Um passeio pela Pinacoteca do estado de São Paulo mostra a nobreza original associada ao edifício ceder espaço ao vazio

O prédio da Pinacoteca do Estado de São Paulo foi erguido PARA abrigar a sede do Liceu de Artes e Ofícios, com propósitos marcados pelo “humanismo” das cabeças dominantes nas primeiras décadas da República. Visava, ademais, a capacitação técnica de uma população que pudesse dar conta dos ofícios de uma cidade em plena evolução industrial.

Mas algo assinalou a nobreza do espaço do Liceu dedicado à coleção de pinturas, durante a inauguração em 1905: a fala de Cardoso de Almeida que, encarregado de pronunciar o discurso da solenidade, exclamou:

“Embora pequena, tem o alto valor de um estímulo à educação de nossos sentimentos estéticos”.

O acervo original

Naquela época, o museu contava com 26 obras, contra 700 que hoje ocupam as paredes de diversas salas. A produção brasileira do século XIX e XX dominava o espaço, pontuad de algumas peças do Brasil Colonial. Aquelas pinturas presentes à data de inauguração, de Eliseu Visconti, Almeida Junior, Benedito Calixto e outros nomes relevantes da pintura brasileira continuam a enobrecer o acervo da Pinacoteca no interior da construção de estilo neorrenascentista típica do século XIX industrialista.

Hoje, quem se põe do lado de fora, crê estar diante de um edifício que, fiel ao seu estilo arquitetônico, preserve valores e “sentimentos estéticos” apropriados a um museu. Mas a experiência de quem o frequenta não é bem assim.

Lacração gratuita destroça a missão original do Museu

Se nos detivermos ao exercício de analisar apenas as obras do acervo, concentrando-se e imaginando uma linha do tempo, perceberemos duas coisas importantes: a primeira é a disposição da mostra, que através de suas salas “temáticas”, promovem uma baita confusão de vai e vêm de épocas, períodos e estilos, guardando, entre si, a única semelhança de serem conterrâneas. A segunda é que, numa curva qualitativa, tudo aquilo que data dos séculos XVIII, XIX e início do XX é imensamente melhor e mais poderoso, em termos estéticos e poéticos, que todos os clichês papagaiados pelos “artistas” a partir do construtivismo da segunda metade do século XX.

Esses artistas de pouca expressão, no máximo reproduziram as pop e optical arts que ganhavam o terreno da moda nos EUA dos anos 60 e 70, além de “pinturas cartazes” com críticas ao regime militar. A arte que míngua através dos anos.

Todavia, se isso fosse tudo, a Pinacoteca ainda estaria à salvo da miséria espiritual. O problema é o que “andam introduzindo” goela abaixo, fazendo-nos sentir que, no lugar de um museu, estivamos num ambiente completamente oco.

Expliquemos: chamado de “arte em diálogo”, a iniciativa da curadoria do museu não podia ser pior. Ao nos convidar a “observar imagens e relacionar ideias”, se coloca a imagem do Che Guevara impressa num painel no centro de uma sala destinada à mostra de artistas como Almeida Júnior e Georgina de Albuquerque. Claro… “tudo a ver”!

Essa seria a pior e mais infeliz das “reflexões” desse “diálogo” que a curadoria, muito invasivamente, nos propôs durante todas as salas destinadas ao acervo, poluído por esses pop-ups inoportunos. O que fazem, na realidade, é não deixar a peteca da militância política cair, mesmo quando não encontram um motivo razoável para aqueles posts estarem lá.

Essa ocupação de espaços é algo tipicamente contemporâneo e não tem nada a ver com aqueles hábeis artistas que se dedicavam, visivelmente, a exprimir seus potenciais poéticos, combinando, maravilhosamente, conhecimento técnico e paisagem tropical. O mágico da arte visual é tudo o que se pode falar sobre a obra nascer dela própria. Os olhos não mentem!

Potencializar apenas os elementos político-sociais das obras de arte é ceder ao vício de considerar o artista e sua obra como instrumentos numa escala horizontal, inteiramente temporal, vazia e apartada de todo o potencial próprio à arte. Mas não é isso que está em Almeida Junior. Não se trata de um artista “datado”. Entretanto, é o que forçam a fazer parecer.

Igor Caruso mencionou que o exagero de valores relativos provoca neuroses. É esse fator sintomático que vemos nos artistas contemporâneos que, à diferença dos antigos, dedicam-se única e exclusivamente ao engajamento político: como um Midas infortuno, tudo que toca vira um “ato público”, expondo sua rebeldia e inconformismo com… qualquer coisa que lhe desagrade. No lugar de um gênio artístico de personalidade grave e destemida, o artista de hoje é um mimadinho reclamão.

 Sala intermediária da exposição da artista brasileira Fernanda Gomes

Os “podres de mimados”, para usar um ótimo título de René Girard, quando não falam sobre política ou criticam a sociedade, optam por negligenciar o próprio fazer artístico. A exposição de Fernanda Gomes está lá, na Pinacoteca, até final de fevereiro, para não desmentir o que falamos aqui.

Não tem sensação pior que entrar numa sala praticamente vazia e sair certificando-se de que o vazio de significância só ampliou, ao encontrar apenas alguns objetos deliberadamente colocados nas paredes, outros pelo chão, uns pedaços de madeira pintados de branco, outras mais cruas. E é isso, até chegar na última sala. Como Scheler nos alerta:

“O vazio infinito do espaço e do tempo é o próprio vazio do coração do homem”.

Eternidade dos clássicos

Fuga da Sacra Família para o Egito (estudo). Almeida Junior, 1881

As obras mais visitadas de Almeida Junior são os que retratam os trabalhadores, os caipiras, as negras e as famílias simples do campo. Mas a versatilidade do artista ituano é imensa no que se refere a temática, variando desde retrato de crianças, cenas psicologicamente bem abordadas de suas traquinagens, passando pelas paisagens, retratos da elite brasileira, até os recorrentes temas religiosos, que formam um dos mais férteis conjuntos de sua extensa obra.

Fuga da Sacra Família para o Egito. Almeira Junior, 1881.

A “Fuga da Sacra Família para o Egito” é uma obra prima, em termos de composição e originalidade da abordagem. Sua técnica, curiosamente, nos faz lembrar Rembrandt e Velázquez pelo fato de ambos estarem no limiar entre um aparente “realismo” e um flagrante maneirismo gestual, onde o que se faz notar são, nos artistas holandês e espanhol, respectivamente, as pinceladas soltas e o consequente indício da liberdade expressiva; enquanto que, no artista brasileiro, a fartura gestual se revela nos estudos, possíveis de serem observados em “Amolação interrompida” e na supracitada “Fuga”.

Deslumbrantes exemplares de uma síntese tipicamente impressionista!

Amolação interrompida (estudo). Almeida Junior, 1893
Amolação interrompida. Almeida Junior, 1894

Assim como o ituano, outro que se destacou por seu gênio inconfundível e que, assim como este, também passou anos na Europa a coletar tudo que podia usufruir da arte clássica, foi Victor Brecheret. Talvez seja ele o autor do imaginário que mais faça remeter a uma imagem referencial e firmemente autêntica do Brasil, ombreando com Aleijadinho.

Apesar de ter contribuído com o estilo moderno da arte brasileira, mais que qualquer outro artista do século XX, nunca deixou de lado as raízes de sua formação clássica europeia e fez jus, tanto de “despir-se da herança do grotesco” do moderno, quanto de não entediar-se na “estagnação” que o academicismo pudesse gerar.

Fuga para o Egito. Victor Brecheret. Década de 20. Bronze polido.

As deliciosas curvas que emanam de suas figuras humanas, fazem transfigurar o geométrico do corpo da maneira mais bela e poética que se pudera imaginar. Cada gesto é dotado de um pathos agradável e equilibrado, nunca forçado. Através de um jogo perfeito de compensações, as curvas se revezam de maneira tão natural quanto o vai-e-vem das ondas do mar. Talvez o único que pudéssemos comparar em estilo seria Brancusi, sendo inconfundível perante todos os demais.

A obra de Victor Brecheret, assim como a de Almeida Junior, tem sua carga mais profunda no sagrado. A síntese da natureza que promove demonstra o seu grau de compreensão da existência; uma severa consciência de que a criação apenas obedece à estimulante dança ordenada e ritmada advinda da Lei do seu Criador. Nas palavras de Paulo Bonfim:

Toda a trajetória do artista gira em torno da procura do divino”.

Tocadora de cítara. Victor Brecheret, 1930
fim

4 Comments

  1. Gostei da matéria e aprendi a observar de uma maneira diferente a importância da arte em nossas vidas. Às histórias registradas nós períodos registrados com estas artes maravilhosas, assim como, às vezes os espacos preenchidos com outros tipos de artes que deixam a desejar. Grato pelas suas observações,
    Jorge Reis

  2. Muito boa as colocações, um tanto “politicamente corretas” em meu entendimento, afinal o lixo é lixo embora em embalagem que busca elevar o lixo a algo mais!
    Mas valeria comentários sobre a agenda doentia da semana de arte moderna, e “obras” que só nos leva a crer que o grotesco é a medida de todos, afinal só se eleva o grotesco a algo artístico quando já nos falta o discernimento do que é arte. Mas essa agenda é antiga, começou talvez com o impressionismo, que apesar de ter Van Goghs teve também gauguins que com sua arte grotesca e despida de perspectiva alavancou o primário ao estrelato. Se observarmos essa agenda veremos que é a mesma da diversidade, onde o abominável vira desejável, o doente vira generidade, e o pândego vira intelectual.
    Existe uma agenda de desmonte da razão, essa agenda advoga que a estupidez é interessante pois é diversa ao pensar, e assim sendo é fundamental para se parametrizar, algo como, desconstruir as medidas! Semelhante à estupidez de confundir medida de grandeza com grandeza física, e o resultado disso só tem como ser catastrófico!
    Na década de sessenta, desenho animado era Walt Disney e o trabalho estupendo de animação da warner Brothers, looney tunes, a turma do pernalonga, um trabalho supinamente criativo, com animações que exploravam os movimentos de forma ampla geral e irrestrita, e sempre sem perder a proporcionalidade e profundidade. Mas nesse mesmo período surgiu algo grotesco que o o pica pau, popeye e outros, ou seja, a qualidade sempre está em poucos, mas a comercialidade está em muitos, pois poucos entendem o estado de arte e muitos vêm arte em qualquer tolice!
    É aquela questão, a meedida de cada um só serve para ele mesmo. E se temos uma imensa maioria tosca, medíocre, fica patente que o que será alavancado a arte é o que é mediocre! Para entender o qualificado faz fundamental a qualidade, de outra forma a arte qualificada se torna cansativa, o mesmo acontece com a literatura, e a música, o tosco só consegue perceber o “ritmo” do funk, do pagode, do sertanojo, não está capacitado a perceber um som mais rebuscado que um “for all”, afinal esse naturalmente é para todos, medíocre!
    Assim, acho pertinente atinarmos para o fato de que a arte não decaiu se não na medida da decadência fisica, espiritual, intelectual e fisiológica de todos.
    Uma prova cabal do que afirmo é que hoje o QI está vinte pontos abaixo de cinquenta anos atrás, aqui são “só” 40 pontos!
    A quantidade de espermatozóides está mais de 50% abaixo de cinquenta anos atrás!
    E para completar, como se a desgraça não fosse bastante, hoje se estupra óvulos (inseminação artificial), ou seja, personagens que não têm qualquer qualidade perpetuável, agora podem perpetuar suas degeneraç~ões, e tudo em nome do “amor”…
    Ou seja, não é a arte que decaiu, foi a humanidade que afundou em um mar do abominável!
    A arte é arte sempre, mas só pode ser percebida por pessoas que tenham um mínimo de intelecto e a arte superior só pelos superiores.
    A arte é absolutamente sectária, ela não permite o acesso do néscio, esse precisa de outra coisa para entender arte, precisa de anitta, “gênios” como neimares e airton sennas, e claro que nesse patamar haverá espaço para a Frenanda Gomes, é natural que assim seja. O que não é natural é uma espécie regredir em vez de evoluir, isso sim é antinatural!
    E nessa toada teremos em breve não só performances de fecalopatas (seres doentes que sentem afeto por buraco de fezes), mas até de coprolagnias explícitas, serão performáticos e os fedores serão odores!
    Fica patente que algo de podre existe no reino da humanidade e que nem a imaginação humana pode abarcar!
    Em tempos de retardados nascendo, o smart é phone pois os cérebros… bem, esses já estão zicados, viralizados, virulentos e virados!
    O ultimo a sair, fecha a tampa, puxa a descarga e apaga a luz!
    …E reza para não haver entupimentos!!! 😀
    PS: Desculpe o chiste, mas depois de tão dramático clamor em prol do renascimento tardio da arte. só mesmo na esculhambação!

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