Após a consumação da prisão de Bolsonaro, as redes sociais transbordaram de um fenômeno que já ocorria desde a derrota deste nas urnas: os bolsonaristas mais extremados demonstram uma raiva irracional de Bolsonaro e dos militares, culpando-os por terem permitido que a situação institucional brasileira tenha chegado neste ponto em que está. Essas pessoas não entendem que Bolsonaro nunca disse que daria um golpe militar. Apesar de alguns discursos contraditórios, as ações dele confirmaram isso.
Esse clamor por um golpe, bem como os discursos dúbios do ex-presidente, é que deram margem à Esquerda para sua perseguição implacável, a condenação ilegal e a prisão. E as Forças Armadas – ah, as Forças Armadas – quem esperava algo delas simplesmente desconhece a história do Brasil.
Esses extremados são os mesmos que pediam intervenção militar e que se dizem “conservadores puros”. São saudosos do Regime Militar e condenam todos os outros conservadores – aqueles que veem erros no governo Bolsonaro por falta de preparo – sob o rótulo de traidores. Como no final de 2022, essa turma acabou manipulada por “líderes bolsonaristas”. Desta vez, eles colocaram na eleição de Donald Trump uma fé inabalável de que tudo seria resolvido. Trump iria salvar Bolsonaro da cadeia e o Brasil da ditadura.
Mas esse comportamento visceral não é um traço apenas dos extremistas “puros” – conservadores ou progressistas – ele é próprio do brasileiro em geral. Desde o golpe da República, temos o péssimo hábito de esperarmos a solução fácil e rápida de grandes líderes populistas, essa cultura se enraizou no coletivo causando danos irreparáveis. O grande líder que vai revolucionar tudo é endeusado para, logo depois, ser crucificado quando não entrega o prometido, ou pior, o subentendido pela massa.
Como sempre, a realidade é muito dura para aqueles que resolvem ignorá-la. Aqui mesmo nessa revista, eu e outros colunistas já afirmávamos que Trump foi eleito para ser presidente dos Estados Unidos com a plataforma do “America First”, ou seja, “Os Estados Unidos em Primeiro Lugar”. Talvez pudéssemos nos beneficiar de algum modo; porém, isso significa que Trump veria os interesses americanos antes de quaisquer outros.
Até houve sinais positivos. Todos vibraram com as sanções americanas ao Brasil e com a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes. Contudo, quando uma parte das sanções foram retiradas justamente para atender o interesse interno americano, esses mesmos “conservadores puros” também ficaram frustrados. A Lei Magnitsky é um instrumento de força, mas parece demorado para o padrão dos afobados.
Então, Donald Trump passou a ser alvo da mesma raiva antes direcionada a Bolsonaro. Essa turma caiu justamente na narrativa do governo brasileiro de que o presidente americano teria voltado atrás por conta da conversa com Lula. “Trump abandonou Bolsonaro” ou “Trump arregou” são as frases mais repercutidas.
A própria operação militar que os EUA tem feito no mar do Caribe tem sido mal compreendida. Essa mesma turma comemorava o fim da ditadura venezuelana através de uma invasão americana iminente. Como ela está demorando, já estão dizendo que Trump é apenas um “bravateiro”. Não conseguem conceber que esse tipo de operação não é simples e que muitos fatores – econômicos, políticos e geopolíticos – precisam ser pesados.
Trump está enfrentando vários problemas que para ele são mais urgentes e, também, uma verdadeira guerra interna no partido Republicano. Uma ala entende e apoia a intervenção americana em outros países, enquanto outra não quer o “América First”. Ela defende um “America Only” (“Só os Estados Unidos Importam“); verdadeiro movimento isolacionista.
Para nós pode parecer cedo, mas há eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Essas podem mudar a balança de poder no Congresso e Senado americanos. Uma derrota do presidente americano pode ter consequências desastrosas.
Então, “não”, Trump não vai salvar Bolsonaro ou o Brasil porque nunca prometeu isso e também porque os Estados Unidos entendem que não é o papel deles agir nesse sentido. Eles querem que Trump cumpra sua promessa de “América First”. Se para resguardar os interesses americanos eles precisarem agir e isso nos favoreça, tanto melhor.
Não é possível ver o quadro todo quando estamos com antolhos impedindo a visão. Essa incapacidade de enxergar a realidade e aceitá-la é fruto de décadas – talvez mais de um século – de destruição da educação básica e superior no Brasil. O brasileiro vive em função de uma prosperidade vazia, baseada única e exclusivamente em dinheiro, não na aquisição de conhecimento e valores.
Gostamos mesmo é de um bom ditador – de preferência com uso de força militar, mesmo estrangeira – com mãos de ferro contra os inimigos. O problema é que esse “inimigo” é sempre o nosso vizinho que não concorda conosco. Mas, como está ficando claro, não será Donald Trump que exercerá esse papel.
Além de não serem verdades, essas manifestações contra Trump revelam um pouco do brasileiro – de esquerda ou de direita – ou seja, achamos que o Brasil é o centro do mundo. Pois não é. Precisamos aprender a entender as causas dos nosso problemas e buscar meios de resolvê-los sem depender de salvadores. E esse desejo por um ditador “do bem”, à Direita ou à Esquerda certamente é um deles.
“Quem não luta pela sua liberdade não a merece.”



