“Aquele ali é um dos 18 prédios residenciais remanescentes na Paulista”, aponta Paulo Mello de sua cadeira voltada ao Caffe Ristoro, situado no jardim que cerca a Casa das Rosas. “Eles não aguentam mais o Paulista Aberta”.

Em junho de 2016, o então prefeito Haddad estabeleceu por decreto o compromisso de fechar a avenida para usufruto dos pedestres aos domingos. A vida residencial sofreu uma invasão sem volta.

A transformação do cartão-postal de São Paulo em área de lazer fora implantada por Marta Suplicy, e interrompida no início da gestão Serra. Os argumento de não-moradores em prol do projeto são disseminados pelas ongs progressistas que o apoiam.

“O ruas abertas incomoda porque tem muito barulho, começa muito cedo, o horário oficial não é respeitado. Não começa às 10h, como eles falam. Começa antes, com os carros ainda andando. Aumenta a insegurança, desvaloriza imóveis, enquanto o IPTU só aumenta…” Antigo morador da rua Joaquim Eugênio de Lima, Paulo vê a Paulista como casa. Daí a sensibilidade à invasão da intimidade que gera o uso público da avenida.

“A passeata LGBT é outro problema. Olhando lá de cima, eles sabem que, ao longo da parada, forma-se círculos, dentro dos quais as pessoas praticam atos obscenos. Os moradores se incomodam com isso porque é um atentado aos costumes. A maioria dos apartamentos… ninguém quer morar mais. Se vc puser à venda, quem vai comprar? Condomínio alto. IPTU cada vez mais caro. E o que você tem em retorno? Nada. Os moradores querem uma prefeitura que os atenda, quando ligam reclamando. E eles não atendem. Um joga para o outro. Eu sei disso porque estou num grupo da Av. Paulista”.

Segundo o ativista, administrador do canal Politizando, proteger as liberdades individuais em detrimento de devaneios coletivistas anda difícil. “O estamento burocrático se vale dessas minorias que está alimentando. O marxismo deixou faz tempo os proletários de lado. Hoje eles trabalham com as minorias”. Quem passeia pela avenida aos domingos, nota as hordas progressistas e tribos de toda espécie.

“Hoje, uma pessoa que gosta de ciclovia, patinetes, bicicletas, não é simplesmente um “ciclista”. Não; ele é um ‘ativista da mobilidade urbana’. Uma pessoa que não gosta que se use canudinho de plástico não está preocupada com limpeza ou saúde, ele é um guerreiro do meio-ambiente”. 

O quadro tem jeito? “O político que entrar na prefeitura e quiser tirar, vai enfrentar uma enorme resistência de todas essas tribos aí”.

Em 2018, candidatou-se a deputado estadual pelo PSL. Não foi eleito e deve lançar-se à disputa pela vereança nas municipais de 2020. A depender de sua franqueza no campo ideias, a câmara municipal tende a mudar de cor. Independentemente de a carreira política vingar, segue atento aos problemas surgidos em sua cidade em virtude dos 25 anos de domínio esquerdista silenciado pela imprensa oficial.

Esmeril teve uma conversa com Paulo Mello, ativista atualmente ligado ao Avança Brasil, no cerne do cenário que reorientou seu presente e viu nascer a maior insurgência ao petismo. Com passagem pelo Vem pra rua e movimentos menores que não vingaram, Paulo participou do surgimento, da consolidação e da redefinição dos movimentos de direita em São Paulo.

Seu histórico no ativismo é, portanto, um passeio pelas ideias que deram origem aos movimentos liberais e conservadores nascidos na cidade. Registramos, sem cortes nem condescendências, as reflexões colhidas ao longo de seu percurso. 


Você poderia contar um pouco de sua trajetória? Onde se formou, quando se interessou por política e qual foi sua porta de entrada para o ativismo.

Eu me formei no Mackenzie em administração de empresas. O interesse em política já era incipiente na família, porque meu avô foi da câmara municipal de Sorocaba. Então ele participou da política nos anos 40, e eu sempre ouvia ele falar; e lia algumas coisas que ele escrevia no jornal Cruzeiro do Sul, em Sorocaba. Depois, ao me formar, eu fui trabalhar em banco de investimentos. Fiquei dois anos, e depois mudei para a área de navegação, logística internacional em navegação. Lá, eu tive muitos contatos com multinacionais e na última empresa em que eu trabalhei, onde fiquei por 15 anos, a Maersk Line, fui gerente de importação. Nas empresas multinacionais, a gente sempre conversava com pessoas de diversas culturas. E o que mais se falava era dessa diferença entre Brasil e EUA, sendo que ambos foram descobertos mais ou menos na mesma época. O que aconteceu? O que mudou o destino do Brasil, onde o desenvolvimento foi tão diferente daquele dos Estados Unidos. Eu conversava muito com os clientes sobre isso. A política, então, começou a me pegar aí. Outra coisa que desenvolveu o meu interesse foi a política interna dentro das empresas. Como você conduz a sua carreira; qual é o peso da política, até mesmo da política ruim, né?, da politicagem que se faz lá. E aí a gente parte para a diplomacia… 

E a porta de entrada para o ativismo?

Foi em junho de 2013, como muitas pessoas. E como eu moro a duas quadras da Av. Paulista, a duas quadras do centro-nervoso desses movimentos na época (que era ali no Gazeta, começou ali), um dia, voltando para casa, já à noite, eu vi um repórter e uma pessoa (não me lembro o nome hoje, mas sei que era um desses sociólogos, ou antropólogos) sendo entrevistada. Eu cheguei perto, ele estava falando, o repórter perguntando e comecei a ver os preceitos e gritei “Comunista!” Todo mundo parou, isso interrompeu a entrevista e um jovem alto se aproximou e me disse “Como é que é? Você viu o que fez?”, achando que ia me intimar com a altura e o porte dele. E eu acho que o intimei com a idade e com o conhecimento. E falei “Qual é o problema? Estragou a sua entrevista? Eu sou brasileiro; então você volte lá à sua entrevista. Tem algum problema?”. Não tem condição, né? Achou que ia me dar porrada? Então que viesse. Eu não falei isso, mas acho que, se apanho, eu bato também. Então foi essa a porta de entrada. E uma coisa interessante é que a gente sente a energia do povo. Isso contagia. É algo subliminar. Nada estava definido na época. Contra quem ou contra o quê…

Paulo Mello em manifestação ocorrida a 30 de junho de 2019

Em que momento você se uniu a um grupo e começou a trabalhar na organização de protestos? Quando isso aconteceu? Hoje você faz parte do Movimento Avança Brasil, que é um movimento conservador muito relevante em termos de número de seguidores, estrutura, formação de candidatos…

Sim, e tudo isso está andando lá no Movimento Avança Brasil, que tem 1,7 milhão de seguidores no facebook. Já em finais de 2014, logo depois da derrota (para o PT) nas urnas, o pessoal começou a se reunir já na semana seguinte na Paulista. Caminhão daqui, dali. Tinha o Revoltados online; o MBL e o Vem pra Rua, os mais atuantes nessa época. E eu lembro que o Revoltados online colocou no caminhão uma faixa onde tinha um gráfico das votações, o gráfico das urnas eletrônicas. E teve um palestrante que falou “Isso aqui foi fraudado, eu sou de TI e posso te garantir”. Aquilo foi pegando a gente, porque os escândalos, você sabe, estavam todos vindo à tona.

Ao lado de Ted Martins, na primeira marcha pelo Voto Impresso, promovida pelo Movimento São Paulo Conservador no dia 20 de agosto de 2017, sempre na Av. Paulista

2014 foi crucial… Foi crucial. E existia em todos aquela esperança de que o quadro poderia ser revertido. Um dia, por exemplo, a gente estava voltando de uma dessas manifestações ainda no final de 2014, eu estava com uma amiga e nós paramos num barzinho, ali na famosa Prainha, na Joaquim Eugênio de Lima com a Paulista, e tinha um rapaz que fazia o COF. E ele estava conversando… Aí minha amiga perguntou pra ele: “o que você acha? Agora nós perdemos a eleição, você acha que vai ter condições de reverter isso?” Ele falou: “Olha, o Brasil está perdido. O Brasil está acabado porque tem o Foro de São Paulo, o Olavo de Carvalho, eu estudo com ele e ele sempre fala disso… e agora, com a vitória dela, agora esquece o Brasil…” Isso nos apavorou.

Nessa época você já acompanhava o Olavo de Carvalho, ou começou a partir daquele momento?

Eu cheguei a vê-lo no Youtube, já no segundo semestre de 2014, então o contato era incipiente. Depois eu vim a saber que provavelmente até vocês já conheciam ele desde 2004 ou antes… Pelo Orkut. Do orkut. E também o Mídia sem máscara. Isso, o famoso Mídia sem máscara.

Você passou por outros movimentos antes de chegar ao Avança Brasil?

Então, depois desse período, nós começamos, eu e essa minha amiga, a acompanhar o Vem pra rua. Tinha eles, tinha o MBL, e eles estavam se estruturando melhor. Até que um amigo que trabalhou comigo em comércio exterior era de lá, eu encontrava ele lá e ele me chamava para participar. Porém, eu achava algo estranho lá que eles não davam aos ativistas acesso ao núcleo duro do movimento. Eu achava muito estranho, isso. Soava como se tivesse querendo montar uma massa de manobra.

O Vem pra Rua seria um movimento que representa o centro político? Segundo Hélio Beltrão, o centro político é dos liberais radicais. O VPR se coloca como suprapartidário. Será que é possível um movimento não se identificar com algum espectro?

É muito difícil, muito difícil,  principalmente porque, você sendo ativista, é difícil você não desenvolver uma verve política. Já que são as ideias políticas que te levam para o ativismo, não são? Exatamente. São as ideias políticas e, dentre elas, principalmente a liberdade. Porque a gente vinha sendo oprimido pela esquerda, pelo PT e tudo o mais. Muito mais tarde, eu fui percebendo que a maioria do núcleo duro acabou indo para o partido Novo, já em 2016.

Então é antigo o vínculo? A identificação entre as pessoas que ingressam no partido Novo e participam do Vem pra Rua, em termos de ideias políticas?

Eu acredito que sim… Pergunto porque é uma percepção que a sociedade tem. A tal ponto que existe apelido, o pessoal às vezes fala não é “Vem pra Rua, é “Vem pro Novo”. Isso é uma brincadeira. Olha, no início de 2015, eu fui numa palestra ali no Instituto Ruth Cardoso, na Pamplona. Eu estava vendo a palestra, era de um sociólogo…e até comentei isso com um amigo ontem, um sociólogo, pra mim,, que não dizia coisa com coisa; eu falava “meu deus, o que será que esse cara tomou antes de vir aqui”; um senhor já. E a gente tinha na cabeça que o PSDB era de direita, né? Quando de repente passa atrás de mim, e vai para o fundo, um dos personagens que era do núcleo do Vem pra Rua. Ele foi pro fundo e entrou numa sala do PSDB. Um dos diretores. Eu falei “Opa…” então aí eu já comecei a perceber também… aí tem coisa errada. Porque sociólogo, ativista, e ativista de movimento que fala que é apolítico, apartidário… eu fui percebendo, né?

Qual a sua avaliação do partido Novo. Porque os quadros do partido Novo, a gente percebe que eles votam bem, eles apoiam as pautas econômicas, são bons quadros. São pessoas qualificadas. Mas isso que aconteceu com Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente, deixou a gente um pouco preocupado. O próprio Salles, ligado ao Novo, deu a entender que há problemas de liderança, que há um comando centralizado. Exato. Como é que a gente pode entender a defesa de valores liberais, sendo que a descentralização é o principal, e o controle centralizado no partido?

É uma coisa bem complicada, que mostra um certo paradoxo. O que todo mundo diz, tenho certeza que vocês já ouviram, é que o Novo tem dono. Ouvimos do próprio co-fundador… Olha aí… o co-fundador. tem uma frase que ficou notória que falaram lá dentro, acho que um dos diretores falou. Uma pessoa estava dando opiniões e ele falou: “Olha, aqui nesse partido existe dono. Tem quem dá ordens e quem obedece”. Então começa a ficar claro que ali existe esse problema… A gente sabe quem é o dono, né? E eu acho que é muito diferente o conhecimento político dele do de alguns ótimos deputados que eles elegeram. É bem inferior, o conhecimento político dele. Eu costumo dizer para os amigos que ele entende de juros compostos, mas não de política. É bem diferente… Outro problema é que o pessoal se apegou demais à ideia que a tecnologia e a evolução dos mercados vai resolver todos os problemas, tudo vai se acomodar com a tecnologia e a mão invisível dos mercados. Eu vejo aquela questão do liberalismo total.

Os libertários acreditam que poderia haver harmonia social se a ordem espontânea prevalecesse. Você acha que é possível? Porque a gente não tem dúvida que a ordem espontânea faz funcionar o mercado, a gente sabe que sim. Mas sendo o ser-humano um poço de paixões, será que em política a ordem espontânea pode ajudar?

Você falou tudo agora. O ser humano é “um poço de paixões”. Exatamente. A consciência humana, eu acredito que não está evoluída a ponto de deixar que esses movimentos espontâneos venham para cuidar bem da sociedade. O nível médio não permite. Sempre haverá um ego expandido que vai querer se tornar o poder. Abusar do poder? Abusar do poder; se tornar o poder totalitário. Essa questão do liberalismo total sem o devido cuidado com os valores é algo que eu acho muito temerário. Porque esse poder totalitário, para se instalar, o que ele precisa? Quebrar a ordem vigente. E como se quebra a ordem vigente? Esse liberalismo total é a melhor receita. Quebra a tradição. Você quer deixar um cara desses louco? Põe ele pra ver o novo filme que estreou, do Downton Abbey. Vai dar curto-circuito na cabeça, porque aquela tradição, independente se ricos ou não, eles têm valores sólidos, a propriedade… e não venham dizer que eles maltratam os empregados, porque os empregados fazem parte da família. Se você assistir o seriado, você vai perceber isso. 

Você pretende se candidatar a vereador nas eleições de 2020. Qual é o seu objetivo? Eu gostaria que você falasse se pensa que, para os conservadores, é mais estratégico nesse momento controlar o legislativo ou manter o foco no Executivo. Porque temos a impressão que o brasileiro em geral se preocupa muito com os cargos executivos, e o legislativo fica de lado, sendo que a gente é regido por uma Constituição parlamentarista.Exatamente…Esse é o ponto para vocês brigarem pelo Legislativo?

O ponto mesmo, olha… Política é ocupação de espaços. Nós temos que estar lá. E a vereança é a base. Antes da vereança, tem também esses conselhos que tem por aí. Isso, o conservador ainda não acordou para isso. Acabou de haver uma eleição e ninguém se aventurou. “Ah, mas não ganha nada. Ah, mas vai lá e não acontece nada”. Mas eles estão infestados! Vai ver o que tem de comuna lá. Eu quero entrar na vereança porque aqui tem que ter gente como nós. Hoje em dia aquilo ali mais parece um antro esquerdista. Você vai lá numa audiência e é inacreditável. São inacreditáveis as audiências públicas. Tem cacique, tem umbandista, tem de tudo! Tem várias minorias. 

Você acompanha essas audiências?

Eu fui o ano passado. Eu vi muito disso. E no ano retrasado. Vi audiências públicas lá que eu fiquei… bobo. O grafiteiro mané, ele está chateado porque o grafite dele foi coberto. Isso daí é uma afronta à população, é uma afronta ao ser-humano. Você acordar 5 horas da manhã… “Minha liberdade de expressão, o meu protesto social está sendo sufocado…” E é isso que tem lá. Se a gente não for, não vai prevalecer, por exemplo, a economia de mercado sem amarras. Porque aqui… eu considero um país socialista ainda. É cheia de amarras nossa economia de mercado, que convenientemente pra eles não se desenvolve, porque um dos maiores algozes do socialismo é uma economia de mercado afluente, onde você pode divulgar o seu trabalho e crescer com ele, abrir filiais, sucursais, mandar sua mensagem para a sociedade, né? Para eles, isso é o fim. 

Segundo afirmou recentemente o deputado federal Luiz Philippe de Orléans e Bragança, a melhor vacina contra o socialismo, ou contra assaltos totalitários ao poder é uma classe-média rica. Você concorda com esse juízo? O Brasil tem uma classe média rica e votou no PSDB e no PT muito tempo…

Eu acho que só isso não basta. O Brasil está numa situação bastante peculiar. Eu não acredito que essa situação tenha ocorrido em outras nações. Aconteceu que depois do período militar, já durante o período militar, eles começaram a atacar pela cultura. Então eles foram aparelhando jornais, revistas, editoras, a classe artística. E ali se formou um conluio que iludiu  a sociedade… A classe média? A classe-média e todo mundo, fazendo o pessoal achar que estava entrando realmente um pessoal ético e moral na político, e que ia dar jeito em tudo. Ao passo que eles estavam simplesmente implantando uma sociedade gramscista, onde aos poucos os podres foram aparecendo. Como o politicamente correto, a questão do desarmamento que veio na sequência, o ambientalismo; toda aquela cartilha de delinquências que eles usam para doutrinar a sociedade. Não sei se houve isso dessa forma em outros países. Mas nós fomos iludidos inclusive e principalmente pela imprensa por 25 anos. A imprensa escondeu o foro de São Paulo por todo esse tempo. Nesse sentido, a classe média pode ter se desenvolvido como se desenvolveu. Porém, a cabeça ficou atrelada ao politicamente correto. Então, em qualquer ocasião em que se passava esse limite, acho que já batia o sinalzinho vermelho lá: “ah, estão oprimindo fulano”. Você pode ver que a maior emissora de TV do país é completamente politicamente correta, completamente social-democrata. Fabiana, não é? Nesse sentido, apenas a afluência da classe-média, eu acho que não é suficiente. Mas é um elemento importante, tanto é que a filósofa Marilena Chauí odeia a classe-média. “Eu odeio a classe-média!” Atrapalha ela, né? Atrapalha. 

Eu me pergunto como o brasileiro acha normal assumir uma carga tributária tão alta… Isso foi subindo… 

Foi subindo absurdamente! Foi subindo cada vez mais; eles viam que o pessoal não estava reclamando, foram colocando impostos em cima de impostos. Hoje o arcabouço tributário nosso é mais um manicômio tributário. Por isso que a reforma (tributária) é esperada por muitos, inclusive por mim. O pessoal que foi evoluindo (financeiramente) se distraiu muito no consumo. A distração é enorme… E aí, quem está seguro tende a relegar o conhecimento de outras coisas.

O descontrole da inflação durante o governo Dilma foi algo que te ajudou a perceber que era preciso fazer algo? Como o governo Dilma interferiu no seu cotidiano?

Nossa! Interferiu demais. Eu tinha saído da empresa, da Maersk, a última, em 2008 e daí eu me tornei autônomo na minha área de comércio exterior, trabalhando com meus clientes. Depois, apareceram outras oportunidades, mas eu preferi ficar autônomo porque eu estava seguindo de perto o governo, senão eu não teria condições. Se eu tivesse numa empresa, eu não teria tempo para ficar estudando e tudo o mais. Então, na minha opção profissional, interferiu demais porque eu preferi continuar autônomo e ter tempo para ser ativista. 

Você queria entender o que estava acontecendo de errado?

Eu queria entender e eu queria ajudar. Porque como autônomo você tem mais tempo livre para acomodar eventos. 

Hoje em dia, quanto tempo você se dedica ao ativismo?

Olha… faço cerca de 3 horas por dia. Umas 20, 30 horas por semana fácil, fácil. Principalmente porque eu faço vídeos, escrevo artigos, faço podcasts, eu estou melhorando toda essa parte porque eu quero deixar gravadas as minhas experiências e poder ajudar alguns.

Você acha que é melhor entrar na política jovem ou mais velho?

Eu acho as duas faixas etárias muito importantes. O jovem, a formação dele é muito importante. Às vezes uma experiência traumática, como perda de emprego, separação, experiências fortes, perda de um ente querido podem fazer a pessoa pensar. É muito importante desde cedo ele começar. Mais tarde, vamos falar por exemplo dos aposentados. Tem gente que se aposenta com 55, 60 anos. Nós, no ativismo, o ano passado eu ajudei como voluntário no diretório do PSL. Me pediram para arrumar mais voluntários. Eu fui justamente num grupo de ativistas aposentados. Porque o pessoal aposentado já está com uma nova renda; seja ela boa ou não, ele já se adaptou a essa nova realidade. Mas ele se sente sem propósito, então você canalizar ele para o ativismo, nossa, é perfeito. Ele se sente com um propósito de vida e já tem o dinheiro dele.

Você falou de aposentados ativos e me fez lembrar das “tias do zap”. Você acha que as pessoas que atribuem a robôs todo o apoio popular ao governo estão um pouco desatentas a essa necessidade das pessoas por um propósito? Você diria que vem daí, o propósito de querer ajudar, parte do apoio ao governo?

Vem daí, de querer ajudar, mas vem de algo a mais, que é inerente à direita. Eu costumo dizer que a direita busca a verdade, ao passo que a esquerda vive da mentira. Então a busca da verdade é aquilo que nos move também, inclusive na política. Isso está em nosso íntimo e se junta à necessidade de ter um propósito de vida. Eu li esses dias num lugar que a pior coisa que pode acontecer a um ser-humano, e que gera depressão, é você sentir que não tem propósito de vida ou que não está atuando em seu propósito de vida. Isso pode gerar quadros depressivos. E você obter isso quando está mais velho é o melhor dos mundos. Em uma faixa que muitos estão sentindo que estão caindo, você sente que está revivendo. Às vezes, por incrível que pareça, eu me sinto mais ativo, mais vivo, mais contribuinte do que meu filho. Contribuinte no bom sentido; não com o erário, mas com a sociedade.

Você acha que as pessoas que pretendem ocupar cargos públicos tem de ter uma formação mínima? O que uma pessoa precisa saber, tecnicamente, para disputar um cargo?

Eu acho que tem que ter uma formação mínima. Ele tem que saber pelo menos os conceitos mais simples de direita e esquerda; capitalismo e comunismo; ele tem que entender a questão dos valores; se perguntar se os valores são importantes para ele, ou não; porque muitos, principalmente o pessoal aí do Novo, eles falam… Por exemplo no problema do MAM, eles dizem “ah, vai quem quer; vai se o pai deixa o filho ir”. Ah, você é tonto, cara? O estado tem que monitorar os valores da nação, eu acho. O comunismo quer? Destruir as tradições e os valores, porque ele só consegue se implantar se destruir a ordem vigente. Então o estado tem que monitorar que criança não vá a exposições de homem pelado; que não haja, por exemplo, peças em que Jesus Cristo é vilipendiado; ou qualquer outro símbolo religioso; tem que controlar isso, por que não? Livre-expressão tem que ter limites, porque senão a sociedade cai. Derruba-se tudo. Obviamente como será o monitoramento é algo a ser estudado. E eu acho que é isso que o pessoal do Novo, por exemplo, não entende. Que tem de haver um guardião dos valores, da família e da sociedade.

Em 2016, Paulo Mello foi um dos ativistas que coletou assinaturas para as dez medidas contra a corrupção, posteriormente deturpadas pelo congresso.

Qual a expectativa dos movimentos conservadores, os que realmente formam quadros, para as eleições do ano que vem? Vocês têm em mente uma meta de quantos vereadores precisam eleger para ampliar a representatividade dos vereadores aqui em São Paulo?

Olha, isso foi uma ótima pergunta que inclusive eu levarei ao Avança. Porque a maioria não está falando nisso. Precisamos ter uma meta. E eu vejo que tem alguns grupos aí, até mesmo da direita, grupos que apoiam o Bolsonaro, que estão se fechando. Vocês já sentiram isso? Já. A gente só sente isso; a gente sente o tempo todo (risos). É… se a gente quer crescer, isso aí tem que acabar. Temos que ter capilaridade. Talvez por isso que ninguém está falando aí “minha meta é esta, essa e aquela”. O Novo tem uma meta. O Novo tem uma coisa que, a gente tem dar a César o que é de César, tem muita organização. E essa organização entre conservadores? Não se falou nisso. E eu estou vendo muito esse tipo, neguinho com quem ontem falou contigo é hoje “the celebrity”. 

A direita, será que está mais preocupada em disputar o microfone no palco do que em trabalhar em equipe? Ah, olha, eu acho que ainda está mais preocupada em disputar o microfone do palco. Eu, por exemplo, sou um dos executivos do Avança, certo? Nós somos sete. Temos o nosso CEO e respondemos a um conselho. Na semana passada, tivemos a manifestação junto com o Nas Ruas, o Movimento São Paulo Conservador e Movimento Conservador. Nós 4. Meu amigo, para disputar um microfone lá só faltou ter que pegar um canivete. E falar “olha, eu estou patrocinando isso aqui!” Consegui falar no final, mas… pô gente. (risos)

Você acha que esse é um problema que precisamos superar com urgência? A auto-crítica mais importante da direita talvez seja essa?

Eu falo para os meus colegas… Talvez por ser mais velho, a gente tem experiência de vida. Já deu cabeçada, já perdi cisa. Já tive plano B, negócios em que investi minhas economias e deu errado… Então eu falo pra eles “você quer aparecer? Legal. Todo mundo quer. Às veze sé para crescer na vida, na profissão. Ótimo. Melhor receita: participa, que inexoravelmente virá. Agora, quando a gente exagera, acaba caindo no erro da Joice Hasselmann. Ela chegou bem… Já estive num jantar de empresários com ela. Ela impressiona, é carismática. Mas o ego cresceu mais do que a própria alma e encampou tudo. Foi engolida pela vaidade. Aí veio o sr. João Dória, que eu chamo de Johnny Marketing, e ela se deixou influenciar.

Foto de 2015, com e então jornalista Joice Hasselmann, durante celebração na Av. Paulista apos o acolhimento do processo impeachment contra Dilma por Eduardo Cunha.

Você acha que parte da direita está deslumbrada com o poder? Esse governo servirá de filtro?

Já começou. As próprias pessoas se entregaram. Joyce e Frota foram uma decepção. A sociedade tem que se perguntar: por que deu tantos mil votos pra esse cara? Frota foi mais votado que Luiz Philippe, e qual é a ideia dele?

Você vê com bons olhos essa depuração natural por que passa a direita? 

Essa depuração está acontecendo desde o começo. Bolsonaro viu quem era o Bebbiano e já de um jeito de se livrar dele. Depois veio o Santos Cruz. Depois caíram a Joice e o Frota, que são exemplos típicos disso. Exemplos de políticos que se posicionaram como de direita, mas não são. Aliás, não são nem políticos. São oportunistas.

O que você acha da expressão “direita flaviana”, que vem sendo usada contra apoiadores do governo menos preocupados com picuinhas que com o quadro geral?

A questão da direita flaviana pra mim é uma narrativa que os isentões têm montado para justificar o tamanho de adesão que o Bolsonaro teve, porque até hoje eles não se conformam com isso. Não se conformam “como o Bolsonaro e não o Alckmin? Como o Bolsonaro e não o Amoedo, com aquele sotaque maravilhoso, carioca? Que entende tanto de, de…” não vai saber dizer do que porque, do que ele entende? De juros compostos só.

Seria engolido pelo sistema rapidinho… Ele é o sistema! E isso é uma pergunta que a gente faz, você vê, para debater com o isentão basta você falar “Então você acha que a pessoa deve aderir ao sistema, não contestar nada, para obter a aprovação do projeto você tem que dar um ministério de 2 mil funcionários para determinado partido e o custo exorbitante vai para a sociedade. Você acha que é tranquilo, isso? Para manter as aparências?” Bem marxista isso.

Você tem um livro favorito?

Ah, eu tenho mais de um. Mas um que li duas vezes, estávamos falando do Luiz Philippe, é justamente “Por que o Brasil é um país atrasado?” Ele fala de uma coisa que o pessoal está começando a descobrir agora. Que o Brasil é dominado por oligarquias. E ele explica como chegamos lá. Então, só por isso esse livro é essencial.


fim
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