Nesta edição, Claudio Dirani explora artefatos raros, habilidades e dados pouco conhecidos do Brasil imperial

Dom Pedro I ganhou fama mundial por declarar oficialmente a independência brasileira – e por sua atuação na Guerra Civil Portuguesa.
Para quem sempre preferiu curtir as fofocas da Corte, Dom Pedro era tratado com certo escárnio, principalmente por suas aventuras extraconjugais. Aqui na CrossRoads, você já sabe: não existe espaço para “fuxicos monárquicos” ou algo parecido. A missão imperial será a de abordar mais sobre os dotes musicais de nosso primeiro imperador, além dos feitos culturais de outras personalidades do Brasil monárquico. Boa leitura.

A versatilidade musical de Dom Pedro I

Nascido em Rohau, Áustria, o consagrado pianista e maestro Franz Joseph Haydin (1732-1809) foi professor de Sigismund Ritter von Neukomm (1778-1858) – outro austríaco com ligação direta com o Brasil. O que é pouco (ou quase nada) divulgado é que Neukomn foi um dos professores de música de Dom Pedro I.

Pedro, como destacaria mais tarde sua esposa, Dona Leopoldina, era muito versátil e dedicado musicalmente. Em uma das cartas ao pai, Francisco I, da Áustria, Leopoldina afirma: “Ele toca viola e violoncelo, toca todos os instrumentos, tanto os de corda como os de sopro”.

Além de tocar com excelência, nosso imperador nativo de Queluz também se destacava na composição. Sua peça mais famosa é a canção patriótica, popularmente conhecido como Hino da Independência do Brasil, com letra de Evaristo da Veiga – ambos compostos em 1822, data da independência.

Antes de criar sua música mais famosa, há registros em partitura de mais três composições. A primeira foi o Hino a D. João (1817), dedicado ao pai, Dom João VI. Já em 1820, Pedro compôs Te Deum, em homenagem ao nascimento de João Carlos Pedro Leopoldo Borromeu de Bragança, o Príncipe da Beira, seu terceiro filho

Em 1821 foi a vez do Hino Constitucional, seguido pelo Hino da Independência e o Hino Novo Constitucional (1832). Outra peça de sua autoria (porém, sem partitura oficial) é o Hino Maçônico Brasileiro.

Leopoldina: estadista e amante das ciências naturais

Leopoldina registrada em óleo com a Ordem do Cruzeiro do Sul

Nascida em Viena em 22 de janeiro de 1797, a arquiduquesa da Áustria foi batizada como Josepha Leopoldine Franziska Ferdinanda of Habsburg-Lorraine.
A filha do imperador Ferdinand I, a exemplo da aristocracia do século XVIII, teve uma formação erudita e completa. Além de aprender francês e latim, a futura imperatriz e esposa de Dom Pedro I estudou piano e desenho, além de receber lições de equitação e técnicas de caça. De acordo com registros publicados pelo biógrafo de Dona Leopoldina, o nome “Maria” foi adotado somente quando a austríaca já estava em terras brasileiras.

Em 13 de Agosto de 1822, aos 25 anos de idade – e a poucos dias da declaração de independência – a imperatriz consorte Leopoldina assumiria o posto de Princesa Regente do Reino do Brasil, durante a jornada de Dom Pedro I em São Paulo. Ao ser informada que Portugal agia para atacar o Brasil, Leopoldina se reuniu com o Conselho de Estado para assinar o decreto formal de independência.

Fazenda Santa Cruz: Leopoldina cuidava de animais em um posto de zootecnia instalado na residência de verão imperial brasileira

Durante seu período de formação educacional, Leopoldina pode estudar algumas de suas disciplinas favoritas, como Botânica, Mineralogia, Física e Astronomia. O interesse em ciências naturais a motivou colecionar plantas e animais.

Sua influência junto a Dom João VI garantiu a aprovação de um decreto datado 6/6/1818 para a criação do Museu Real. Já na Fazenda Imperial de Santa Cruz (atualmente o Batalhão Escola de Engenharia Villagran Cabrita), Leopoldina cuidava de animais domésticos em um posto de zootecnia. A imperatriz consorte também era interessada em mineralogia, e por sua vez montou uma biblioteca com uma vasta coleção de livros sobre o tema, além de uma coleção de rochas trazidas da Áustria.

Dom Pedro II e os diários de bordo

Relatos do Magnânimo: a viagem do imperador no bicentenário dos Estados Unidos (Imagem: Museu Imperial)

Em 26 de março de 1876, Dom Pedro II partiu rumo aos Estados Unidos ao lado da esposa, Dona Teresa Cristina, para uma jornada exploratória, iniciada em 15 de abril, em Nova York. A viagem não foi oficial, embora o presidente Ulysses Grant o tenha convidado para a cerimônia do centenário de independência americana em 4 de julho. O efeito da passagem de Pedro II pela América foi sem precedentes, tanto que chegou até a receber votos espontâneos dos eleitores nas eleições presidenciais seguintes!

(…)

Em 2015, o site oficial do Museu Imperial decidiu disponibilizar os 43 diários de bordo de D. Pedro II, com os registros digitalizados de sua aventura pelo norte da América. Ao acessar o material, os links do Museu já não estão mais online. Aparentemente, foram tirados do ar pelos administradores do Museu.

Depois de escavar muito a Internet, descobri o material arquivado em cache.

Confira algumas passagens dos diários do Magnânimo:

Monarca ilustre: a passagem de Dom Pedro II descrita pelos norte-americanos (Imagem: New York Public Library)

4.07.1876

“Às 7 saí para assistir à inauguração da estátua de Humboldt no Fairmount Park. Chegando antes das 8 dei ainda um passeio de carro no parque. Às 8 ainda não tinha chegado na comissão diretora. Falei com o comissário alemão na exposição. Apresentou-me o cônsul Schumacher e enfim vendo que tardava a cerimônia – eram 9 retirei-me.

O vento descobriu a estátua – é de Drake – e pareceu-me a fisionomia não está muito parecida. Está de pé com uma folha na mão esquerda onde se lê Cosmos. No pedestal de granito lêem-se datas de nascimento e morte – Os cidadãos alemães da cidade de Filadélfia – o cônsul disse-me andarem por 100.000 – e estas palavras tiradas do Cosmos – Nature is the Empire of freedom – As outras inscrições também são em inglês.

Na volta custou-me a romper o povo para chegar ao hotel, sobretudo porque a tropa vinha marchando; mas com algumas cotoveladas consegui entrar no hotel. Almocei e fui para a festa. Que calor! O hino de Carlos Gomes não se ouvia quase pela distância e bulha do povo. A poesia de Bayard foi bem recitada pelo autor. Evarts proferiu como orador amestrado o seu discurso escrito e interminável; mas a sua voz não é forte e creio que o respeitável público aplaudia quando ele acionava com mais energia. A praça ao pé do City Hall estava apinhada.

11.07.1876

“Antes do almoço cortei o cabelo e fui ao Instituto dos cegos. Casa grande, onde estão 100 e tantos podendo admitir muito mais. Todos se acham fora. Curso completo para os superiores. Parece pouco cuidarem de artes que exijam mais perícia manual que inteligência. Tem 13 pianos e aprendem música e a afiná-los. Vi um processo de escrita por pontos mais rápidos e demandando menos espaço. Trouxe um livro explicativo. Também há um cilindro, que por seu movimento circular e carreiras verticais de bilhetes indica facilmente ao cedo seu número para saída quando o merece por sua aplicação e bom procedimento em geral…

   Depois do almoço no Delmônico – 5th Avenue nº 14 com o Bom Retiro e o Fontes – tardou o almoço; porém não desconceituou a casa afamada – fui ao New York Times. Vi lá um modelo de máquina de secar café por meio de vapor de água na razão de 10.000 ££ por dia em 40 tabuleiros de 63 [sic]cada um, consumindo a caldeira uma corde de madeira como combustível”.

fim
Revista Esmeril - 2020 - Todos os Direitos Reservados

1 Comments

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado.

This div height required for enabling the sticky sidebar
Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views :