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segunda-feira, 20 setembro, 2021

O Tombo de Karol Conká – Últimos momentos de um símbolo

Revista Mensal
Roberto Lacerda
Roberto Lacerda Barricelli é jornalista, assessor e historiador. Foi correspondente do Epoch Times e colaborador em diversos jornais, como Jornal da Cidade Online, O Fluminense, São Carlos Dia e Noite, Diário da Manhã, Folha de Angatuba e Jornal da Costa Norte.

“É Karol com K”, assim se apresentava aos demais Karoline dos Santos Oliveira, por incentivo de seu pai, um trabalhador que morava com a família no bairro de Boqueirão, na periferia de Curitiba, Paraná. Sua esposa escrevia alguns versos. A soma de ambos influenciaria sua filha a escolher a carreira musical e o nome “artístico” de Karol Conká, segundo a própria rapper e ex-apresentadora da GNT. 

Ainda na adolescência, participava de grupos de dança – principalmente danças supostamente de origem negra – e de um concurso de dança contemporânea. Em entrevista a Universa, do portal UOL, afirma que aos 15 anos decidiu querer ter relações sexuais, comunicando isso à sua mãe, que quatro anos depois diria “Mas você não sabe tudo?”, ao descobrir a gravidez da filha, então aos 19 anos, e que seria apresentadora de um programa voltado ao público adolescente, principalmente feminino, no qual não se furtaria a falar e incentivar o sexo. Afinal, quem teve só quatro namorados, tendo iniciado prematuramente a vida sexual, após sérias reflexões adolescentes aos 15 anos, terá muito a dizer aos jovens e imaturos telespectadores. 

Segundo o Gshow, da Globo, nos bastidores do programa “Encontro”, teria falado largamente sobre sua relação com seu filho, hoje com 15 anos de idade; e só falaria em off para não expor a criança, algo que sempre evitaria, apesar das outras entrevistas (como da Universa) e publicação de foto em rede social. Essa proteção e discrição talvez sejam o motivo pelo qual nada se sabe sobre o pai do menino, além de que foi um de seus quatro namorados e partiu dela a decisão de não seguir o relacionamento. 

Segundo Conká, melhor ser mãe solteira por opção; apesar de toda a pressão psicológica que teria sofrido pela entidade a qual designa sociedade, ao ver o núcleo de família tradicional (pai, mãe e filhos) por todos os lados, lhe sufocando e tentando (não se sabe ao certo como) se impor a ela. Justificou sua escolha afirmando não ter “tempo para babaca” e preferir ser mãe solteira, ao seguir o modelo da periferia, tendo cinco filhos e ser casada com um bêbado pançudo que lhe trairia — modelo esse distante daquele que vivenciou dentro da própria casa, na periferia. Tem medo de repetir um ciclo que não experimentou no núcleo familiar, preferindo iniciar o próprio ciclo. 

Maternidade 

Tendo se separado por opção, e não fazendo qualquer exposição ou acusação ao pai – desconhecido do público, para preservação de seu filho adolescente, com acesso a internet e espaço na mídia -, afirma ter passado por um período de depressão, dois anos após o nascimento do menino. 

Criou seu filho com o máximo de atenção possível a uma artista ainda não descoberta, até aos cinco anos de idade, e retomou verdadeiramente a carreira em 2011. 

Retorno e Ideologia

Esse período obscuro de sua vida talvez tenha ajudado a fixar sua ideologia, pois retorna com o discurso agressivo em nome do movimento feminista, principalmente de sua ala supremacista negra. 

Também demonstra ser dona de invejável memória, pois conta à Revista TPM que sofreu racismo dos professores ainda na creche. Eventos marcantes que se fixaram na memória de uma menininha ainda na primeira infância, quando não sabemos sequer andar e falar direito. Sua memória faria inveja aos intelectuais de conhecimento enciclopédico, como Otto Maria Carpeaux e João Camilo de Oliveira Torres. Ah, se nossos historiadores, jornalistas, professores, doutores, artistas, enfim, nossa intelligentsia, tivessem essa memória privilegiada; não estaríamos carentes de Machados e Lobatos, nem de Villa-Lobos e Jobins, afinal, sem memória, sem conhecimento, logo, sem o que nos socorrer no exercício da criação.  Ah, Karol Conká, que uso fizeste de sua esplêndida memória?

Na mesma entrevista, afirma que sabia desde pequena sobre sua bissexualidade. Nem Darwin explicaria tamanha evolução: memória invejável, intelecto maduro desde criança para conhecer o mundo e tomar decisões tão importantes, como quando iniciar a vida sexual e sobre sua própria sexualidade! Como disse a mãe de tal prodígio, “sabe tudo, né?”. 

Ainda quanto às suas entrevistas, disse não acreditar na monogamia, nem que encontrará um grande amor, enquanto afirmou ter sido obcecada pelo seu último namorado. Mas, os homens teriam medo dela, por ser “uma mulher de atitude e independente”, segundo suas palavras.

Finalmente, em 2015, explodiu artisticamente, ganhando até o exterior. Mas foi em 2019 que lançou seu grande sucesso: Tombei. Música que finalmente lhe trouxe fama, após ser composta e produzida pela Sra. Independência junto aos DJs André Laudz e Zé Gonçalves, do projeto Tropkillaz, especialistas em música eletrônica. 

Perseguição e assédio profissional

Essa parceria de sucesso ocorreu um ano após o rompimento com sua então empresária, Drica Lara, que recentemente chamou a Rapper de “mau caráter”. Segundo a empresária:

“Foram anos de perseguição, nesse tom que vocês estão vendo! Fui aniquilada profissionalmente, difamada e chamada em rede nacional de incompetente e racista! Pensa, na minha área, música, no gênero rap, a maior representante falando para todos que oportunidade as histórias distorcidas que ela mesma criava”. 

A criativa Conká teria tentado destruir a carreira de Drica, especialista no setor musical do Rap, que passaria por depressão, mas conseguiria sobreviver e se reerguer com apoio do marido, da família e de três profissionais do seu meio. 

Quanto ao “nesse tom que vocês estão vendo”, a empresária se refere a participação da rapper no programa Orwelliano da Rede Globo, o Big Brother Brasil (BBB). 

E no BBB…

Se George Orwell vivesse, provavelmente arregalaria os olhos ao ser informado sobre um programa de televisão que recria partes fundamentais do tema de sua obra ‘1984’. Um ambiente controlado, onde pessoas são confinadas por meses, tendo que seguir regras determinadas pela Central da direção do programa, enquanto são filmadas 24h. 

Esse ambiente artificialmente criado permite experimentos diversos, principalmente mensurar as reações dos telespectadores quanto a determinadas pautas. Basta inserir algumas entre os atores, para que tenham esta ou aquela atitude, e verificar as reações do público nas redes sociais e pelas votações de eliminação. É uma excelente tática para obter valiosas informações aptas a ser utilizadas para propaganda de produtos, marcas e “idéias”

Mas quando se perde a mão e o ambiente sai do controle? Quando o experimento se confunde com a propaganda? Talvez inviabilize a venda do produto, ou dos conceitos previamente desejados. 

Karol Conká, com seu lindo histórico de discursos anti-racistas, contra todo o preconceito – exceto o preconceito contra possuir preconceitos – etc, pode se tornar a eliminada com maior rejeição da história do programa, por atitudes acusadas de racistas e intolerantes. 

A rapper do movimento feminista negro é acusada de humilhar um jovem, negro e bissexual, ao ponto de o expulsar do mesmo recinto por suposto “mau hálito”. 

Enquanto fora dali foi considerada quase ícone do combate ao assédio, a garota de atitude tentou masturbar outro participante, enquanto ele dormia. E se fosse o contrário? A apresentadora Fátima Bernardes também defenderia o pobre rapaz, branco e oprimido? Um rapaz que acabou beijando a rapper, após muita insistência dessa mulher independente, muita bebida e inúmeros “nãos” – rejeitado pela defensora ferrenha do “não, é não!” -, seria justificado? Essa mulher de atitude lhe faria manter distância, com tais atitudes, caro leitor? São perguntas que pairam no imaginário popular, neste momento.

O rapaz que Karol Conká expulsou do quarto, após muita pressão psicológica, pediu para sair do programa e recebeu mensagens de apoio de diversos famosos, que iniciaram campanha contra a rapper.

Um rapaz jovem, negro, artista e bissexual, igual a Karol Conká, mas que não teria suportado a humilhação por parte da rapper, defensora dos negros e do feminismo. Seria um entrechoque ou conflito dessas agendas? Lucas é negro, mas é homem. E agora? 

Cancelando o cancelamento e uma canceladora?

As atitudes de Conká parecem assustar também o público, inclusive (ex)fãs, influenciando no cancelamento de contratos de patrocínio, apresentações e até uma página de (ex) fã-clube. 

Contra a rapper feminista, do movimento negro, que precisou superar uma depressão, bissexual assumida e que declarou ao O Globo que “Preconceito machuca”, pesam acusações de racismo, intolerância religiosa, xenofobia, assédio sexual, violência psicológica e homofobia.

Karol Conká realmente se revelou alguém que quebra tabus – recordista em tal matéria -, ainda que dessa atitude não advenha qualquer ganho à sociedade. Ah, Dalrymple, por que não te calaste? Por que nos ensinar a enxergar aquilo que agride o emocional de tantos pobres demônios? 

Conká, que diversas vezes em suas entrevistas contou momentos nos quais teria sofrido racismo, além das acusações de Drica Lara, também foi flagrada inventando estórias sobre outra participante do programa; atitude igual a relatada por Drica. 

A brother também deve perder seu programa na GNT, intitulado “Prazer Feminino”, que estreou em Outubro de 2020 no canal de Youtube, mas iria ao ar na televisão este ano. Segundo a GNT, o adiamento da estreia ocorreu para evitar o cancelamento, dado o momento conturbado. Cancelando para evitar o cancelamento da apresentadora canceladora.

Perdas e mais perdas

O saldão Conká está ao final da liquidação; igual a quando se aventurou pelo mercado de roupas de gênero neutro – muito caras, logo, acessíveis só a elite burguesa, que compra para se auto-congratular pela tolerância e falsa preocupação com os oprimidos. 

São 23 boletins de ocorrência abertos contra Karol Conká, segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro. E mais:

  • Cancelamento de contratos com a AVON e GNT;
  • Campanha de cancelamento feita por famosos;
  • Perda de milhares de seguidores e de um fã-clube;
  • Cancelamento de dois shows;
  • Provável maior rejeição numa votação de eliminação da história do BBB;
  • Cancelamento de sua participação num Festival. 

Para alguém que dedicou a carreira à desconstrução, conseguiu desconstruir suas ideologias e a si própria, e mesmo fugindo ao comportamento de princesa, parece que logo mais poderemos começar sua história futura com “Era uma vez…”


Artigo escrito com informações do DCM, Universa, IstoÉ, IG, Gshow, O Globo, Metrópoles, Portal UOL, JC Online, Purepeople, Máxima, Exame, O Povo, Revista Quem, Portal Popline, SBT e O Estado de Minas. (Links no corpo do artigo).

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