Cenário: Casal sentado à mesa de um restaurante, com xícaras, copos d’água, cálices de vinho e um balde com garrafas de vinho e de água.
Personagens: Ida e Egeu

CENA

[Egeu] Eu gosto deste restaurante, mas sempre que vimos acabo exagerando.

[Ida] Eu, também. Por isso que não vimos seguido. Não quero ficar ainda mais gorda.

[Egeu] Mas tu não és gorda.

[Ida] Oh… Obrigada, mas minhas roupas discordam de ti.

[Egeu] Tudo bem. Já te disse minha opinião. Essa conversa não tem a menor chance de acabar bem para mim. Não caio nessa de novo.

[Ida] Não que eu esteja te censurando, mas é melhor aproveitarmos o vinho.

[Egeu] Ótima idéia. Mas por que seria censura?

[Ida] Se fosse um tema sobre o qual tu não podes falar, haveria censura, não?

[Egeu] Adoro tuas perguntas. Sempre gostei disso em ti. Mas é um assunto sobre o qual não posso falar.

[Ida] Não podes ou não gostas?

[Egeu] Olha, eu, não posso. Correndo o risco de ser muito sincero, quem não parece gostar és tu; apesar de volta e meia comentares sobre isso. Eu, sinceramente, não entendo do assunto. Sempre te acho bem e bonita, mas tu nem sempre concordas comigo.

[Ida] Hahahahahaha! Fazes bem.

[Egeu] Nem sempre sou prudente, mas às vezes eu consigo.

[Ida] Mas, voltando, se não podes falar, é censura?

[Egeu] Olha, eu não posso porque não quero. Ou seria proibido?

[Ida] É proibido? Quem proibiu?

[Egeu] Somos um casal, não? Nós temos nossas próprias regras de convivência. Temos um contrato, ainda que a maioria das regras não estejam escritas. Quem permite ou proíbe qualquer coisa entre nós somos nós mesmos.

[Ida] Então, temos assuntos proibidos. É isso?

[Egeu] Olha… Trata-se de algo pitoresco. Não é nada de muito importante, mas é algo ao qual me limito a te dizer que estás linda e nada gorda, como sempre. É a minha opinião sincera e verdadeira. Porém, além disso, eu não vou.

[Ida] Não vais por ti ou por nós? Ou não faz diferença para ser censura?

[Egeu] Faz diferença. Acho que faz, ao menos. Auto-censura me parece ser diferente de censura.

[Ida] OK. Veremos isso, mas só respondeste a segunda pergunta. Se faz diferença, precisamos saber o que te impede de falar sobre o assunto comigo. Não falas por força da tua vontade ou da de outrem?

[Egeu] Nesse caso, acho que, apesar de não seguir a conversa por mim, tampouco o faço por nós. No fim, é algo que não faz bem ao casal.

[Ida] Se eu entendi o teu ponto, há uma auto-censura, mas tu achas que também há uma regra nos proibindo de falar nesse assunto.

[Egeu] Não há?

[Ida] Não sei.

[Egeu] Hahahahaha! Falei que era melhor não mexer nesse vespeiro. Podemos assumir hipoteticamente que haja. Que tal?

[Ida] Certo. Boa ideia. Obrigada!

[Egeu] Mereces!

[Ida] No caso, se somos só nós dois, criando regras para nós mesmos, isso não seria auto-censura?

[Egeu] De certa forma, sim. Olhando pelo ponto-de-vista da comunidade, seria auto-censura: “entre nós, não se pode falar nisto”. Contudo, esse tipo de regra, quando a criamos, é para cada um de nós obedecer. Quem cria a regra e quem tem o dever de observá-la não são as mesmas pessoas.

[Ida] Lembro desse teu discurso: “num casal, há sempre três pessoas: o eu; o tu; e o nós.” Concordo que seja assim. Então, por ser uma regra feita pelo “nós” para “o eu” e “o tu” cumprirem, não seria auto-censura, mas censura. É isso?

[Egeu] É como penso, ao menos.

[Ida] Mas, vê bem a situação: somos só nós dois, criando regras para nós mesmos; e, ainda assim, temos normas de censura. Se for censura, o que isso significaria?

[Egeu] Não te entendi.

[Ida] Assumindo que seja censura, será que isso é saudável para a relação? Não seria sinal de problemas? Por que entenderíamos que seja bom censurar-nos?

[Egeu] Talvez haja assuntos nos quais fosse melhor não tocar.

[Ida] Tu tens algo a esconder de mim?

[Egeu] Talvez tenha.

[Ida] Que tipo de coisa tu esconderias de mim, Egeu?!

[Egeu] Hahahahahahaha! Calma, mulher! Estava pensando numa surpresa, por exemplo.

[Ida] E desde quando tu fazes surpresa?

[Egeu] Ida! Por favor… Tudo bem. Eu posso estar devendo nesse quesito recentemente, mas não é como se eu nunca tenha te feito uma boa surpresa.

[Ida] Verdade. Mas o que isso teria a ver com censura?

[Egeu] Está bem. Olha, um exemplo melhor seria nem algo que fosse necessariamente de se esconder, mas que fosse trazer malefícios para nós: como o teu maneq…, eh!, não, esquece, como, ahn…, como…, como política durante a ceia de Natal! Sim. Eis um bom exemplo. Censura pode ser pontual ou temporária, não pode?

[Ida] Entendi. Mas isso não seria sinal de imaturidade nossa?

[Egeu] Não acho. Pode ser, mas não que seja necessariamente isso. Um outro exemplo que me veio à cabeça: falar de questões financeiras particulares em local público. Mais um: criticar um filho na frente de pessoas de fora da família. Tudo isso, no meu entender, são formas de censura, mas me parecem justificáveis. Por outro lado, ter problemas ao falar de política pode ser sinal de imaturidade, mas reconhecer o problema e tomar medidas para evitá-lo não seria algo maduro?

[Ida] Tu estás dizendo que existiriam censuras positivas.

[Egeu] Sim. Dependendo das circunstâncias. Auto-censura não é o reconhecimento individual de que há momentos em que é melhor ficar calado ou não fazer nada? O que é censura? Não seria o reconhecimento social desse tipo de situação?

[Ida] “Censura” é uma palavra do latim, e significa “avaliação”, “supervisão”, e “controle”; a função do censor. Em português, está ligada a “crítica”, “repreensão”, “condenação”. Nas duas línguas, tem um caráter oficial.

[Egeu] É um limite à liberdade.

[Ida] Falando de forma bem ampla e geral, pode ser que seja isso. Mas impor tal limite não é perigoso?

[Egeu] Claro que é. Mas a liberdade também tem seus perigos, não?

[Ida] Tem. É preciso saber usá-la.

[Egeu] Pois então, a censura não teria um fim pedagógico? Os pais agem como censores dos filhos, não? Isso vale até que eles amadureçam e sejam capazes de exercer auto-avaliação, auto-supervisão, e auto-controle. Não é isso? Numa sociedade política, não funcionaria igual?

[Ida] Se adultos livres e capazes podem tomar tal decisão de impor censura?

[Egeu] Não apenas numa democracia; mas, também numa democracia. Nós vimos que num casamento pode haver algum tipo censura, não? E trata-se da união entre dois adultos livres e capazes.

[Ida] Mas que limite nós como casal podemos impor a nós mesmos? Quem define e aplica a punição?

[Egeu] Depende do que se entende por punição. Uma reprimenda pode ser censura, não pode?

[Ida] Te explica melhor, por favor.

[Egeu] Sem problemas. Uma cutucada por debaixo da mesa, por exemplo. Mas pode ser falar para o outro que ele agiu errado, que fez ou falou algo inadequado em determinado momento. Censura pode ocorrer entre iguais. Pensa na moção de censura do Legislativo ao chefe do Executivo.

[Ida] Não havia pensado nisso.

[Egeu] Tu mesmo falaste há pouco. Censura está ligada à crítica.

[Ida] Mas de caráter oficial.

[Egeu] Tudo bem. Um casal, uma união de iguais, funciona como as instituições de Direito internacional. Funcionam porque as partes livremente aceitam sujeitar-se a elas. Aliás, pensando melhor, acho que a censura não ocorra entre iguais. Essa igualdade não existe no ato da censura. Quem critica, assume estar falando, não por si, mas pelo casal para o bem do outro – assim como o Legislativo assume estar falando pela comunidade. Faz sentido?

[Ida] Até faz, mas esse papel pode ser recusado pelo outro.

[Egeu] Pode. Como disse, é preciso que as partes livremente aceitem submeter-se aos papéis que representam. Quando se questiona a autoridade do outro, isso gera um baita problema. Isso é diferente de questionar a correção da censura; o que não tem problema nenhum. Mas já estamos mudando de assunto.

[Ida] Percebi.

[Egeu] Como sempre. Eu é que costumo me perder. Me avisa quando acontecer de novo.

[Ida] Não precisaste de mim agora, mas podes deixar que te aviso.

[Egeu] Obrigado. Nós estávamos debatendo se, com a crítica, já teria havido censura. É isso?

[Ida] Sim.

[Egeu] Eu acho que há; que a crítica já seja um tipo de punição. Para mim, isso já é censura.

[Ida] Te entendi. Não estou segura de que concorde, mas te entendi.

[Egeu] Tudo bem. Sigamos. O ponto principal aqui era outro. Queríamos descobrir se, seja entre iguais ou decorrente de uma relação de hierarquia, a censura teria uma finalidade educativa.

[Ida] Tu levantaste essa pergunta.

[Egeu] Mas não a respondemos.

[Ida] Ainda não.

[Egeu] Certo. A censura decorre do reconhecimento de que determinados tipos de conduta sejam inaceitáveis em certas situações, não é isso?

[Ida] Se há censura, a justificativa é essa.

[Egeu] E, de fato, há condutas inaceitáveis em certas situações, não?

[Ida] Como assim?

[Egeu] Por exemplo, por mais que eu queira, não posso te beijar, arrancar tuas roupas, e te amar agora aqui na mesa. 

[Ida] Hahahahaha! Egeu! Pára, tarado…

[Egeu] Desculpa, mas é verdade. Pois bem, deixando isso para quando chegarmos em casa, aqui, seria um ato digno de censura. E é certo que seja assim.

[Ida] Ainda bem que tu sabes!

[Egeu] Ainda bem, mas nota que a censura serve para ensinar aos que não sabem. Censura é algo normal; presente em nosso cotidiano. Nós só não ligamos o nome à coisa.

[Ida] Ficou estigmatizada.

[Egeu] Ficou. Censura demais e excesso de liberdade são igualmente problemáticas. O difícil é achar a medida. Houve censura em demasia no Brasil, e a palavra virou tabu. Parece haver uma censura sobre censura.

[Ida]Censura” é quando tolhem a minha liberdade; mas não é, quando eu imponho limites. Aí, é “bom senso”.

[Egeu] Exatamente!

[Ida] Mas o que define se a conduta é aceitável ou não? Quem define?

[Egeu] Há posições de autoridade na sociedade responsáveis por esse tipo de decisão. Os pais em casa, os chefes no trabalho, e as lideranças sociais, religiosas e políticas, os policiais, os juízes, os legisladores na sociedade em geral.

[Ida] Tudo bem, mas como eles definem?

[Egeu] As autoridades não podem fazer qualquer coisa, por certo. De novo, o consentimento da comunidade é fundamental. Quando não há esse consentimento, começa a haver problemas.

[Ida] Mas a comunidade pode estar errada tanto quanto as autoridades.

[Egeu] No fundo, estamos todos sempre errados, mas jamais totalmente errados. Temos referências históricas e sociais do que seria mais certo, porém estamos constantemente nos ajustando às circunstâncias. Não é assim? Partimos da premissa de que há ações melhores, mais verdadeiras, do que outras. Aí, procuramos promover essas, ao mesmo tempo em que censuramos as piores ou mais falsas.

[Ida] Tu estás sempre errado.

[Egeu] Sim, mas jamais totalmente errado.

[Ida] Quando me ouves!

[Egeu] Exato! Hahaha! OK. Sim, tu tendes a estar certa. Admito. Pronto. Há o reconhecimento comunitário da tua autoridade! Mas a questão aqui não é essa. O teu comentário é evidência da premissa. Tu achas que há ações mais verdadeiras que outras, e procura fazê-las. Isso é pacífico.

[Ida] Sim.

[Egeu] É sempre uma questão de tentativa e erro, de encontrar-se um equilíbrio entre “verdade” e “liberdade”. Aliás, nessa tensão, os defensores da censura são partidários da Verdade; enquanto seus detratores são partidários da Liberdade.

[Ida] Podes explicar melhor?

[Egeu] Claro. Já vimos isso. A censura serve para coibir aquelas ações que se entendem erradas, falsas, perigosas.

[Ida] Certo. Acho que sei onde queres chegar, mas continua.

[Egeu] Enfim, quem defende fortemente a censura, à Direita e à Esquerda, seja com o nome de censura ou de bom senso, quer ver as pessoas agindo bem e verdadeiramente. Isso é o que quis dizer, mas há um limite.

[Ida] Isso pode tornar a vida um inferno. Levada às últimas consequências, ninguém teria liberdade para nada.

[Egeu] Exato. A gente gostaria que houvesse uma resposta definitiva para tais questões, mas não há. É por isso. A verdade das autoridades não é totalmente verdadeira. Nunca é; e para haver tentativa e erro, é preciso de liberdade.

[Ida] Não me parece diferente da criação de filhos. Quero ver nossas crianças virarem adultos bons e responsáveis. Se deixamos elas decidirem sempre, elas ficam nos eletrônicos comendo porcaria o dia inteiro; mas se não tomarem decisões por si, não aprendem.

[Egeu] Não é nada diferente. Para mim, é exatamente isso. É ensinar a escolher bem.

[Ida] É tão difícil.

[Egeu] É preciso equilibrar “verdade” e “liberdade”.

[Ida] Falar é fácil.

[Egeu] Muito. Eu gosto bastante, inclusive.

[Ida] Sim, eu sei. A conversa está boa, mas a gente poderia ir para casa.

[Egeu] Gosto disso mais ainda.

[Ida] Tu não tens jeito…

[Egeu] Hahahahaha! Eu tento melhorar, amor. Juro que tento! (Garçom, a conta, por favor.)

FIM

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