Cenário: Redação de uma revista; sala do editor-chefe. A editora está sentada à sua escrivaninha, quando um dos redatores entra na sala.

Personagens: Bruna e Paulo

CENA

[Paulo] Com licença. Você me chamou?

[Bruna] Entre, Paulinho, por favor. Chamei… Mas por que o “você”?

[Paulo] Pela formalidade. Você é a chefe.

[Bruna] Mas “você” é informal.

[Paulo] Não o é para mim. “Você” é pronome de tratamento. Como “senhora” me pareceu exagerado, e tuteá-la seria inapropriado, achei que o mais adequado fosse tratá-la por “você”.

[Bruna] Entendi. Olhe, primeiro, eu dispenso formalidades. Você não precisa se preocupar com isso. Segundo, e não me entenda mal, ouvi-lo falando “você” soa muito estranho. Você pode me tutear à vontade.

[Paulo] Ah, buenas. Como preferires. Pois, voltando, tu ias me dizer por que me chamaste aqui.

[Bruna] Justamente. O resto da equipe já está sabendo. Queria lhe avisar que o tema da próxima edição será “Mulheres”.

[Paulo] Opa! Gosto muito… Mas é um desafio e tanto.

[Bruna] Confio plenamente na sua capacidade. É o mês do Dia Internacional das Mulheres, e eu gostaria de apresentar um contraponto à visão feminista sobre o ser feminino.

[Paulo] Tudo bem. Entendo perfeitamente, e agradeço a confiança. Acredito que a edição ficará muito boa. A equipe, contando com a chefe, é recheada de mulheres – e de mulheres talentosas. Todavia, hás de convir, a parte masculina do time sai no prejuízo.

[Bruna] Como assim? Você mesmo escreveu um lindo texto sobre mulheres, Paulinho!1 Quando li o que você escreveu lhe disse: “Você está certo em cada caractere.” Lembra? Eu tematizei o mesmo assunto num vídeo.2 Sem saber, fizemos o mesmo ponto – ainda que por perspectivas diferentes. Homens podem falar de mulheres.

[Paulo] Eu sei. A gente fala bastante…

[Bruna] De forma elevada, Paulinho!

[Paulo] Hahahahahahaha!!! Sim. Isso, também. É o papel da revista, afinal de contas.

[Bruna] Qual o problema, então?

[Paulo] Olha… Sinceramente, é praticamente um trabalho de Teologia – escrever sobre aquilo que não se pode conhecer. Mulher é um ser enigmático; indecifrável.

[Bruna] Hahahahahahaha! Só você, mesmo…

[Paulo] Tu ris, mas é sério. A relação do homem para com a mulher é quasi-religiosa. Afinal, a base é amor e fé, sacrifícios e oferendas!

[Bruna] Sua esposa é uma mulher feliz. Esta é a visão correta e lúcida sobre o tema.

[Paulo]Happy wife; happy life3, como se diz em inglês. Assim espero! Mas o desafio é colocar a teoria em prática. Infelizmente, não é fácil… Aliás, nem sei se seria “infelizmente”. Se fosse fácil, não teria graça!

[Bruna] Hahaha! Excelente!

[Paulo] Não raro, me vejo em situações em que só me resta escolher o que acredito vá incomodá-la menos. Quando chega a hora, só o que posso fazer é encarar meu destino como homem.

[Bruna] E como seria isso?

[Paulo] Com coragem, oras! Tu leste meu texto. Coragem é uma virtude masculina. Se fez a cagada, que arque com as consequências. Fugir seria covardia.

[Bruna] Mas por que você não escreve sobre isso?

[Paulo] Sobre a minha relação conjugal? Eu digo que lá em casa sou o rei: só exerço uma função figurativa.

[Bruna] Hahahahahaha! Nunca sei quando você está sério ou brincando.

[Paulo] Nem eu…

[Bruna] Sei… Está bem. Veja, o monarca não é inútil. Mais que figuração, é um paradigma para a sociedade que reina. Ainda que não governe, continua sendo responsável pela preservação da comunidade.

[Paulo] Me lembraste do meu texto agora.

[Bruna] Mas é sobre esse que sugiro que você escreva.

[Paulo] Mesmo não sendo inédito e falando sobre homens?

[Bruna] Você tem condições de apresentá-lo de forma inédita, e estou certa que o texto é sobre mulheres, ainda que a perspectiva seja masculina.

[Paulo] Somos mesmo interdependentes…

[Bruna] Com toda certeza!

[Paulo] Deixa-me ver se entendi. Queremos apresentar um contraponto ao feminismo, certo?

[Bruna] Certo. É exatamente isso.

[Paulo] Creio que seja impossível fazer isso sem falar no seu irmão siamês: o machismo. No meu texto, eu falo contra a tal “masculinidade tóxica”.

[Bruna] Você acredita nessa bobagem?

[Paulo] Sim, o fenômeno existe. Como o escrevi, o nome é que está equivocado.

[Bruna] Como assim?

[Paulo] É uma expressão infeliz para designar “machismo” ou “misoginia”. O objetivo é fazer dessas aberrações o paradigma do “macho”, do homem do sexo masculino. É nisso que machismo e feminismo se equivalem. A misoginia surge de uma incompreensão da natureza humana. O feminismo é reativo, mas cai em falácia semelhante.

[Bruna] São ideologias.

[Paulo] Isso. São bem isso, como enfatizas no teu vídeo. Da mesma maneira que o machista não é homem, a feminista não é mulher. Afinal, ideologias são desumanizantes.

[Bruna] O feminismo por ser contra o homem acaba por ser contra a mulher.

[Paulo] Exato. Não se pode querer brigar contra a realidade. Apenas mulheres podem engravidar, e isso gera consequências – gostemos dessas ou não.

[Bruna] Pensamos muito parecidos nesse ponto.

[Paulo] É reconfortante saber que, se estou errado, ao menos, não estou sozinho.

[Bruna] Hahahahahaha! Com certeza.

[Paulo] Aliás, ideologias não são liberais nem conservadoras; tampouco são de direita ou de esquerda. Essas são classificações políticas. Se o homem é um animal político, e ideologias são desumanizantes, ideologias não podem ser políticas. São exatamente seu contrário.

[Bruna] Política é o remédio para ideologia. É isso?

[Paulo] Eu acho. Política propriamente compreendida, claro. Política é da natureza humana, pois a vida em comunidade é algo para nós inescapável. Antes de sermos indivíduo, somos uma comunidade com a mãe. A gravidez é a nossa primeira relação “política”; quando somos forçados a acomodar os mútuos interesses de mãe e filho ainda no ventre. A mulher grávida é uma rainha; seu ventre, um reino; e os fetos, seus súditos.

[Bruna] Hum?! Olhe… No mínimo, essa perspectiva é intrigante.

[Paulo] Obrigado. Esse é o nosso objetivo, não? Precisamos pensar sobre esses temas. Aliás, percebe que a mulher é mãe antes de o homem ser pai. Vocês têm uma relação como que imediata com a prole; com quem vocês compartem o corpo. Se somos rei, nossa relação com os súditos começa indireta. Nós ficamos esperando a nossa vez por nove meses, e, mesmo depois do nascimento, a criança ainda passa um bom tempo dependente da mãe.

[Bruna] Perfeito. Como mãe, sei bem. Passei por isso.

[Paulo] Isso demanda da mulher. É aí que entra o homem. Para que a mulher possa cuidar adequadamente dos filhos, é necessário que alguém cuide da mulher. É por isso que a família é fundamental. Há uma natural divisão de tarefas.

[Bruna] Fica tudo muito difícil sem essa divisão.

[Paulo] Evidente que fica! De novo, isso tem consequências políticas. Claro, não estou afirmando que a mulher deva ficar presa aos afazeres domésticos. Tu és prova disso.

[Bruna] Obrigado.

[Paulo] Mereces. Eu falei em “excelentes mulheres do nosso tempo”, mas no vídeo tu deste exemplos de grandes mulheres na História. Olha o ridículo que era proibir o voto feminino no Reino Unido, quando a Inglaterra havia sido governada pelas rainhas Maria, Izabel e Vitória. Não seriam prova de que mulheres têm total capacidade de participar da política?

[Bruna] Para mim, parece óbvio.

[Paulo] Nesse cenário, o voto não poderia ser masculino. Se foi, a razão deveria ter sido meramente acidental. O voto não era dos homens, mas da família. Cada família, um voto.

[Bruna] Nunca havia pensado nisso.

[Paulo] Eu, tampouco; mas depois que a gente ouve fica claro, não?

[Bruna] Sim! O homem votava por ser consequência da divisão de tarefas.

[Paulo] Precisamente. Mas o machismo fez com que se imaginasse o voto como sendo uma prerrogativa exclusivamente masculina; proibindo injustamente mulheres chefes-de-família de votar.

[Bruna] Isso muda tudo!

[Paulo] Completamente. O debate passou a ser pelo voto feminino; não, pela representação individual. Posta nesses termos, a discussão empobreceu. Esse é só um exemplo de como o machismo levou a uma compreensão equivocada da realidade. O feminismo agora segue por caminho semelhante.

[Bruna] É exatamente o que quero ver publicado na revista.

[Paulo] Entendi, então. Mas há tanto por falar.

[Bruna] Há mesmo. A edição deste mês deve ficar muito boa!

[Paulo] Outro ponto: as mulheres não são frágeis! Frágeis são os filhos. O homem cuida da mulher para que ela possa cuidar das crianças; e “cuidar da mulher” pode muito bem incluir tarefas domésticas. O homem não é menos homem ajudando em casa, nem sendo subordinado a uma mulher.

[Bruna] Não é uma competição.

[Paulo] Claro que não! O homem e a mulher formam uma equipe. Um ajuda o outro.

[Bruna] As pessoas têm dificuldade de entender algo tão simples!

[Paulo] Muito. É impressionante. A propósito, quando faremos um número sobre a família?

[Bruna] Eu quero fazer, mas ainda não tenho um mês definido.

[Paulo] Precisamos conversar sobre isso.

[Bruna] Claro! Mas não agora. Você tem um texto para escrever, e eu preciso cuidar da edição deste mês.

[Paulo] Tudo bem, chefe. Tu mandas. Com licença, e um bom dia!

[Bruna] Bom dia, Paulinho. Pode deixar a porta aberta, por favor.

– FIM –

Notas:

1 O texto “Coragem: virtude masculina” segue publicado abaixo na íntegra: https://www.facebook.com/paulo.r.t.sanchotene/posts/528876264270456

CORAGEM: VIRTUDE MASCULINACoragem e macho (homem do sexo masculino) compartilham a mesma raiz em grego. Não que…

Posted by Paulo Roberto Tellechea Sanchotene on Monday, January 28, 2019

2 Para assistir o vídeo “Por que as feminazis são infelizes?” acesse: https://www.youtube.com/watch?v=NuC8NLZ1tSc

3 Em português: “Esposa feliz; vida feliz.”

3 Comments

  1. Evidentemente que isto não é a única forma de se dividir o texto acima, mas gostaria de compartir com os leitores como EU entendo esse estar dividido. Pode ser útil para a compreensão do texto.

    —-

    1) Prólogo
    Início – [Paulo] Com licença. Você me chamou?
    Fim – [Bruna] Entendi. Olhe, primeiro, eu dispenso formalidades. Você não precisa se preocupar com isso. Segundo, e não me entenda mal, ouvi-lo falando “você” soa muito estranho. Você pode me tutear à vontade.

    2) Introdução
    Início – [Paulo] Ah, buenas. Como preferires. Pois, voltando, tu ias me dizer por que me chamaste aqui.
    Fim – [Bruna] Com toda certeza!

    3) Parte I – Ideologias
    Início – [Paulo] Deixa-me ver se entendi. Queremos apresentar um contraponto ao feminismo, certo?
    Fim – [Bruna] Política é o remédio para ideologia. É isso?

    4) Parte II – A Realidade da Natureza
    Início – [Paulo] Eu acho. Política propriamente compreendida, claro. Política é da natureza humana, pois a vida em comunidade é algo para nós inescapável. Antes de sermos indivíduo, somos uma comunidade com a mãe. A gravidez é a nossa primeira relação “política”; quando somos forçados a acomodar os mútuos interesses de mãe e filho ainda no ventre. A mulher grávida é uma rainha; seu ventre, um reino; e os fetos, seus súditos.
    Fim – [Bruna] Obrigado.

    5) Parte III – A Mulher na Política
    Início – [Paulo] Mereces. Eu falei em “excelentes mulheres do nosso tempo”, mas no vídeo tu deste exemplos de grandes mulheres na História. Olha o ridículo que era proibir o voto feminino no Reino Unido, quando a Inglaterra havia sido governada pelas rainhas Maria, Izabel e Vitória. Não seriam prova de que mulheres têm total capacidade de participar da política?
    Fim – [Bruna] É exatamente o que quero ver publicado na revista.

    6) Parte IV – Família e Diarquia
    Inicio – [Paulo] Entendi, então. Mas há tanto por falar.
    Fim – [Bruna] Eu quero fazer, mas ainda não tenho um mês definido.

    7) Epílogo
    Início – [Paulo] Precisamos conversar sobre isso.
    Fim – [Bruna] Bom dia, Paulinho. Pode deixar a porta aberta, por favor.

    —-

    Quem entender diferente, pode apresentar uma outra divisão.

    Abraço!

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado.

This div height required for enabling the sticky sidebar
Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views : Ad Clicks : Ad Views :