O discurso proferido por Sérgio Moro na manhã de hoje (24/04) prova tanto a sua força de caráter, quanto ase suas conhecidas convicções de que a autonomia das Instituições é o pilar da saúde política de um estado. Mas já virou pretexto para narrativas de toda espécie. Uns o usam para atacar o presidente e o governo. Outros o distorcem para cobrir Moro de qualquer culpa pelo episódio.

Na prática, a saída de Moro é mais um sinal das fraquezas visíveis do governo Bolsonaro. O presidente é humano e erra. Só fanáticos idiotizados pelo total desconhecimento da dificuldade inerente à política hesitam em admiti-lo. Na prática, falar dessas fraquezas não é nenhuma drama. Qualquer infeliz que sentasse na cadeira presidencial de uma máquina de estado completamente aparelhada erraria bem mais. Aquilo ali é uma caravela de leme enferrujado, com dirigibilidade zero, jogada ao alto mar em meio a um furacão tropical.

Contudo, como quase toda a imprensa passa dia e noite inventando mazelas que não existem com o propósito de desdourar a reputação do presidente, parte significativa de sua base de apoio desenvolveu o péssimo hábito de sair em sua defesa a todo custo, sem preservar o senso de proporções para julgar os erros relevantes, portanto dignos de reflexão, dos irrelevantes, portanto indignos de discussão.

A pressão sobre Sérgio Moro para acatar nomeações políticas a cargos estratégicos no Ministério de Justiça e segurança pública foi um erro relevante. Já apareceram puxa-sacos de plantão para qualificar de “lamentável” a maneira como Moro anunciou sua intenção de sair. Lamentável é a pressa com que um inexperiente deputado saiu afirmando bobagem, uma vez que o envolvido no problema, o próprio Moro, informou que a pressão começou no segundo semestre do ano passado.

Outro erro relevante do governo Bolsonaro é o excesso de influência de militares sobre áreas de que não entendem bulhufas. Não perderei tempo explicando por que razão é estúpido louvar os militares só por serem militares. Entendem muito de infra-estrutura. Sabem tapar buracos de rodovias nacionais como ninguém. Mas política é mais do que isso. E falta literatura a todos eles para que tenham condição de começar a entender de política.

Sérgio Moro, além de ter mostrado competência exemplar no combate ao crime organizado, tinha um papel simbólico no governo. É um conservador legítimo? Não. Está mais para tecnocrata. Mas no imaginário popular, Moro é a “reserva moral da nação”, como descreveu com maestria o jornalista Alborghetti. E a sensibilidade ao imaginário popular é um elemento vital da política.

Em algum momento do ano passado, quando esta Revista Esmeril estava em fase de concepção e eu tinha meia dúzia de inscritos num canal do YouTube, vibrei com um vídeo em que Olavo de Carvalho debochava abertamente da falta de trato literário dos militares. Essa imaginação pouco desenvolvida seria umas das razões pelas quais eles sempre pecaram ao se meter com política. Endossei o juízo com muita convicção. Ainda o endosso.

Ao não considerar plenamente o significado de Moro no imaginário popular, Bolsonaro revelou esta falha de formação comum entre militares – sobretudo da velha geração.

Outra fraqueza soma-se a esta: ao passar por cima da carta branca estendida a Moro quando o convidou para assumir o Ministério, o presidente não pesou um segundo significado vinculado à pessoa de Moro como integrante do governo. A soma de forças não necessariamente unívocas.

Era sabido que Moro nutria simpatias pelo discurso desarmamentista. Era sabido que Moro não encarna, como Ernesto Araújo e Abraham Weintraub, temperamento político conservador. Mesmo assim, o símbolo da moralidade no imaginário nacional teve espaço e carta branca no governo Bolsonaro. Foi um gesto nobre do presidente. Não para com o próprio Moro, mas com relação ao povo.

Os brasileiros, sem ter noções políticas claras na cabeça, confiavam em Moro por sua atuação na lava-jato. O convite a Moro foi praticamente um presente ao povo, ideologias e simpatias políticas à parte. Ao convidar Sérgio Moro para integrar o governo, Bolsonaro mostrou que era possível abranger sob um compromisso comum (o bem da nação) pessoas de mentalidades distintas, mas plenamente capazes de convergências importantes.

Votei NÃO no referendo de 2005. Não acredito que a criminalidade possa ser vencida até que a população tenha direito a possuir e portar suas próprias armas. Não acredito em liberdade política numa sociedade desarmada. Ainda assim, sou capaz de admirar Sérgio Moro. Dane-se o que ele não tenha comigo em comum, quanto às múltiplas soluções possíveis aos problemas políticos. Importa mais o belo e eficaz trabalho que realiza dentro dos limites de suas convicções.

O cara é importante, simbolicamente importante, e sua saída desdoura sim o brilho da equipe ministerial. Daqui a pouco, Bolsonaro fará uma coletiva de imprensa sobre o problema. Muitos sonham que ele peça desculpas e prometa em público interroper a pressão quanto às nomeações na polícia federal. Se ele o fará ou não, é imprevisível.

É mentira que Moro já está em campanha, apesar da sósia da Piggy ter soltado cedo sua diarreia verbal costumeira, motivada por hábitos de sanguessuga. Moro estava francamente abatido durante a coletiva desta manhã. Tem razão em dizer que descobrir a exoneração de seu braço direito pelo diário oficial foi algo ofensivo.

Mais ofensivo que isso será testemunhar a politização grotesca que se fará do episódio, a depender de como se pronuncia o presidente.

Outro dia, ouvi de um senhor idôneo, comprovadamente idôneo, que Jair Bolsonaro afastava bons conselheiros e tendia a manter próximos os apoiadores submissos. Se de fato o presidente seguir nessa linha, corre o risco de abandonar o excelente projeto desenhado pela aliança liberal-conservadora para render-se à notória inabilidade política do corporativismo militar.

Não direi aqui “que Deus o ilumine”. Política é coisa humana, como provam os (maus) papas que trocam o templo pelo tempo. Espero apenas que a política não suma do governo, como ocorreu nas duas décadas de regime militar, varrendo a direita do mapa.

Se Bolsonaro trocar as dificuldades inerentes à política por qualquer outra fórmula, a legitimidade da direita no poder pode ficar comprometida. Deixo aos puxa-sacos de plantão arrumar motivos para justificar erros injustificáveis, torcendo cá comigo para que a dupla Paulo Guedes e Ernesto Araújo mantenham, ainda que via respiradores, a aliança liberal-conservadora no poder.

fim
Revista Esmeril - 2020 - Todos os Direitos Reservados

4 Comments

  1. A questão é se Bolsonaro entrou mesmo em acordo com o Centrão (via Bob Jeff) ou não, e assim sendo se Moro ou Guedes seriam rifados isto ficou claro desde a maldita PL Mansueto que de tão desvirtuada iria abrir as burras do Governo Federal aos Governadores e Prefeitos para continuarem o que começaram com esta malfadada “quarentena”.
    O Presidente se pôs entre a Cruz e a Espada, Governabilidade e a Moralidade de suas convicções em mudar a política do Brasil, infelizmente o que vi foi um acordo, se isto foi errado, economicamente falando não, mas totalmente imoral diante do que se propôs a fazer como tema de campanha que o elegeu.
    A saída de Moro foi totalmente torta de ambos os lados desta história e narrativas serão contextualizadas a gosto, o fato é que a democracia claramente mostra o quanto está falida e precisa ser revista ou finda, mas para isto a população precisa sair deste marasmo de preguiça de ter opiniões sem nem ao menos pensar sobre o assunto, sem nem ao menos vislumbrar o quadro, e ainda assim apontar os dedos mesmo sem saberem para onde.
    O maior erro é o brasileiro ignorar suas responsabilidades por seus desígnios e terceirizar isto a políticos salvadores da pátria, até que isto efetivamente mude sempre teremos Mitos contra Heróis do imaginário se digladiando e políticos inescrupulosos sambando e se fartando sobre estas desgraças incólumes.

  2. Cara Bruna, dessa vez não posso concordar com suas posições, e vou mostrar porque.
    E usarei seu próprio argumento para mostrar isso: “Não acredito que a criminalidade possa ser vencida até que a população tenha direito a possuir e portar suas próprias armas”
    Nós estamos em um estado criminal, e não é possível que a criminalidade INSTITUCIONAL seja vencida sem o uso de armas, forças armadas. E bem sabemos que hoje só nos sobra as forças armadas, até porque nossas armas já forma subtraidas, sequestradas pelo estado totalitário criminal com monopólio de violencia com prerrogativa!

    O “gesto nobre” do presidente de colocar o moro foi POLÍTICA APENAS! Ele sabia que o cara era de outra linha, vide a Szabó escolhida. Realmente o moro foi uma espécie de presente para o povo, e esse se mostrou supinamente troiano desde o início, mas o Bolsonaro deixou até para ver se a perspicácia do povo seria o suficiente para garantir o “fora moro” e não foi!
    Dissociar militares da política é insano, até porque para que haja um país é fundamental que o povo, através de sua força armada se imponha territorialmente! Logo, o país só existe se existe a política primaria, o clássico, “veni, vidi, vici”, e claro, só existe o estado porque o povo junto às forças armadas delegaram, outrogaram poderes para que alguns representassem a vontade popular. Logo, só existe política onde a vontade popular é respeitada! Quando a vontade popular não é respeitada temos é sequestro do estado de direito, é usurpação do poder do povo e suas forças armadas!
    E aí, se o estado usurpador já sequestrou todos os recursos do povo, ele está aparelhado inclusive para impor leis sobretudo escolares para catequisar lobotomicamente o povo, e nesse momento ele diz que o que faz é política e quem discorda é “intervencionista”, “criminoso atentando contra a segurança nacional”, sendo que a questão nacional já se fez supranacional lá atrás!

    A política só pode existir onde existe equilíbrio de forças, quando uma das forças se sobrepóe, já não é política, não é dialógo, é dominação, doutrinação e opressão!
    E em uma situação onde todos foram sequestrados em seus direitos de defesa (não vou adentrar a agenda celerada da malta de governadores e prefeitos, para mim pena de morte sob tortura diuturna para todos esses é POUCO), achar que existe política é frágil, ingênuo até.

    A simbologia do moro existe ou existiu apenas para quem não se atem às peripécias mostradas pela LOMAM e segundo ouvi dizer, ele tem formação em direito fora do brasil, só isso já é capcioso, algo obscuro…

    Quem conhece o judiciário SABE que ali não nasce algo que preste NUNCA, e olha que tenho amigos de infancia que são juizes, um deles, inclusive diz que eu fui o exemplo de homem que ele se espelhou, dizia que minha postura o ensinou a ser o que era, e hoje depois de minhas opiniões sobre a carreira que ele abraçou, ele prefere que eu nem exista! E mais, uma vez chegou a dizer que o poder que a toga traduz é algo fora da curva!
    Parece que jogou tudo o que ensinei a ele pela janela para ter o poder que sonhava!
    Justos nem em sonho se alinham com o judiciário!

    Vale estudar sobre essa curriola desde a monarquia para entender o que são esses oligarcas. Entendendo isso, nem em sonho achamos que um juiz presta sob qualquer pretexto!

    Só para ilustrar, um famoso inventor brasileiro, uma vez conversando sobre as criminalidades do INPI pedi a ele um conselho de como escolher um advogado (o dele era o Gandra Martins, o pai) e ele me disse: o melhor advogado é aquele que tem ótima relação com os juizes!
    Acho que isso ilustra bem o que são juizes!

    Assim, independente de quem é moro, ele representa um poder criminal, pois é juiz. Acreditar que ele prendeu o lula é mérito também não bate, pois se não prendesse o barril de pólvora estourava e aí, acabaria as regalias dessa curriola que nunca perde direitos e SEMPRE LEGISLA e JULGA seus próprios benefícios!
    Não basta ser a esposa de César, tem que agir como esposa de César!

    Eu vivi o tempo dos militares e posso afirmar que o caos se instalou graças a curriola do ulisses guimarães, o tio do aecio, o brizola, e toda sorte de lixo que se aboletou na “abertura política”.
    O único erro real das forças armadas é GRAVÍSSIMO, foi a permissão da rede globo de televisão (grupo time life), que não por mera coincidência nasceu exatos um ano após a tomada do poder pelos militares, em abril de 65, alí ficou patente que os milicos eram de viez comuna!

    Ou seja, não tenho como isentar as forças armadas, mas tampouco posso criminalizar a arma pelo crime, pois armas nada fazem se não houver um dedo no gatilho!
    Hoje todos são unânimes em criticar os militares, e isso foi incitação global, sempre existiu de forma subliminar uma incitação midiática contra as forças armadas, e elas ficaram no poder EXATAMENTE por isso, a comanada bandida sempre soube que enquanto o povo fosse defensor das forças armadas o comunismo não emplacaria (isso aconteceu nos EUA com a guerra do Vietnã), assim, emplacaram generais tenentistas (revoluções contra caudilhos gauchos resumem bem essa questão) de forma a sabotar o entendimento do militarismo.
    E a prova mais cabal é que o general que tomou o poder foi assassinado a lá juiz que caiu de avião na baia de angra em Paratí!
    A militaria nasceu da política primeva, a formação do país.
    Dizer que militares não entendem de política é inconsistente, eles entendem, só que sob a ótica de PAÍS e não estado!
    Aí, sim, eu diria que militares não entendem pn de política estatal, mas são a essência da politica de nação, país!

    A política tem duas vertentes, uma é desconsiderada para emplacar os criminosos de estado, e a outra glamourizada, até por gregos atenienses, afinal eles sempre souberam que se esparta emplacasse, o que não ia faltar era filósofo tendo que tomar cicuta de canudinho!
    Uma vertente é a política de estado, que é a que fala, a outra é a política visceral, aquela que se impõe pela meritocracia, a força, a inteligencia, a estratégia e bravura, e essa é a política das forças armadas. Só reivindica a política de estado o covarde, pois ela desconsidera a qualidade intrinseca e venera a sinergia criminal dos medíocres.
    Ou alguém acha que se tivesse que ganhar posição na base da força e inteligência (crer que manipuladores são inteligentes é desconsiderar que a manipulação só emplaca onde só existem retardados mentais ou deficitários intelectuais, em situação diferente, o manipulador morre, pois ninguém gosta de ser feito de otário) em vez de manipulação o nhonho ou o batoré, ou a imensa maioria dos políticos de carteirinha iriam estar na liderança!

    É isso, chegamos a uma situação sem retorno, não é possivel mudar o jogo quando todas as cartas são marcadas, a banca é do adversário e só temos um jogador honesto na mesa, nessa situação ganha aquele que saca mais rápido, e sempre nos filmes aparece o mocinho sendo o cara, e o mocinho na vida real é o Bolsonaro.
    Play the dices!

    “Alea jacta est”!

    E que o pilo (lança) o crupiê use para empalar ou a banca vai quebrar!

  3. Bruna, tenho lhe acompanhado desde que prof Olavo lhe recomendou, pois me ajuda bem. Gostaria de lhe ouvir escrever ou falar sobre o título desse seu artigo acima, porém com a mudança de uma palavra. A sugestão é: “Saída de Moro sinaliza forças do Governo Bolsonaro?”
    Seria bem interessante. Você acha?

    • Honestamente, aco que Moro cometeu um suicídio político sem precedentes. E já é sabido que Bolsonaro o queria fora. Mas não foi bom o espetáculo, e me parece mesmo que o método de “fazer sair” se revelou, no caso de Moro, uma fraqueza. Não necessariamente pelo reusltado, pois ninguém é insubstituível. Mas pelo desgaste. De toda forma, o tempo dirá se Moro foi um pateta ou um canalha. Já o presidente pressionou a figura errada: Moro é ególatra demais e não teve a grandeza de sair sem arranhar a imagem do governo. Lamentável.

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