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quinta-feira, 21 outubro, 2021

AS PALAVRAS QUE USAMOS丨Amor

Revista Mensal
Bruna Torlay
Estudiosa de filosofia e escritora, frequenta menos o noticiário que as obras de Platão.
(a.mor)[ô] sm. 1. Sentimento que faz alguém querer o bem de outrem ou de alguma coisa [+ a, por : amor (da juventude) à pátria: amor pelos humildes] 2. Afeto profundo, devoção de uma pessoa a outra (amor materno) 3. Sentimento terno e caloroso de uma pessoa por outra, inclusive de natureza física e sexual: "Nosso amor que eu não esqueço..." (Noel Rosa, Último desejo)) 4. Relação amorosa: A duquesa tinha vários amores 5. O ato sexual (fazer amor) 6. Inclinação, apego ao que desperta prazer ou empatia (amor à música) 7. Rel. Sentimento de devoção a Deus; VENERAÇÃO 8. O ente objeto do amor: Dalila foi o amor de Sansão 9. Cuidado, zelo, dedicação: Fazer alguma coisa com amor. 10. Mit. Cupido [F.: Do lat. amor, oris.]

Apesar das várias acepções do termo, é imediata a lembrança de Cristo ao se pensar no sentimento de amor, dádiva maior na vida de qualquer ser-humano. A palavra é igualmente vital na Filosofia grega, quando se trata de caçar o movimento da alma que a explica. Não fosse tal sentimento, a própria filosofia não teria pilar.

As acepções centrais do termo exprimem o amor vinculado ao desejo (eros) ; a amizade (philia) ; e o amor fraterno, derivação do amor divino (agape). O ponto em comum entre os três significados é o vínculo indissociável ao sacrifício.

Eros

No diálogo Fedro, Platão elabora uma alegoria em que soma aflição e felicidade, no registro do amor chamado “eros”, aquele associado à beleza e ao desejo. O amante, diante do objeto de desejo, sendo conduzido ao alto, enfrenta o suplício do crescimento de asas em sua alma:

“[A alma], quando as asas começam a desenvolver-se, ferve, infla e sofre da mesma maneira como padecem as crianças que, ao receberem novos dentes, sentem pruridos e irritação nas gengivas. Também a alma padece, fermenta e sofre dores, ao lhe crescerem as asas. Quando contempla a beleza de um belo objeto e daí provém corpúsculos que dele saem e se separam, de onde se deriva a vaga de desejo, a alma encontra então o alívio para as dores e a alegria. Mas quando está separada do amado, fenece. E as aberturas pelas quais saem as asas também murcham e, fechando-se, impedem a germinação da asa que, presa no interior juntamente com a vaga do desejo palpitando nas artérias, faz pressão em cada saída sem abrir caminho. Desse modo, a alma toda, atormentada por todos os lados, sofre e padece, e no seu frenesi não encontra mais repouso.” (Fedro p. 156)

Philia

O cerne da coragem, virtude cardeal tematizada por Aristóteles na Ética a Nicômaco, é a habilidade de pôr-se à distância igual da covardia e da temeridade. Para entender a relação, imaginem um grupo de pessoas que veem, do outro lado do abismo ao seu lado, colegas perdidos, presos do lado de lá. Ser temerário é como, faltando em amor pela própria dignidade, saltar impensadamente sobre um precipício a fim de chegar ao outro lado. Ser covarde, por outro lado, seria como esconder-se do precipício, ou dar meia volta, por um desmedido amor pelo umbigo. A coragem estaria naqueles que constroem uma ponte para vencer o abismo, sem perder a si mesmos, e certos de realmente resgatarem o grupo vulnerável. 

“Até o último homem”

Um exemplo concreto de coragem recentemente transposto ao cinema é o do americano Desmond Doss, retratado no filme Até o último homem. Adventista de sétimo dia e filho de um ex-combatente da primeira guerra, alista-se para ajudar o país na guerra contra o Japão, mas sob a condição de jamais matar uma única alma. A sua meta era ir à guerra como socorrista. Literalmente, resguardar a vida dos colegas. A aversão ao treino para matar o inimigo irritou os superiores e levou o caso à justiça marcial. A corte permitiu sua ida à guerra. 

No final das contas, salvou sozinho 75 colegas feridos na batalha de Okinawa. O impressionante do caso se deve ao grau de adversidade da guerra do pacífico. O filme mostra como foi aquele embate, em especial. Os soldados, a partir de uma praia, escalavam um penhasco com o auxílio de uma rede e avançavam em solo inóspito, sem imaginar a rede de túneis repletas de ciladas sob sua ofensiva, praticamente para morrer. Um batalhão após o outro subiam para jamais descer a rede. Os poucos não feridos em combate corriam de volta à rede para descer do platô e salvar-se. 

Na ofensiva que Desmond Doss integrou, ele ficou no platô, escondendo-se dos japoneses madrugada adentro, entre esconderijos improvisados e estratégicos túneis subterrâneos cavados pelos inimigos. Cada ferido que achava, levava até o penhasco e os descia por meio da corda. De quebra, revelou ainda os sinuosos túneis sob o terreno, auxiliando os combatentes a recriar uma estratégia de ataque eficaz. Ironicamente, foi aquele que se recusou a matar que estancou a sangria de Okinawa. Por amor às convicções cristãs.

O sacrifício é um gesto milenarmente entendido como ato de nobreza da alma. Pessoas capazes de fazê-lo são estimadas, ou dignas de honra. E não há sacrifício viável onde inexiste o amor. 

Enquanto Platão evoca o amor ao buscar entender a ânsia da alma por conhecimento, Aristóteles define as leis da cidade, ou a prática da justiça, ou a política, como reflexo calculado da prática da virtude própria a homens maduros — que ele designa “sérios”.

“A verdade acerca do sério é esta: age em prol dos que ama e da sua pátria e, se tiver de ser, morrerá por eles”

Ética a Nicômaco [1169 a 20]

Mas a seriedade, ou hábito de agir bem, não é exatamente fácil. Por isso, a necessidade de leis:

“Viver de um modo temperado e de uma forma paciente não é agradável à maioria das pessoas, sobretudo aos jovens. Por este motivo, a primeira forma de instrução e as suas ocupações têm de ser determinadas por uma legislação correta. Pois a temperança e a paciência já não serão dolorosas depois que se tiverem tornado num hábito.”  

Ética a Nicômaco [1180a1]

O que diferencia o “homem sério” do imaturo? A amizade que tem por si mesmo, ou “amor de si”. Porque tem apreço pela dignidade, prefere o bem ao mal. E essa inclinação está na origem da possibilidade de se erigir leis que tornem harmônica e feliz a vida em comum. O indivíduo e o sentimento basilar do amor são premissas, vejam só, a um Estado justo. Premissas no sentido em que fundamentam sua possibilidade.

Ágape

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.

E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.

O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.

Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;

Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;

Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;

Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;

Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

Coríntios 13:1-13

A imagem do Calvário é a expressão máxima do laço entre amor e sacrifício. Todas as reflexões anteriores se tornam menores, diante da experiência do suplício. Raciocínios que insistem no “egoísmo essencial aos homens”, ou no “interesse como pilar de toda e qualquer associação” se tornam banais, em comparação àquela realidade.

O termo grego empregado por Paulo nesse extrato é “ágape”. Diferentemente do “eros” evocado por Platão; ou da “philia” tão vital em Aristóteles, “ágape” significa a mais elevada forma de amor, aquela que transcende a compreensão humana, mas ilumina a sua existência e perpassa sua vida. É o sentimento que o suplício incute na memória dos homens; e se perdido, alimenta o vazio inexplicável chamado angústia.

Na prática, o natal é a data em que comemoramos aquilo que já temos: a misteriosa inclinação a esse tipo de amor, que moveu montanhas e permanece movendo o mundo. Se nem todos o acolhem, talvez seja por temor ao sacrifício que lhe é inerente.

Ao que tudo indica, o maior de todos os presentes não é indolor. Nem sem ele seria possível entender o cerne da felicidade.

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