Se os gestos práticos do Supremo Tribunal Federal com relação ao Executivo mimetizam o comportamento usual de uma bancada da oposição, parece que o decano Celso de Mello decidiu compensá-los agindo, sem querer, como bancada de apoio.

O vídeo da reunião que, segundo o ex-ministro Sérgio Moro, em tese provaria improbidade por parte do presidente, na prática testemunha o compromisso de Bolsonaro com a agenda liberal-conservadora. Na prática, o vídeo vazado fez a alegria de sua base de apoio e dissipou as nuvens sobre o cenário que levou Moro a romper publicamente com o governo.

Simbolicamente, Moro deixa a sala de reunião antes de seu término e no preciso momento em que Paulo Guedes (único ministro, diz Bolsonaro, com quem nunca teve divergências) defende o andamento contínuo e tranquilo do governo, mesmo que algum ministro acabe fugindo da raia no meio da tormenta. Moro se levanta, pede licença e sai da sala. Os demais ministros ficam.

Essa cena explica, finalmente, tanto o pronunciamento amargo de Bolsonaro no dia seguinte, quanto a presença dos ministros em torno do púlpito.

“Um povo armado jamais será escravizado!”

Bolsonaro se exprime como falamos nós com quem temos a devida intimidade. Ao mesmo tempo, revela na linguagem um cansaço extremo com o boicote sistemático às liberdades individuais do povo por parte de prefeitos como o de Manaus, e governadores como os de SP e RJ, agindo motivados pela disputa de poder, não pelo senso de responsabilidade pública.

Toda a raiva sentida por cada um de nós ao ver o vídeo da senhora algemada em Araraquara pela guarda municipal se converte, na boca do presidente, em uma defesa convicta da facilitação da posse e porte de armas como estratégia de salvaguardar a soberania popular diante de tiranos oportunistas.

“Estão vendo como é fácil implantar uma ditadura no Brasil?”

Bolsonaro condena sem meias palavras a soltura de presidiários pelo STF, a obstrução das liberdades individuais e os atos de barbárie realizados por funcionários a serviço de prefeitos e governadores contra a população. Condena o silêncio do ministro da Justiça diante desses exemplos de abuso de poder, sublinhando que falta a muitos ministros a atitude política digna de um governo altivo.

Destaca-se no vídeo a intervenção de A. Weintraub, segundo o qual os ministros do STF deveriam ser presos, considerando que não desempenham a função original da Instituição, salvaguardar a Constituição, agindo sempre a serviço do jogo político de alas diversas da oposição ao governo.

Paulo Guedes, sistematicamente proativo, repudia a expressão “plano Marschall”, empregada por Braga Neto ao tentar descrever a estratégia criada pela equipe econômica para superar a crise, àquela altura já patente, em virtude dos efeitos da pandemia — tanto sobre a economia nacional, quanto sobre as mais fortes economias estrangeiras.

Bolsonaro se exalta contra o silêncio do então Ministro da Justiça por duas vezes; momentos nos quais repete que o governo deve estar a serviço do povo, se deixar guiar pelo povo e, antes de mais nada, ter experiência prática sobre a penúria de quem não tem privilégio e simplesmente passa fome.

“O povo quer liberdade!”

É ao termo liberdade, reiterado sem dó em suas intervenções na reunião, que recorre para encerrar cada sermão dirigido aos ministros a fim de recordá-los o que estão fazendo ali; qual o significado de seu governo.

A base de apoio demonstrou enorme entusiasmo diante do vídeo, uma gota de esperança diante da tempestade de arbitrariedades paridas a pretexto da pandemia, e agradeceu a Celso de Mello, nas redes sociais, por ter praticamente aberto caminho à reeleição do presidente.

Ao que tudo indica, o desfecho de 2022 tem um prelúdio: temendo a lança inimiga, uma das partes se retira da batalha, deixando o auge da adversidade pesar no colo dos demais — que no final da história, terminam por vencer a guerra.

É um bom prelúdio.

fim
Revista Esmeril - 2020 - Todos os Direitos Reservados

5 Comments

  1. Acabei de conhecer a revista e a escritora, registro que foi uma grata surpresa encontrar luz em meio à escuridão da imprensa. Parabéns!

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