Ano eleitoral é uma caixa de Pandora aberta. A discrição silencia e as menores angústias alimentam a sede que desperta o anel de Sauron. Golluns de todas as ordens acorrem ao Hobbit mais próximo, emulando serviço e ansiando apoderar-se de seu precioso. O vilipêndio escorre como suor da testa em meio à maratona rumo ao poder. Deus observa e o diabo labuta.
Que se passa entre os bons conservadores, tão cristãos e valorosos, para a tal ponto estapearem-se pelo do manto único, impassível de ser destroçado sem pôr-se a perder? Lá se vão com o diabo no corpo.
Com os arautos do paraíso na terra, o demo já tem contrato. Negócio feito, sai à cata de mais clientela.
Estende um objeto de lascívia à senhora que se posta como ímã da virtude feminina, inspirando-lhe o cúmulo de exibir o amante em praças frequentadas, duplicando a humilhação ao marido enganado diante do país inteiro. Um segredo vivido para não passar de um túmulo logo vira assunto de oponentes em busca de fraquezas com que chantagear reputações já duvidosas. Ao orgulhoso inveterado, recentemente posto no banco de reservas de disputas acirradas, envia como auxílio a vaidade incurável do analista limitado, cuja vida remói derrotas públicas para adversários que, hoje, insinuam-se como novas alianças. Ressentimentos refletidos. Dinheiro é lavado no oriente. Soldados, contratados às pressas – e que comece a caça ao Hobbit auxiliar, loucamente fascinado pelo anel, inicialmente carregado em prol de amigos e ora preso ao próprio pescoço com unhas e dentes, saboreando o palatável gosto de um trono que sonha agarrar antes do tempo oportuno – a ponto de espalhar aos quatro cantos a promessa das cadeiras acessórias a todo parasita que ache no caminho, e se preste a retardar a ação dos caçadores de aluguel.
“Ah, o sucesso!” Lúcifer exulta. “Quem como eu?” Reverbera a exclamação em cada coração doente, possuído pela ânsia que move o rei do inferno.
A guerra prospera. O manto é esticado. Surgem protetores, que ao tocá-lo a fim de protegê-lo, contraem o veneno que o trespassa, transmitido pelas almas que o disputam. Batem mais forte, mas a réplica persiste. Que fim terá a peça?
Nos bastidores, parasitas se valem do prestígio de empréstimo para exercitar seus vícios costumeiros; colhe-se moeda verdadeira em troca de tristezas falsas. Diabretes acorrem ao banco da casa de Deus, ali se exibindo qual cordeiros. Mas cordeiro é um só. Cá somos pobres diabos e nada mais. Como o interno de Mann, estupidificado pela grandeza de almas – essencialmente desimportantes – em disputa pelo pódio da sapiência maior. Como esse mesmo interno, o destino que nos aguarda é o campo minado – feito à imagem e semelhança do manto rasgado – posto ali para estilhaçar de vez as sombras de esperança que um dia o moveram.
Seja feita a Vossa vontade;
Rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte;
Que Deus nos perdoe – e cada um adormeça em tempo o diabo que mora em si.
Amém.
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Ano eleitoral são as melhores temporadas da série realitixou brasileira “House of Caralho”. ¡Imperdível!