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quinta-feira, 26 maio, 2022

Por que Eternals, novo filme da Marvel, é “chatinho”

Revista Mensal
Aldir Gracindo
Aldir Gracindo é professor, escritor de artigos, palestrante, ativista político, realista esperançoso, nerd orgulhoso, nacionalista e violoncelista amador.

O que deu errado (e certo) com Eternals

No anúncio de Eternals, o público pareceu animado. Só para ver novamente Angelina Jolie (Malévola, Lara Croft) na telona, e em um filme da Marvel, muita gente já queria ir. Mas ainda teria Kit Harington (Game of Thrones, Pompeia), Harry Styles (Dunkirk), Salma Hayek (Um drink no inferno, Balada do pistoleiro), Gemma Chan (Humans), Richard Madden (Bodyguard, Cinderela), Barry Keogan (Dunkirk), Lauren Ridloff (The walking dead), Ma Dong-Seok (Trem para Busan) Kumail Nanjiani (Stuber) e outros.

Seria uma superprodução com atores consagrados (e outros que provavelmente merecem ser) e de diferentes origens, a cineasta de poucos filmes e colecionadora de prêmios Chloé Zhao (Nomadland) e… Bom, o resultado foi um filme chatinho. Eis os motivos que fazem o espectador ter essa sensação de desapontamento:

Desconhecidos e pouco ilustres

Jack Kirby criou a maioria dos herois da Marvel em parceria com Stan Lee, não se sentiu reconhecido, foi para a DC e depois voltou. Os Eternos foram criados por ele numa fase de empolgação com “Eram os Deuses Astronautas?“. São uma adaptação de diferentes histórias (os nephilim da Bíblia, Gilgamesh, Atena etc.) e evitam interferir na vida humana, por isso, são distantes e frios para o público das histórias da Marvel.

Fazer os Eternos aparecerem e o público gostar deles era uma missão difícil para Zhao.

Muitos heróis “novos” e dilemas demais de uma vez

Por serem praticamente desconhecidos, é preciso ter uma jornada, um passado para cada um desses heróis, que dê tempo e motivos para o espectador gostar deles. O filme precisou apresentar todos de uma vez. Como dito: uma missão ingrata. Fatalmente, os Eternos serem todos apresentados em um só filme os faz parecer o rascunho de uma história que poderia ser relevante, mas não teve tempo, nem construção suficiente para ser.

Vídeo promocional apresenta os herois do filme com adjetivos como “independente,” “líder” e dá a impressão de estarmos mesmo em uma era em que adultos precisam se infantilizar mais que nunca para consumir filmes

Cada um dos personagens teve o esboço de seus conflitos e sua jornada pessoal pincelados às pressas

Phastos

Quer transmitir tecnologia aos humanos, se decepciona após a bomba atômica e reencontra sua ligação com a humanidade. Como?

Thena

Sofre de falta de memória, por algum trauma? É uma condição mental degenerativa? A história dela é de superação ou adaptação? Não tivemos tempo para saber.

Ikaris

Passa a vida com um segredo que não compartilha com os outros Eternos. É fiel e subserviente a esse propósito, mas muda inteiramente de posicionamento em segundos. Mesmo tendo uma das histórias mais reveladoras, sua jornada ficou sem sentido, especialmente o fim dela.

Gilgamesh

Decidiu ser cozinheiro. Só isso, sem por que, sem história, sem relações humanas.

Druig

Tem o poder de controlar mentes e vontade de usar isso nos momentos em que a Humanidade comete seus erros gigantescos. Ele aprende que as falhas e erros humanos são parte do que nos torna grandes. Parece um personagem com um conflito pessoal interessante, mas não houve tempo para o conhecermos.

Conflitos e interações

A amizade entre Gilgamesh e Thena pôde ser quase entendida. A relação entre Ikaris e Sersi, quase – mas por que ele a deixou sem querer, exatamente?

O drama de Sprite, visto brevemente. Makkari aparece só para ser a super-velocista, o laço entre ela e Druig não pôde ser explorado. E Ajak? E Kingo, reduzido a um bobo vaidoso de Bollywood (a Hollywood indiana que faz filmes cheios de dancinhas) com um Jarvis/Alfred humano? Até os Deviantes pareceram pedir mais aprofundamento em suas histórias.

Nós mal soubemos as histórias, os conflitos pessoais e entre as personagens, que poderiam envolver o público emocionalmente com tantos herois. Só para comparar, Guardiões da Galáxia teve o mesmo desafio e James Gunn conseguiu se sair melhor na tarefa – mas em mais de um filme.

Lento

Mesmo com tanto a fazer em tão pouco tempo, cenas supérfluas arrastam a trama – como a da refeição e outras – para aumentar a falta de graça e entediar o público.

Sexo para nada

Eternos tem a primeira cena de sexo do MCU (Universo Cinematográfico Marvel). E uma cena sem graça e relevância. Tempo que teria sido melhor aproveitado aprofundando as histórias dos herois.

Beijo gay para nada

Um beijo gay gratuito (à luz de… postes), quando nada se soube do que dá sentido à história dos dois. Alguns militantes certamente acharam importantíssimo, mas para o público em geral, a construção das personagens e os sentimentos que eles nos despertam é o que une a todos e nos leva ao cinema.

Gráficos ruinzinhos

As imagens geradas por computador melhoraram muito nos filmes recentes, especialmente os da Marvel. Thanos (Jeff Brolin) ficou com uma aparência na tela que mal parece ser CGI. Em Eternos, os Deviantes acabaram com um visual relativamente atrasado.

Enfim

É só isso, é um filme chatinho: superficial, falho em apresentar tantos heróis e dilemas morais, descontínuo, tedioso e embaralhado. Nada mais, nada menos. Não é o pior da Marvel. Os U$ 71 milhões de estreia e U$ 161 Mi globais também não são um desempenho dos piores. Apenas poderia ter agradado mais.

A história poderia ser melhor contada em mais de um filme, ou introduzida primeiro em uma minissérie, e a experiência de ver o filme seria mais significativa para quem foi. Isso em um momento que tanto os curtidores de cinema quanto toda a indústria estão a precisar.

A Marvel cultivou um público fiel a duras penas e a Disney agora pode fazer filmes não memoráveis (Viúva negra, Shang Chi) e, se algo der errado, acusar o público de machismo, homofobia ou coisa assim.

Às vezes, quem lacra, lucra. Nós, espectadores, é que mais perdemos em oportunidades de ter arte e entretenimento melhores.

Com informações de The Hollywood Reporter, People, Deadline e Youtube


A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, molda-a aos seus desígnios

— Oscar Wilde

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4 COMENTÁRIOS

  1. Concordo que o filme é ruim mas essas questões foram respondidas sim. Phastos reencontrou a conexão através da família. Thena perde a memória como explicado que eles são como “robos” mandados a planetas e tem suas memórias apagadas, na verdade não é uma amnésia, ela ainda se lembra. Ikaris foi embora pois não saberia esconder o segredo de Sersi de que o planeta era na verdade uma incubadora e seria destruído. Gilgamesh ficou para cuidar de Thena etc, parece que você só assistiu o trailer pra fazer essa análise. O filme é ruim pq não nos permite desenvolver nenhum afeto pelos personagens, pq o desenvolvimento é cansativo e longo mas não tem esses furos na história não.

  2. Mais uma produção, sem sal e sem açúcar, já q n segue a linha da velha guarda q sabia contar histórias nde heróis que é onq o público quer . Some isso ao insesante desejo de querer incluir ideologia algo que já está quase que sendo normal nos filmes de hj, vc terá ao final um filme medíocre.

  3. Sou da época em que os personagens tinham histórias de vida ( início e meio . Alguns o fim ). Sou do tempo dos gibis, tinhamos que LER, e isso tb servia como “prática” de leitura, portanto tb educava. Sou do tempo em que os heróis não tinham “crises existenciais”, mas tinham crises financeiras como o Homem aranha. Não se detinham em salvar o mundo!

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