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segunda-feira, 29 novembro, 2021

Uma doença do espírito chamada Charles Fourier

Revista Mensal
Antonio Fernando Borges
Antonio Fernando Borges é escritor (Braz, Quincas & Cia. e Memorial de Buenos Aires, entre outros) e professor/consultor de Arte da Escrita.

Sem conhecer o criador do falanstério, fica difícil compreender de onde surgiram as ideias malignas de feminismo, poligamia e ideologia de gênero – todas elas filhas de um mesmo transtorno psíquico: o igualitarismo

Si monumentum requiris, circumspice (Se queres um monumento, olha em volta). O epitáfio que o arquiteto inglês Christopher Wren (1632-1723) mandou gravar em sua lápide ultrapassou as fronteiras do cemitério da St Paul’s Cathedral, templo anglicano de Londres que ele ajudou a reformar. Dirigida originalmente aos visitantes de seu túmulo, a frase hoje funciona muito bem como uma espécie de advertência sobre estes tempos bicudos que vivemos.

Quem tiver então olhos de ver que veja, e ouvidos de ouvir, que veja e ouça:

Na Biblioteca de Borges, uma prateleira discreta abriga os livros do francês Charles Fourier (1772-1837), o socialista utópico e ressentido que dedicou a vida a tornar o mundo um lugar igualitariamente pior para todos. E que, ao morrer, legou ao mundo uma obra em muitos volumes expondo suas teorias amargas, com sabor a ressentimento: Théorie des tromphèthes des Buron (Teoria das trombetas de Buron), Théorie des quatre movements (Teoria dos quatro movimentos) e Le nouveau monde industriel et societaire (O novo mundo industrial e societário), que se destacam em meio a um punhado de outros. Pouco lido e menos ainda citado hoje em dia, Fourier foi no entanto uma típica eminência parda da onda igualitarista que vem devastando o mundo.

São demais os perigos da bibliografia de Fourier. Mas talvez o mais perigoso e delirante de todos os seus livros seja o póstumo Le nouveau monde amoureux (O novo mundo amoroso) – que só veio a ser publicado em 1967, quando as ideias que ele defendia já tinham sido implementadas, minando e dominando com sucesso a civilização ocidental.

No livro, que permaneceu inédito durante tantas décadas, Charles Fourier defende um modelo de sociedade onde “as paixões dos indivíduos poderiam se combinar consensualmente”, e assim deixariam de ser perversões. A proposta inclui, por exemplo, desde a abolição do comércio (que ele chamava de “câncer da economia”) até a “reorientação da indústria”, de modo que o trabalho contribuísse para “harmonizar os indivíduos de acordo com seus prazeres”. Trocando em miúdos: toda a indústria teria como objetivo prover “a maior felicidade social possível”. Eis, em poucas pinceladas, o essencial de seu falanstério, “uma ordem social natural, paralela à ordem física do Universo”. Seria, no fim das contas, uma espécie de jardim-de-infância para adultos – assumida declaração de guerra à civilização urbana, sobretudo à família baseada no casamento e na monogamia. Trocadilhos à parte, tudo isso não lhes parece… “familiar”?

Apesar das aparências, a proposta de Charles Fourier não se enraíza na Lei Natural, que a Igreja Católica abraça e resguarda. Pelo contrário: o “Evangelho Segundo Fourier” aponta na direção de um anticlericalismo coletivista e vingativo, sob a máscara da busca de justiça. Aliás, se olharmos em volta, no atual cenário moral devastado e em ruínas, vamos constatar que Fourier não foi um visionário, e sim o perigoso arquiteto de profecias auto-realizáveis. Apontá-lo como um precursor das ideias de ecologia, feminismo, ideologia de gênero e similares não tem nada de hiperbólico. Afinal, não custa repetir mais uma vez a máxima de Hugo von Hofmannsthal, patrono desta Biblioteca: nada está na política de um país que não esteja antes em seus livros. A imaginação vem antes da ação.

Além do alcance obtido com a capilarização exponencial de suas ideias, Charles Fourier deixou alguns herdeiros na intelectualidade comunista europeia. Em 1979, por exemplo, o “filósofo multitarefa” Roland Barthes dedicou a ele uma terça parte do livro Sade, Fourier, Loiola – e, pelo título, não é difícil deduzir a leitura enviezada do escritor, ao reunir no meio balaio de gatos um psicopata, um socialista ateu e um santo da Igreja Católica. Aliás, tudo parece doentio em Fourier, e pela mais simples das razões: é realmente doentio. Não foi à toa que o economista austríaco Ludwig von Mises (1881-1973) cunhou com precisão cirúrgica a expressão Complexo de Fourier, para identificar essa doença do espírito que assola a humanidade há séculos, cada vez com variantes exponencialmente mais mortais: o ressentimento mascarado de igualitarismo extremo.

Segundo o economista austríaco, o Complexo de Fourier é uma doença aguda que vem se tornando cada vez mais crônica e endêmica. Consiste em desejar, apregoar e até ajudar a promover a pobreza generalizada, no limite da miséria e da desnutrição, desde que se iguale por baixo o bem-estar de todos os integrantes da sociedade. A proposta vai na contramão da racionalidade mais elementar e do próprio instinto de preservação. Por isso Mises a define como uma neurose ou transtorno psíquico desencadeado antes de tudo pela inveja e, em muitos casos, pela misantropia.

Se querem um monumento, insisto, basta olhar em volta: é estratosférico o número de pessoas que odeiam ou invejam tanto o próximo, por ele estar em “circunstâncias mais favoráveis”, que chegam a suportar grandes perdas e danos desde que o próximo também saia perdendo. Para estes, cujo nome é Legião, “igualdade” é sempre igualitarismo – na mesma estirpe viral de ecologismo, naturalismo, nacionalismo e outros ismos vendidos como remédios para os males humanos e sociais.

Eu mesmo testemunhei uma dessas infestações. Vinte anos atrás, num domingo luminoso, estava eu com duas amigas na fila da bilheteria de um museu carioca. Por razões que desconheço ou de que já não me lembro (sei que, na época, ainda não era um idoso), ganhei um desconto substancial no ingresso. Foi o bastante para que minhas “amigas” reagissem indignadas por não terem recebido a mesma dedução. Pior: a conversa logo ultrapassou as fronteiras da sanidade, quando as duas admitiram que não faziam questão do desconto, mas exigiam que eu também pagasse o preço integral!

Naquele tempo, eu era ainda um desconhecedor feliz do Mal de Fourier. Da mesma forma, ignorava o termo alemão que dá nome a um sintoma gravíssimo da doença identificada por Mises: Schadenfreude (literalmente, alegria diante do dano do outro), que define justamente o sentimento de satisfação ou alegria pelo infortúnio, sofrimento ou prejuízo de alguém. Enfim, se querem um monumento, basta olhar em volta, mas desde que com atenção suficiente para identificar essa doença perversa que, em português, francês ou alemão, atende pelo nome de igualitarismo.


Desfrutem do momento, evitem qualquer associação de matrimônio ou de interesse que não satisfaça suas paixões no mesmo instante

— Charles Fourier, o ressentido

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