INFLAÇÃO, s. f. inchação, intumescência. || (Fig) Soberba, vaidade, presunção. || Aumento desproporcional e mais ou menos rápido dos meios de pagamento (dinheiro, crédito), relativamente ao volume dos negócios ou dos bens oferecidos ao consumo (produção), e que também se pode apresentar como fenômeno psicológico, decorrente do comportamento econômico, político e social da coletividade; grande emissão de papel-moeda.

A definição acima está na 2ª edição brasileira do Dicionário Caldas Aulete, publicada em 1968. Parece imbuída da ciência econômica gestada pelos pensadores da escola austríaca. Com exceção de Roberto Campos e uns gatos pingados, ciência longamente ignorada por aqui. 

Roberto Campos escreveu os artigos econômicos da Constituição de 1967, que ele próprio caracterizava como “a Constituição menos inflacionista do mundo”. O dispositivo anti-inflacionário que lhe valeu a antipatia eterna dos socialistas de plantão foi proibir que o Congresso nacional fizesse emendas ao orçamento com potencial a elevar os gastos públicos da união.

Entender o nexo radical entre governo e inflação fica mais simples ao consultar a obra de Murray Rothbard quanto a O que o governo fez com nosso dinheiro. A análise é de 1963. 

Governo, falsificação e inflação

Quem o abre, tem acesso a duas revelações reconfortantes: (i) a mania estatal de imprimir dinheiro para “conter crises” não é um mau hábito exclusivamente brasileiro; como a riqueza circulante já não corresponde a algo concreto (o ouro ou a prata), cabendo aos governos nacionais decidir quanta riqueza se detém inflacionando (ou contendo) a quantidade de papel-moeda, (ii) estamos todos num abismo sem volta.

Não é exatamente gratificante descobrir que o valor de nosso dinheiro flutua conforme decisões abstratas remotamente vinculadas a uma antiga referência concreta (o padrão ouro). Mas não deixa de ser reconfortante saber que estamos todos no mesmo barco. Todos mesmo.

Os brasileiros têm trauma de inflação. Para Rothbard, formulador do libertarianismo, enquanto o governo detiver monopólio sobre a produção de moeda; enquanto não existir vínculo concreto entre a mercadoria chamada “dinheiro” e os valores que trocamos no mercado, a inflação persiste. Não há como vencê-la à medida que: 

“Governos são inerentemente inflacionários”

Murray Rothbard (1963)

A origem do problema reside na expansão arbitrária e livre do crédito. Praticar empréstimos com reservas alheias (atividade bancária corriqueira) é falsificar a quantidade real de dinheiro circulante. Conceder crédito a X tendo como garantia a poupança de Y é criar dinheiro do nada. de fato, o valor que um banco empresta a alguém é um título abstrato baseado na poupança de outra pessoa. Consequentemente, para ele:

“Se o governo descobrir maneiras de praticar falsificação — criar dinheiro do nada –, então ele poderá, rapidamente, produzir o próprio dinheiro”.

Murray Rothbard (1963)

Quem ler o livro vai descobrir que a história termina na criação dos bancos centrais e no abandono do padrão-ouro, a commodity que servia como base real correspondente aos valores trocados no mercado.

Inflação, gasto público e social-democracia

Como eu dizia, estamos todos num abismo sem volta. Sobretudo enquanto o progressismo mantiver seu prestígio. O descontrole do gasto público é inevitável em uma social-democracia. O Estado de direitos é inerentemente útil para as instituições que vivem dos juros sobre os títulos de crédito emitidos pelo Banco Central. 

Trocando em miúdos, a máquina social-democrática propicia que as instituições financeiras lucrem e as pessoas na ponta do mercado (o povo), últimas a ver a cor do dinheiro, paguem a conta. 

O amor todo de George Soros e colegas globalistas a governos comunistas, socialistas ou social-democratas é, naturalmente, mera coincidência. Já o PT, pelo visto mandou apagar o verbete “inflação” dos dicionários que seus militantes são livremente obrigados a consultar durante a faculdade de economia. Única forma de convencê-los que estão mesmo ao lado do povo.

Libertários contra o globalismo

Liberais radicais como Rothbard e Hoppe são muito ácidos com os liberais clássicos. O segundo indica que o liberalismo, ao acatar a legitimidade do estado, sempre acaba em social-democracia. E se há algo que esses teóricos da liberdade esperam fazer é achar a fórmula de solapar a máquina social-democrática―menina dos olhos do globalismo. 

A radicalidade de suas análises contempla e repudia faz tempo o projeto globalista em curso. Em 1963, disse Rothbard:

“Infelizmente, o padrão ouro-clássico permanece esquecido, e o objetivo maior de todos os líderes políticos mundiais é adotar o antigo sonho keynesiano de um padrão monetário mundial baseado em um único papel, uma moeda que seria emitida por um banco central mundial (BCM). (…) O BCM seria o todo-poderoso determinador de toda a oferta inflacionária mundial, bem como de sua distribuição entre os países. O BCM poderia e iria submeter o mundo àquilo que ele considerasse ser uma inflação sabiamente controlada. Infelizmente, nesse caso, nada mais restaria para impedir a inimaginável catástrofe de um holocausto econômico trazido por uma inflação galopante mundial”. 

Murray Rothbard. O que o governo fez com nosso dinheiro? (p. 91)

Àquela altura, registrou, os tais líderes articulavam o [futuro fracasso] que viria a ser a União Européia. Quarenta anos depois, seu aluno Hans-Hermann Hoppe invoca aquele visionário desprezo ao programa globalista para explicar a proposta dos liberais anarquistas:

“Em vez de integração política supranacional, governo mundial, constituições, tribunais, bancos centrais, moeda estatal, social-democracia global e multiculturalismo universal e onipresente, os liberais anarquistas propõem a decomposição do estado-nação em suas partes constituintes heterogêneas. Assim como seus antepassados clássicos, os novos liberais não buscam tomar o controle de algum governo. Eles ignoram o governo. Eles apenas desejam ser deixados em paz, separando-se da jurisdição governamental para organizarem a sua própria proteção. Entretanto, ao contrário dos seus predecessores―os quais tão somente buscaram substituir um governo maior por um governo menor―, os novos liberais perseguem a lógica da secessão às suas últimas consequências”.

Hans-Hermann Hoppe. Democracia, o Deus que falhou (p. 273)

Entre o pesadelo globalista e o devaneio libertário, cumpre aos conservadores, inspirados pelo ceticismo e atentos à experiência, chegar a um meio termo que nos salve do inferno. Antes que a inflação soberba, vaidade, presunção (ou mão invisível de lúcifer) , volte a nos engolir.


ROTHBARD. O que o governo fez com nosso dinheiro? São Paulo, LVM, 2013

H-H. HOPPE. Democracia, o Deus que falhou. São Paulo, Editora LVM, 2014


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