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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

CONVERSAR É PENSAR JUNTO丨Sobre Dinheiro, Moeda, e Outros Temas Indigestos

Revista Mensal
Paulo Sanchotene
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é mestre em Direito pela UFRGS e possui um M.A. em Política pela Catholic University of America. Escreveu e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. É casado e pai de dois filhos. Atualmente, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, onde administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna).

Personagens: Eugênio e Ideu.
Cenário: dois amigos estão sentados a uma mesa de bar; na mesa, dois copos e umas garrafas vazias.


– CENA –

[Eugênio] Mas a inflação não pára de subir. O dólar está nas alturas. Tudo só piora. Fico me perguntado se nunca vamos ter uma folga!

[Ideu] Acho que não tão cedo. O problema é mundial, o Brasil tem dificuldades de fazer o dever de casa, e nós não somos bem-tratados internacionalmente.

[Eugênio] Mas o que a gente pode fazer?

[Ideu] Torcer para o melhor e se preparar para o pior. Sempre. Àquilo que a gente não pode resolver, só podemos nos ajustar.

[Eugênio] Falar é fácil…

[Ideu] Se ajudasse ficar ansioso ou se preocupando, eu seria o primeiro a defender que ficássemos!

[Eugênio] Hahahaha! Está certo. Tens razão.

[Ideu] Vê bem. Não digo que seja fácil manter a tranquilidade. Quiçá eu peque pelo excesso de inação, o que também é um problema. Só quis argumentar que ansiedade atrapalha.

[Eugênio] Estou em total acordo contigo. “Will it help?

[Ideu] Ha! Da Ponte dos Espiões (2015), filmaço com o Tom Hanks.

[Eugênio] Bem esse o filme! Mas estávamos falando da situação econômica. Como é que se chegou nesse ponto?

[Ideu] No Brasil ou no mundo?

[Eugênio] Nos dois.

[Ideu] Bem, se eu te dissesse que tenho a resposta, eu estaria mentindo. Eu tenho suspeitas. São decorrentes de coisas que ouvi de gente que entende disso melhor do que eu; mas quem está dizendo sou eu. Então, é possível que eu tenha entendido tudo errado.

[Eugênio] Tudo bem. Eu perguntei para ti.

[Ideu] Ótimo. Só quis ressaltar minha ignorância.

[Eugênio] É menor que a minha. Por isso que te pergunto.

[Ideu] Olha, para mim, o problema estaria baseado em ilusões: de que fazer dinheiro do nada é benéfico; e de que consumo é melhor do que poupança.

[Eugênio] Poderias explicar melhor? Por que mais dinheiro para as pessoas seria ruim? E se todo mundo guardar dinheiro, como a economia pode crescer?

[Ideu] São essas questões que baseiam as ilusões. Mas é bom fazer tais perguntas. O problema começa quando a gente não se pergunta sobre as coisas.

[Eugênio] Já estás me enrolando…

[Ideu] Tão fácil de perceber!? Já vi que não tenho saída. Terei que ser direto.

[Eugênio] Sim!

[Ideu] Hahahahaha! Escuta, dinheiro na mão das pessoas não é necessariamente ruim. Só que faz diferença tanto que dinheiro é esse quanto como foi parar com elas.

[Eugênio] Certo. Continua.

[Ideu] O que é o dinheiro? Tu sabes?

[Eugênio] Um meio-de-troca.

[Ideu] Exato. Melhor dizendo, é ‘o’ meio-de-troca. É o bem utilizado para equilibrar a medida de valor entre bens diferentes. Imagina que tenho uma vaca, e tu, uma bananeira. Eu quero tuas bananas, mas tu não não queres o meu leite. O dinheiro permite que eu não precise descobrir o que tu queres, encontrar alguém que tenha isso e queira meu leite para eu fazer escambo com ele e depois contigo.

[Eugênio] Esse bem que eu quero passa a ser ‘dinheiro’.

[Ideu] Exato, e por ser ‘o’ meio-de-troca. O dinheiro é o bem que substitui todos os outros bens num negócio. Com dinheiro, tu mesmo podes ir atrás dos bens que queres.

[Eugênio] Até aqui eu entendi, mas o que isso tem a ver com a pergunta que fiz?

[Ideu] O dinheiro, por ser um bem, também está sujeito às leis de oferta e demanda. O dinheiro, apesar de ser a medida de valor comum aos bens econômicos, também tem um preço. Quanto maior a oferta da moeda, menos essa vale; quanto maior a demanda por moeda, o efeito é o contrário.

[Eugênio] Então, está dizendo que mais dinheiro para as pessoas faz com que o dinheiro valha menos.

[Ideu] Depende. Eu troquei “dinheiro” por “moeda” por uma razão, mas em linhas gerais é por aí. Essa desvalorização monetária é chamada de ‘inflação’; e a valorização, de ‘deflação’.

[Eugênio] Mas inflação não é aumento de preços?

[Ideu] Não! As pessoas confundem isso, mas são coisas diferentes. Inflação é o aumento de preço geral dos bens decorrente da perda de valor da moeda. Como o dinheiro perde valor em relação aos demais bens econômicos, é preciso mais moeda do que antes pra adquiri-los.

[Eugênio] Qual a diferença entre “dinheiro” e “moeda”?

[Ideu] ‘Dinheiro’ é o termo genérico para o bem utilizado no pagamento de um negócio; a ‘moeda’ é um bem específico. Por exemplo, imagina que tu és agricultor. Nós podemos fazer um negócio em que tu me pagues com a tua produção. Ao invés de tu me deveres ‘xis reais‘, tu me deves ‘ypsilon toneladas de grãos‘. Não importa quanto seja o preço dos grãos na data de pagamento. Nesse caso, no nosso negócio, não há moeda diretamente envolvida. O dinheiro é o grão.

[Eugênio] Entendi. Qualquer coisa pode ser “dinheiro”, mas moedas são dinheiro.

[Ideu] Quando a gente entra nos detalhes, isso complica um pouco mais; mas, por ora, essa definição serve para nós. O importante agora é entender que simplesmente encher a economia de moeda faz com que essa moeda perca valor. Então, colocar moeda na mão das pessoas até pode ajudar aquelas que recebem imediatamente, mas às custas do equilíbrio do valor dessa moeda no mercado.

[Eugênio] “Mercado”?

[Ideu] ‘Mercado’ é um termo genérico para designar qualquer local – seja físico, virtual, hipotético, ou até fictício – onde trocas econômicas acontecem. Qualquer negócio econômico ocorre no ‘mercado’.

[Eugênio] Me desculpa se te interrompo, mas é que são tantos nomes que me perco.

[Ideu] Tu trouxeste o tema e queres minha opinião. Nada mais justo que peças esclarecimentos. Não há do que se desculpar. Injetar moeda artificialmente no mercado pode gerar benefícios, dependendo do problema que se tenha, mas é preciso ter cuidado. É como um remédio que pode causar dependência; e, ademais, inflação tende a empobrecer as pessoas – exatamente o efeito contrário do desejado ao dar-se dinheiro a elas.

[Eugênio] Ah! É difícil perceber como ter mais dinheiro empobrece, mas agora te entendi. É porque se dá mais moeda; mas essa vale menos dinheiro.

[Ideu] Ao menos, é isso que aprendi.

[Eugênio] Mas faz sentido!

[Ideu] Chê, tu que gostas de cinema precisas assistir, ao menos, três filmes: A Lavanderia (2019), Grande Demais para Quebrar (2011) e A Grande Aposta (2015). Se preferires, os dois últimos são baseados em livros – os quais, confesso, ainda não li. O “Grande Demais…” é baseado no Too Big to Fail (2009), de Andrew Sorkin; e “A Grande Aposta”, no The Big Short (2010), de Michael Lewis. Mas há dois vídeos curtos, excelentes, e engraçadíssimos no YouTube que podes assistir já hoje, no caminho para casa inclusive: o Subprime Crisis (2008), do pessoal do Monty Python; e o Fear the Boom and Bust (2010) – uma genial disputa de rap entre Hayek e Keynes.

[Eugênio] Anotei aqui as recomendações. Esses vídeos estão em inglês?

[Ideu] Sim, mas ambos com legenda. É tranqüilo para acompanhar. Sério. Assiste os dois. Assiste tudo! O problema é muito mais profundo do que programetes sociais de meia-dúzia de reais para os mais necessitados. O atual modelo econômico em voga no mundo está fazendo água, mas ao invés de se fazer qualquer mudança, só o que se faz é “dobrar a aposta”. É basicamente tratar abstinência de viciado com mais droga.

[Eugênio] Mas aí o tipo morre de sobredose!

[Ideu] Pois aí é que está. Meus conhecidos que me explicaram isso só não estão rindo porque não sabem quando vai quebrar de vez. Mas que vai quebrar, vai…

[Eugênio] Mas e aí?!

[Ideu] Eu digo o seguinte. Será ruim para praticamente todo mundo. Porém, nós brasileiros estamos acostumados com a merda. A gente sofrerá, mas como já somos pobres, perderemos proporcionalmente menos que as pessoas dos países ricos. Eles ainda estarão melhores do que a gente, mas a sensação deles será pior que a nossa.

[Eugênio] Não sei se isso é reconfortante.

[Ideu] Não é, mas ajuda a pensar se vale a pena ir morar no estrangeiro. Pode ser que seja, mas tenho minhas dúvidas. Brasileiros, como comunidade, somos resilientes. Dói, mas a gente mata no peito e segue adiante. Outros povos tendem a reagir de maneira mais grave. Contudo, isso é secundário para nós dois aqui e agora. É mais relevante o fato de isso nos levar à resposta da tua segunda pergunta.

[Eugênio] Sobre gastos e poupança?

[Ideu] Essa. As duas questões são interligadas. A injeção de moeda na economia não é ruim, caso a economia real cresça a ponto de equilibrar a oferta. O valor da moeda como dinheiro está atrelado à economia real. Só que hoje em dia não é só na Casa da Moeda que se cria dinheiro. Os sistemas bancário e financeiro fazem isso.

[Eugênio] Explica melhor isso.

[Ideu] Uma das formas comuns de inflação é um governo arrecadar menos do que gasta e ter que cobrir a diferença com mais moeda. Porém, há a produção privada de moeda, através de títulos, que são usados como meio-de-troca em negócios. Esse foi o problema da ‘bolha imobiliária’. O problema hoje é que essa produção é praticamente para-estatal, promovida através de políticas públicas. A diferença entre o público e o privado é confusa.

[Eugênio] Que é confusa, eu percebo! Por isso que pedi para tu explicares…

[Ideu] Estou fazendo o melhor que posso, mas não sou especialista. Vou explicar o lado privado da coisa; o normal. Depois, a gente vê como isso se transformou em insanidade. Imagina, de novo, que tu és agricultor. Lembras daquele nosso negócio?

[Eugênio] Eu te pagava com aquilo que produzi.

[Ideu] Com aquilo que irás produzir! Até tu produzires, só o que eu tenho é uma promessa. Até lá existe uma expectativa de que a economia crescerá com o nosso negócio. Percebes a diferença?

[Eugênio] Sim.

[Ideu] Se tu não produzires, o que eu terei é uma dívida. Se tu conseguires pagar a dívida, o efeito econômico do nosso negócio é zero. Se tu tivesses produzido, o efeito seria positivo. Nós dois teríamos gerado riqueza. Agora, se tu não produzires e tampouco pagares o que me deves, o efeito é negativo. Não apenas se deixou de gerar riqueza, mas tanto nós quanto a economia em geral ficamos mais pobres.

[Eugênio] Entendi, mas não sei onde queres chegar com isso.

[Ideu] A expectativa gera efeitos instantâneos. O nosso negócio foi feito através de um contrato. Eu posso pegar esse contrato e passá-lo adiante. “Olha, eu não tenho dinheiro agora, mas irei receber do Eugênio na safra. Posso te pagar com isso?” E o tipo aceita. E, mais, ele aceita considerando, como nós dois fizemos no contrato, um valor hipotético para o grão – que pode ou não se confirmar. Posso ter combinado contigo esperando que o valor esteja em dez reais o saco, mas vendi para alguém que espera receber quinze reais.

[Eugênio] Qual o teu ponto?

[Ideu] O nosso contrato gerou dez reais na economia agora, mas que só serão confirmados no futuro. Meu segundo negócio gerou mais cinco sobre aqueles dez. A economia real cresceu zero, mas a financeira já cresceu quinze apenas com a esperança de que a economia real vá cumprir o prometido.

[Eugênio] Bah! Nunca tinha pensado nisso!

[Ideu] Só que isso é normal. Riscos são naturais a qualquer negócio. Dito isso, agora essa mesma dinâmica aplicada a títulos públicos, hipotecas, enfim, com os empréstimos dos mais variados. Se as expectativas não se confirmam, aquele dinheiro que se imaginava ter desaparece.

[Eugênio] E aí acontecem essas quebradeiras.

[Ideu] Exatamente. Mas quebradeira é do jogo. Pode-se fazer investimentos e não darem certo pelos mais diversos motivos. O jogo apenas ficou maior. Contudo, se eu te dissesse que bancos não apenas emprestam poupança de seus correntistas – o que seria da natureza do negócio – mas dinheiro que não têm? Tudo legal e autorizado pelo banco central.

[Eugênio] Mas isso distorce ainda mais as expectativas!

[Ideu] Sim, esses empréstimos geram inflação – tal e qual os gastos públicos em excesso. Agora, da mesma forma que o nosso negócio de agricultura, se esses investimentos derem retorno está tudo bem. Agora, se não derem…

[Eugênio] A quebradeira é generalizada.

[Ideu] Perfeito. E quando esses empréstimos são para estimular consumo, há menos poupança para dar lastro aos investimentos. Percebe que a poupança pode estimular a economia, desde que não seja aquela de guardar dinheiro no colchão. Quando não há poupança, os investimentos só podem ser feitos com dinheiro sem lastro.

[Eugênio] E dinheiro sem lastro é grátis, não é isso?

[Ideu] É exatamente isso – ao menos, no sentido de não ter valor. E há um outro efeito decorrente disso, pois dinheiro de sobra estimula mal investimentos.

[Eugênio] Imagino que dinheiro de menor valor levaria as pessoas a arriscar mais.

[Ideu] Ou a gastar mais sem necessidade. E nem falei que há quem se creia protegido de quebra – e quiçá até esteja. Consegues imaginar?

[Eugênio] Imagino um estrago!

[Ideu] Pois é! O resultado de tudo isso, no fim, é o mesmo. Aquele dinheiro que se acreditava estar ali, de uma hora para outra, desaparece. É o que aconteceu com a crise imobiliária, e que acontecerá novamente numa escala ainda maior. Só não sei quando.

[Eugênio] Bah! Cheguei a me sentir mal. Que tema indigesto!

[Ideu] É? Hmmm… Pode ser que seja, mas acho que teu problema é outro.

[Eugênio] Qual?

[Ideu] Nós estamos conversando há tempos e paramos de beber!

[Eugênio] Verdade. A mais pura verdade! [Garçom, mais duas cervejas, por favor.]

[Ideu] [Traz duas para mim, também!]

[Eugênio] Hahahahahah!!! Depois desse nosso papo, acho que vou concordar contigo. Uma é pouco…

– FIM –

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