Em tempos de guerra, alguns agem como se ela não existisse. Enquanto cabos e soldados perdem braços e rompem nervos em campo, os analistas suprahumanos da humanidade observam, impávidos, as infrações éticas em que incorrem as partes em conflito.

Patifes e covardes? Imbuídos da certeza que vigoram tempos de paz, alguns encarnam o sábio austero que percorre trincheiras fundas com sua “Ética à Nicômaco” à tiracolo. Curiosamente dissociados da paisagem real, analisam comportamentos num cenário hipotético de respeitabilidade recíproca.

Toda guerra implica em suspensão da moralidade. Combater o adversário cujo objetivo é nos eliminar exige estar pronto a esmagá-lo primeiro. O nome é legítima defesa. Foi nesse espírito que o militante Verdevaldo levou uns tabefes do jornalista Augusto Nunes. Toda a infantaria, exausta de tomar na cabeça por todos os lados nas últimas duas décadas, comemorou. O gesto, irracional ou refletido, deu margem a um alívio catártico.

Eis que surge o isentão para repudiar que inadequado é um jornalista invocar tapas contra termos. Na prática, o tapa levantou-se contra tiros de canhão travestidos em palavras. Sem enxergar os canhões (como se palavras não fossem trombetas de guerra), o analista moral do comportamento humano em tempos de paz suspende o juízo.

O isentão não gosta que o chamem de covarde. Será o vício da covardia que desperta as reprimendas que dirige aos atrozes? Ou a estranha certeza de que não estamos em guerra?

Indignadas com tamanha insensibilidade a braços quebrados e nervos torcidos, as tropas que dia-após-dia combatem incessantes se voltam, furiosas, contra este tipo mais ingrato de civil: o que nem se alista; nem se recolhe até a paz ser reestabelecida.

Sempre dissociado da guerra em curso, o isentão credita a esta fúria uma sincera recusa à discordância filosófica, “aspecto salutar do debate intelectual.”

“A gente ainda vai salvar esse país enquanto eles fazem cara de nojinho,” dizem consigo os soldados.

Sonhando campos elíseos, os isentões caminham, orgulhosos de seus bons modos, a passos largos e seguros através de campos minados.

De repente pisam em falso, perdem as pernas na armadilha plantada pelo exército subversivo que ataca o ordem geral, notam que há algo de errado no mundo, servem o chá e discorrem severos:

GOVERNO INCAPAZ! COMO ADMITE TAMANHA VIOLÊNCIA?


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