma flechada dos temidos peles vermelhas. A Trilha de Lágrimas, iniciada em 1830 pelo governo americano, na qual milhares de indígenas da região Sul marcharam com os pés descalços, sob inverno rigoroso, rumo as reservas à esquerda do rio Mississipi, na região Oeste, contrasta com as cenas de ataques violentos de índios na maioria dos filmes de faroeste.

Trails of tears, as trilhas de lágrimas

Essa remoção genocida que devastou boa parte desses povos do norte da América gerou resistência de uns poucos grupos, como o do lendário Gerônimo, o destemido apache que aparece em “No Tempo das Diligências” (1939), liderando um bando que ataca a carruagem com nove adultos e um bebê durante a travessia pelo Monument Valley, já naquele tempo, reserva da tribo Navajo.

O fato é que a ferrovia em construção cruzava as áreas indígenas e, para inibir ataques recorrentes, o Exército construiu vários Fortes Militares, facilitando o extermínio das aldeias. Em 1876, os líderes indígenas reagiram a essa invasão, dizimando a 7ª Cavalaria do general Custer, conhecida como a Batalha de Little Bighorn.

Monumento em memória à batalha de Little Bighorn

Apesar do histórico massacre inspirar muitos filmes de faroeste, os índios perderam a guerra.

Gerônimo e Touro Sentado, chefes dos Sioux, presos por volta de 1880, viveram seus últimos anos como celebridades em eventos e apresentações típicas do velho Oeste.

Touro Sentado
Gerônimo

Nuvem Vermelha, outro guerreiro, virou porta-voz dos nativos americanos em Washington. Cavalo Louco, da tribo Cheyenne foi morto depois de capturado.

Nuvem vermelha

Mesmo assim, esse fascinante e lendário universo erigido no Monument Valley, uma região rochosa entre Orizona e Utah, se manteve por décadas contido num sentimento de fascínio e nostalgia, construído sob um imaginário sedutor que mantinha distância extrema entre a versão oficial dos fatos e a idealização da lenda. Com inconfundível genialidade, John Ford eternizou um Oeste que só existe no cinema, influenciando inclusive cineastas da estatura de Kurosawa com seus filmes de samurais.

John Ford, Homero do cinema

Recebeu da crítica o título de ‘Homero do cinema” e de Orson Welles a dedicatória de “o maior poeta que o cinema já viu”. Dos maledicentes, ganhou a pecha de reacionário, racista e extremista. Uma análise crítica mais acurada da sua obra merece um artigo à parte. Aqui, tentamos apenas fazer um espelhamento entre os dois Oestes americanos: o histórico, factual e o imaginário, criado pelas lentes do cinema

Logo no início dos anos 60, o Western americano começa a sofrer um revisionismo intelectual, inspirados por dois novos movimentos: o hippie e o feminismo, impondo críticas sociais ácidas aos novos enredos, espantando boa parte do público apreciador do velho oeste. Na década de 70 ele ressurge, do outro lado do Atlântico, na Itália, como subgênero inspirado no faroeste hollywoodiano, batizado, de forma irônica pela crítica, de spaghetti-western.

Spaghetti-western

Na perspectiva do imaginário, John Ford inspirou Kurosawa que inspirou Sérgio Leone que reinventou o faroeste com o seu primeiro filme Por um Punhado de Dólares (1964), colocando mais violência nas cenas, mais tiros e ruídos diegéticos na inconfundível trilha de Enio Morricone.

A nossa viagem cinéfila se encerra nos meados dos anos 80 ao som dos inconfundíveis assovios, gaitas, trotes de cavalos e tiros, muitos tiros durante as aventuras dos icônicos cowboys como John Wayne, Franco Nero, Terence Hill, Pa,ul Newman, Clint Eastwood, Charles Bronson, Henry Fonda, e tantos outros não tão famosos. Nos despedimos com um estonteante pôr do sol, típico da paisagem desértica do Oeste, com ângulos e enquadramentos únicos, captados pelo gênio artístico de John Ford.

Cena de “Os indomáveis”, que renova o imortal gênero western

A opera horse, como ficaram conhecidos os westerns italianos, sai das telas do cinema. Mas a raiz, a essência primacial que inspirou o gênero, ainda sobrevive na alma do homem americano comum, o ultimo guardião de valores e princípios de uma nação que há tempos vem se perdendo num emaranhado de novos costumes, idéias e equívocos.

Essa é a magia do cinema e, também, a responsabilidade nossa, enquanto cineastas: a de espelhar o mundo real e o imaginário num misto de histórias, lendas e mitos para contarmos a nossa própria odisseia.

Cassia Queiroz é historiadora e cineasta, com Especialização em Cinema e Educação, atualmente mestranda em Patrimônio Cultural.
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