SANQUIXOTENE DE LA PANÇA | Um Novo Calendário para o Futebol Brasileiro

Paulo Sanchotene
Paulo Sanchotene
Paulo Roberto Tellechea Sanchotene é mestre em Direito pela UFRGS e possui um M.A. em Política pela Catholic University of America. Escreveu e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, sobre os pensamentos de Eric Voegelin, Russell Kirk, e Platão, sobre a história política americana, e sobre direito internacional. É casado e pai de dois filhos. Atualmente, mora no interior do Rio Grande do Sul, na fronteira entre a civilização e a Argentina, onde administra a estância da família (Santo Antônio da Askatasuna).

Uma das minhas paixões (para não dizer “vícios”) é imaginar uma estrutura para o futebol brasileiro. Na verdade, é imaginar torneios esportivos em geral, mas o tema desta vez é o calendário do ludopédio nacional. Para esse, já criei dezenas de arranjos diferentes. Faço isso há muito tempo. O que segue abaixo é apenas o último.

Apesar das diferenças, as premissas dos meus projetos são sempre as mesmas: (a) estabelecer um calendário anual para toda a pirâmide; (b) equilibrar os interesses dos clubes de todos os tamanhos e das federações estaduais; e (c) respeitar a história do futebol de clubes do Brasil. Consegue-se fazer isso de infinitas formas.

Eu faço constantemente esse exercício porque, apesar de haver inúmeras maneiras possível de se organizar o nosso futebol respeitando tais premissas, entendo que o nosso atual calendário as ignora. Isso me incomoda bem mais do que deveria.

Grandeza é um comparativo. Só temos 12 grandes porque esses se comparam com os clubes médios e pequenos. Essa comparação vem, não do torneio nacional, mas dos estaduais. Para preservarmos a grandeza desses, precisamos promover os torneios regionais. Se os eliminarmos, o espaço para grandes clubes diminui. Pensar em modos de ajudar os clubes médios e pequenos beneficia os grandes; ignorá-los, os prejudica.

O campeonato brasileiro corrente é longo e concentrado em poucos times. Os estaduais estão cada vez mais curtos e desvalorizados. Os regionais não incluem clubes de Sul e Sudeste (com exceção do Espírito Santo, que joga a ‘Copa Verde’). Esses, porém, são as pernas do tripé sobre os quais o futebol de clubes no Brasil se desenvolveu. Atualmente, há um desequilíbrio na base. Como proponho resolver isso?

Desta vez, a minha sugestão é de termos uma temporada com seis competições. Cada perna do tripé teria dois torneios – uma “liga” por pontos corridos, seguida de uma “taça” eliminatória.

Os estaduais e os regionais funcionariam como fase classificatórias e as taças como fases finais de um mesmo torneio. A liga nacional (com 20 clubes na Série A) e a taça nacional, apesar de torneios separados, também são interligadas e, vistas em conjunto, lembrariam a Copa João Havelange (2000).

Assim, as três pernas seriam caminhos para determinar campeões nacionais. Todas as pernas teriam suas próprias “pirâmides”, independentes umas das outras, com uma divisão principal e outras divisões inferiores.

O calendário teria três partes distintas, cada qual com uma competição de “liga” e outra de “taça”, mas de pernas diferentes:
1) na primeira parte, teríamos as ligas regionais [15 datas] e uma taça disputada exclusivamente pelos campeões estaduais [10 datas];
2) na segunda parte, teríamos as ligas nacionais [19 datas] e uma taça disputada exclusivamente pelos campeões regionais [2 datas]; e
3) na terceira parte, teríamos as ligas estaduais [11 datas] e uma taça nacional [9 datas].

Esse formato permite flexibilidade no arranjo das datas para as partidas. No total, o calendário inteiro ocuparia 66 datas. É um número equivalente ao que se tem atualmente.

Para se ter uma idéia, usando-se as datas disponíveis nesta temporada, já teríamos terminado com as ligas regionais, a taça “estadual”, e a taça “regional”. Estaríamos a apenas quatro rodadas do fim da liga nacional. Restariam somente as ligas estaduais e a taça nacional.

Teríamos que encaixar 24 datas nas 21 restantes programadas. Contudo, a “taça nacional” e as ligas estaduais permitem flexibilidade para isso — podendo se usar datas FIFA e de torneios da Conmebol. Ademais, o fato de um clube brasileiro se classificar para o Mundial do fim do ano acabaria afetando apenas um estado; não, o país inteiro.

Voltando, em resumo, o topo da pirâmide de cada perna seria assim:

1) A perna estadual teria 27 ligas por pontos corridos (3ª parte) cujos campeões se classificariam à “Taça Brasil” do ano seguinte (1ª parte).

2) A perna regional teria 4 ligas por pontos corridos (1ª parte) cujos campeões se classificariam à “Copa dos Campeões” do mesmo ano (2ª parte).

3) A perna nacional teria 1 liga por pontos corridos (2ª parte), além da “Copa do Brasil” no mesmo ano (3ª parte).

Os campeões da Liga Nacional, da Copa do Brasil, da Copa dos Campeões, e da Taça Brasil seriam todos campeões nacionais equivalentes.

Abaixo, anexo, seguem-se os detalhes.



A. LIGAS

Em detalhes, as pirâmides das ligas de cada perna seriam assim:

I. PERNA ESTADUAL: Estrutura das Ligas

As ligas estaduais ocupariam 11 datas na terceira parte do calendário.

1) Na Primeira Divisão [D1], os times jogariam dentro dos respectivos estados em turno único.

As ligas são classificatórias à taça estadual (campeão) do ano seguinte. Haveria rebaixamento à Divisão de Acesso [DA].

2) A DA determinaria os clubes promovidos à D1. Cada DA estadual seria organizada segundo a conveniência das federações estaduais, podendo ter divisões inferiores.

II. PERNA REGIONAL: Estrutura das Ligas

As ligas regionais ocupariam 15 datas na primeira parte do calendário.

1) A Primeira Divisão [D1] seria dividida em 4 regiões, cada uma com 16 clubes.

– Regiões: Sul-Minas (RS/SC/PR/MG); Roberto Gomes Pedrosa [R.G.P.] (SP/RJ/ES); Nordeste (BA/SE/AL/PE/PB/RN/CE/PI/MA); e Verde (MS/GO/DF/MT/RO/AC/RR/AM/AP/PA/TO).

Os times jogariam dentro das regiões em turno único. As ligas são classificatórias à taça regional (campeão). Haveria rebaixamento à Segunda Divisão [D2].

2) A D2 teria 8 sub-regiões (2 para cada região da D1), cada uma com 14 clubes.

– Sub-regiões: Sul-Minas, 1 (RS/SC) e 2 (PR/MG); R.G.P., 1 (SP) e 2 (RJ/ES); Nordeste, 1 (BA/SE/AL/PE) e 2 (PB/RN/CE/PI/MA); e Verde, 1 (MS/GO/DF/MT/RO) e 2 (AC/RR/AM/AP/PA/TO).

Os times jogariam dentro das sub-regiões em turno único. As ligas são classificatórias às finais regionais (D2). Haveria promoção à D1 e rebaixamento à Divisão de Acesso [DA].

3) A DA regional determinaria os clubes promovidos à D2.

O torneio seria realizado em duas fases: uma, estadual, por pontos corridos; outra, sub-regional, eliminatória. As vagas de cada estado à segunda fase variariam por sub-região. A primeira fase da DA regional seria organizada segundo a conveniência das federações estaduais, podendo ter divisões inferiores.

III. PERNA NACIONAL: Estrutura das Ligas

As ligas nacionais ocupariam 19 datas na primeira parte do calendário.

1) A Primeira Divisão [D1] teria 20 clubes.

Os times jogariam todos contra todos em turno único. O campeão da D1 seria campeão nacional. Haveria rebaixamento à Segunda Divisão [D2].

2) A D2 teria 2 subdivisões, cada uma com 18 clubes.

– Subdivisões: Sul-Sudeste (RS/SC/PR/MG/SP/RJ/ES); e Nordeste-Verde (demais estados).

Os times jogariam dentro das subdivisões em turno único. As ligas são classificatórias à final nacional (D2). Haveria promoção à D1 e rebaixamento à Terceira Divisão [D3].

3) A D3 seria dividida em 4 regiões, cada uma com 16 clubes.

– Regiões: Sul-Minas (RS/SC/PR/MG); R.G.P. (RJ/SP/ES); Nordeste (BA/SE/AL/PE/PB/RN/CE/PI/MA); e Verde (MS/GO/DF/MT/RO/AC/RR/AM/AP/PA/TO).

Os times jogariam dentro das regiões em turno único. As ligas são classificatórias às finais nacionais (D3). Haveria promoção à D2 e rebaixamento à Divisão de Acesso [DA].

4) A DA nacional determinaria os clubes promovidos à D3.

O torneio seria realizado em duas fases: uma, estadual, por pontos corridos; outra, regional, eliminatória. As vagas de cada estado à segunda fase variariam por região. A primeira fase DA nacional seria organizada segundo a conveniência das federações estaduais, podendo ter divisões inferiores.

B. TAÇAS

Em detalhes, as taças de cada perna seriam assim:

I. PERNA ESTADUAL: Taça Brasil

A taça estadual se chamaria “Taça Brasil” [TB] e seu vencedor seria campeão nacional.

O torneio seria disputado por 27 clubes (os 27 campeões estaduais D1 da temporada anterior), e ocuparia dez datas na primeira parte do calendário. A disputa da TB ocorreria em séries eliminatórias em ida-e-volta.

[22 -> (11+5) -> 8 -> 4 -> 2 -> 1]

Os clubes campeões dos 5 estados mais bem classificados no ranking de Federações Estaduais entrariam diretamente nas oitavas-de-final. Os confrontos e os mandos-de-campo também seriam determinados pelo ranking.

II. PERNA REGIONAL: Copa dos Campeões

A taça regional se chamaria “Copa dos Campeões” [CC] e seu vencedor seria campeão nacional.

O torneio seria disputado por 4 clubes (os 4 campeões regionais D1), e ocuparia duas datas na segunda parte do calendário. A disputa da CC seria sempre em Brasília numa mesma semana e ocorreria em eliminatórias de jogo único.

[4 -> 2 -> 1]

Os confrontos nas semifinais seriam determinados por rodízio entre as regiões.

III. PERNA NACIONAL: Copa do Brasil

A taça nacional se chamaria “Copa do Brasil” [CB] e seu vencedor seria campeão nacional.

O torneio seria disputado por 104 clubes (os clubes das três divisões nacionais da temporada seguinte, exceto os clubes recém promovidos da DA), e ocuparia nove datas na segunda parte do calendário. A disputa da CB ocorreria em eliminatórias de jogo único.

[48 -> 24 -> (12+36) -> 24 -> (12+20) -> 16 -> 8 -> 4 -> 2 -> 1]

As 20 equipes que disputarão a D1 do ano seguinte entram apenas na 5ª fase; as 36 equipes que disputarão a D2 do ano seguinte começam a partir da 3ª fase; e as 48 equipes classificadas ao torneio da D3 do ano seguintes participam desde a 1ª fase. As quatro primeiras fases seriam regionalizadas. Os confrontos e os mandos-de-campo seriam determinados pelas campanhas na última edição da liga nacional.


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