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sábado, 28 maio, 2022

A BELEZA IMPORTA丨Liberdade é um pássaro estúpido

Revista Mensal

É possível assistir a um filme e acompanhar a estória de um herói por puro entretenimento, com a confortável posição de quem contempla as cenas de fora, livre e descomprometido, independente de quantas aventuras e situações mirabolantes aquela tão bem quista personagem tenha se sujeitado.

Há, entretanto, algumas obras que ultrapassam as expectativas da poesia e parecem nos atacar na carne, como acontece com aquela indireta que você recebe de alguém próximo ou familiar, que fica muito claro – talvez não seja claro para os outros, mas você, no íntimo, sabe – que o recado era para lhe atingir.

Mas, para que tal efeito se dê, você precisa ter consciência da sua condição. Isso acontece quando você lê o Gênesis na chave de percepção de que tudo o que vivemos e sofremos hoje – e tudo o que a humanidade passou – é fruto do pecado original e nossa condição de queda. Isso também ocorre quando se lê 1984 ou a Revolução dos Bichos de George Orwell e percebe que somos condicionados a pensar e falar apenas aquilo que o Grande Irmão lhe sujeitar, ou que, você não passa de um cavalo, galinha ou vaca néscio que se empolga com um teatro promovido por uma minoria de porcos que prometem uma vitória da espécie animal em cima de uma outra minoria que antes lhe explorava.

Se você tiver tal consciência, será impossível não se inquietar com a distopia de Suzanne Collins, “Jogos Vorazes”. Afinal de contas, você nada mais é que um “pássaro estúpido que acredita ser dono da floresta”[1].

A liberdade do pássaro e a floresta que habita

Adão e Eva expulsos do Paraíso, por Gustave Doré

Antes de falar sobre a produção cinematográfica, é importante discorrer sobre o enigma da liberdade. Penso que não há outro meio de falar de liberdade que não seja pelo caminho da dialética. Para entendê-la, é crucial lembrarmos que ela foi confiada por Deus, primeiramente, aos anjos. A condição sine qua non da liberdade é a inteligência; portanto, anjos e homens, por terem inteligência, possuem o livre-arbítrio: escolhe obedecer à ordem natural ou se dirigir ao caos (que sempre houve, mesmo antes de Lucifer haver criado o Inferno).

A diferença crucial está em que, para o homem, o caminho do pecado já havia sido alertado pelo Criador e seria muito fácil distingui-lo diante das coisas próprias de Deus, já que havia um primeiro anjo a praticar a transgressão e o homem teria, digamos assim, uma vantagem testemunhal do que é “estar fora de Deus”. Como diz John Milton no terceiro argumento do Paraíso Perdido: “criado livre o homem é suficientemente apto para resistir ao seu tentador”[2].

De qualquer forma, quando disse que a liberdade deve ser entendida dialeticamente, é pelo fato de que há, na existência, um fator que nos determina e outro que nos deixa livres para escolher, de acordo com nossa vontade individual. O antagonismo destino/acaso é uma das querelas mais pueris que poderíamos suscitar, assim como os polos opostos entre Heráclito e Parmênides (entre mudança contínua e inercia total) foram suplantados pela moderação socrática da dupla natureza do homem: corpo diviso e espírito unificante.

Por meio de operação análoga, é possível resolver facilmente a questão da liberdade. Fomos livres, mais que hoje, nos primeiros dias da nossa criação. Acontece que o homem utilizou da sua liberdade para desobedecer a única condição que o Criador nos empunha: não comer do fruto. Após esta ação – que não poderia ter sido realizada se não fosse nossa liberdade – o homem é transferido a um mundo onde ele deve perecer. Neste local, nós temos menos liberdade, pois a matéria nos condiciona ao perecimento. Digamos que temos uma liberdade relativa, portanto.

Mas a obra de Orwell nos ensina que o que está na nossa mente e no nosso coração é impossível de ser proibido, ao menos secretamente. Então, há liberdade sim, e há meios de fazer a escolha certa, pois, fugindo do pecado, recebemos a liberdade.

Um pássaro e uma floresta

A estória do filme me pegou de surpresa pois achei que seu efeito seria uma costumeira simpatia pelo drama da personagem. Mas alguns elementos da trama fazem um paralelismo tão forte com a nossa vida que fica difícil não compartilhar do seu sofrimento, quase que par a par, como se fosse o meu.

Quando você se depara com as cenas iniciais, de um governo que recruta “tributos” anuais para prestarem conta de uma antiga dívida dos doze distritos de Panem, facilmente nos vêm a lembrança do mito de Teseu, onde os jovens atenienses eram levados anualmente para pagarem tributo ao rei Minos, de Creta. Mas até aí, nada tão diferente das inúmeras obras literárias e cinematográficas que ecoam o modus do mito antigo. A recorrência é própria da arte.

Entrementes, quando você é confrontado com a futilidade hostil de um público “burguês” e mesquinho, que vibra ao acompanhar o triste destino dos integrantes dessa sangrenta “gincana”, é diretamente assombrado pelo fato de que, hoje, assistimos a uma mesquinharia semelhante, sob as sombras dos reality shows.

É evidente que a finalidade é diversa, já que ninguém se sangra ou luta para tirar a vida do oponente. Acontece que, se não tira a vida, o objetivo é claro de tirar a dignidade do adversário. Basta observar.

Esses programas ridiculamente arranjados, selecionam os piores tipos de pessoas, como quem atira para dentro de uma bandeja predadores naturais (um escorpião e uma barata, por exemplo) para fazer uma rinha de animais. O resultado é premeditado e óbvio: basta colocar dois brutos para conviverem sob disputa que você verá o “circo pegar fogo”.

Este prazer em ver essas relações de baixíssimo nível é algo comum ao vulgo. Vide, na história, a prática das grandes – e lotadas – arenas de batalha dos gladiadores. Infelizmente, o que a massa pode oferecer de pior é essa tara por baixeza.

Acontece que os governos conhecem bem o mapa do homem e, consequentemente, seus pontos mais fracos. E, com essa técnica[3], desenvolvem engenharias de controle altamente eficazes.

Daí, você pode se perguntar: seria uma questão de tempo até regressarmos a esta etapa da história? Possível que você se faça essa pergunta, pois eu a fiz quando assisti ao filme.

Um consolo e um alerta

Canto I, Inferno, Divina Comédia. Gravura por Gustave Doré.

Um fator importantíssimo me leva a crer no motivo pelo qual não regressamos a essas práticas. Lembre-se bem que, na história de Roma, o seu declínio se deu justamente porque a moral daquele povo foi paulatinamente esvaziada, e o estoicismo não foi suficiente. Teria de haver uma nova crença que fosse capaz de levantar um sentido maior para o ocidente. Este motivo foi o cristianismo.

O problema é que, hoje, também vivemos um período de esvaziamento. Progressivamente, os governos, as mídias, grandes corporações, produtoras cinematográficas e as Big Techs trabalham, 24 horas por dia, com incansáveis maneiras de nos retirar as bases que asseguram nossos freios.

Uma civilização só se estabelece por meio de seus princípios fundamentais que regem leis e colocam limites às nossas ações. A civilização atual é fruto do que reuniu, durante séculos, as bases moralizantes, desde a tábua de Moisés, passando pela revisão dos mandamentos por Cristo, e incorporando as positividades do pensamento da escola socrática.

Para um governo aplicar à população aquilo que bem entender, precisa-se lhes dar um tipo de esperança (enquanto eles não perceberem), ou medo (quando acordarem).

O adágio do filme está na boca do grande ditador, o presidente Snow, quando disse que “mais poderosa que o medo é a esperança”. E trata-se de estratégia excelente, mesmo quando é o próprio detentor do poder quem causa o problema: no caso, eles imputam a lei do tributo e eles mesmos oferecem uma oportunidade de surgir um herói, que virá glorioso desse grande sacrifício ao representar o seu povo.

Nesse interim, os distritos se mantêm ocupados torcendo pela vinda do aspirante herói, mesmo sabendo que outros vinte e três sejam brutalmente assassinados. Ainda que seja miserável, há uma esperança.

E sempre há esperança. E não me refiro àquela falsa, que Scruton[4] nos admoesta, mas à genuína. Quando se trata de humanidade, que envolve animalidade e divindade, esperança é uma das virtudes teologais, que só pode ser sustentada pelas forças da fé e da caridade. Nesse quesito, o filme dá um show de exemplo na figura da protagonista, Katniss Everdeen que, mesmo em situações limítrofes, guardou sua dignidade e se recusou a disparar sua flecha contra qualquer um dos oponentes.

Entre medo e esperança (a falsa), ou, como o Lúcifer de Milton indaga aos seus consórcios do Orco: “guerra aberta ou trama oculta?”[5], os poderes totalitários perceberam como a última opção é muito mais limpa, estável, e, digamos assim, um investimento de baixo risco.

A maturidade chega quando percebemos que não passamos de um pássaro estúpido, que voa alegremente imaginando ser “o rei da floresta”, sem perceber que, enquanto estivermos “nel mezzo del cammin di nostra vita” perceberemos que se trata de “selva escura”[6] e nela, não há caminho certo, a não ser aquele que aponta para além deste plano.


[1] Na cena inicial do segundo filme da série, (Jogos Vorazes: Em chamas, de 2013), o amigo de Katniss Everdeen (pratagonista), Gale Hawthorne, se dirige a ela com esta frase.

[2] MILTON, John, Paraíso Perdido, p. 157, Editora Literatura Clássica, Novo Hamburgo/RS, 2020

[3] Termo caro ao escritor brasileiro Gustavo Corção, que salienta os perigos do vício da técnica: o tecnicismo. Ver “Fronteiras da técnica”, Vide Editorial, Campinas/SP, 2021

[4] Vide SCRUTON, Roger, “As vantagens do pessimismo e o perigo da falsa esperança”, É Realizações, São Paulo, 2010

[5] Idem, p.81, Canto II

[6] Primeiro verso do Inferno, da Divina Comédia, em que Dante Alighieri menciona estar perdido em selva escura e percebe ter se perdido no meio de seu caminho.

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