Pesquisadora, cientista, virologistas, instituições internacionais e especialistas das Universidades de Harvard e Javeriana expõem ações inúteis no que chamam “Teatro da Pandemia”. 

Nesta quarta-feira (24), em reportagem para o jornal El País, Javier Salas trouxe informações de diversos especialistas e de instituições internacionais especializadas, sobre ações de governos que consideram inúteis e até teatrais. 

Salas nos traz inicialmente o termo “Teatro da Pandemia”, criado pela pesquisadora Zeynep Tufekci para criticar ações inúteis e mesmo contraproducentes de governos, no suposto combate a Covid-19, como fechar parques. 

Essa reportagem traz correções sobre informações errôneas que constam no artigo de Manuel Ansede, para o mesmo El País, em 20 de março de 2020. Salas deixa claro que naquela época ainda se estava no início dos estudos e pesquisas para recolhimento e entendimento de evidências sobre o novo coronavírus; em nosso bom português: era tudo muito novo e equívocos poderiam realmente ocorrer. 

Transmissão por Superfícies Poluídas

Eu deixei de ver evidências convincentes faz muito tempo, e deixei de fazer isso

– Margarita Del Val, virologista e diretora da plataforma da agência científica espanhola CSIC para a Covid-19.

A citação destacada é da virologista Margarita Del Val, também diretora da plataforma da agência científica espanhola CSIC para a Covid-19. Del Val se refere a ações como limpar os sacos das compras, os sapatos e até as roupas, ao retornar da rua, na intenção de se prevenir do contágio pelo novo coronavírus. 

Segundo evidências científicas coletadas por especialistas e instituições, o contágio através de superfícies poluídas (fômites) não é comum; as possibilidades disso ocorrer são bem escassas. 

Segundo o Centro Europeu de Controle de Doenças (ECDC, na sigla em língua inglesa), informa que considera a possibilidade, porém, não possui evidências de que o contágio via fômites tenha ocorrido.

Considera-se possível ―embora até o momento não tenha sido documentada― a transmissão através de fômites.

– ECDC

Já o equivalente americano, os CDCs, são mais taxativos e informam que “não se acredita que a propagação através do contato com superfícies poluídas seja uma forma comum de propagação da covid-19”.

Uma publicação da revista científica Nature, mencionada na reportagem ao El Pais, concluiu que não há comprovação científica de que alguma pessoa tenha se contaminado através de fômites. 

Depois de um ano de pandemia, as provas atualmente são claras. O coronavírus SARS-CoV-2 se transmite predominantemente através do ar, por pessoas que falam e exalam gotas grandes e pequenas partículas chamadas aerossóis.

– Nature, Editorial de 02 de fevereiro de 2021.

Transmissão aérea da Sars-Cov-2

Carta de especialistas, organizada e publicada em 05 de outubro de 2020 na Science Daily pela cientista americana Kimberly Prather, especialista em química atmosférica e professora do departamento de química e bioquímica da Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA), informava sobre a transmissão aérea da Sars-Cov-2. 

Há evidências esmagadoras de que a inalação de SARS-CoV-2 representa uma importante via de transmissão para a Covid-19

Portanto, é muito mais provável inalar aerossóis do que uma gota, por isso, a atenção deve estar focada na proteção contra a transmissão aérea

– Cientistas liderados por Kimberly Prather à Science, 05 de outubro de 2020. 

Esses trechos são citados por Javier Salas em outro artigo, de 05 de outubro de 2020. A mensagem da carta seria reforçada em outro artigo, para a revista Science, também assinado por Prather, em 16 de outubro de 2020. A cientista e química também avisou sobre o contágio através do ar em 26 de junho de 2020, também na revista Science, em artigo assinado junto com Chia C. Wang e Robert T. Schooley. 

A Dra. Chía C Wang é uma especialista  em doenças infecciosas de Seattle, Washington (EUA), e associada a hospitais da região. O Dr. Robert T. Schooley é um especialista americano em doenças infecciosas, vice-presidente de assuntos acadêmicos, diretor sênior de iniciativas internacionais e co-diretor do Center for Innovative Phage Applications and Therapeutics, da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA). 

Desinfetar paredes e produtos

Lavar as mãos com água e sabão e utilizar o álcool em gel continuam como maneiras sábias de se prevenir do novo coronavírus, porém, pulverizar bancos, ônibus e paredes, ou se esforçar para “desinfetar” sapatos e produtos do supermercado são ações irrelevantes, pois não há evidências de contágio, que se dá primordialmente por gotículas expelidas por pessoas contaminadas ao tossirem, falarem e espirrarem, assim como pelo contato direto com essas pessoas que estejam com essa gotículas em suas mãos, por exemplo. Por isso, outra recomendação é que não espirremos nas mãos, mas usando os cotovelos para tapar o nariz e se possível a boca. 

Segundo os especialistas apurados pela reportagem, locais abertos como parques, ao ar livre, são muito mais seguros do que locais fechados. 

Quanto aos sapatos, Salas afirma que a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que a possibilidade de contaminação é “muito baixa”, assim como por sacolas. O mesmo foi dito por especialistas à CNN, em 14 de fevereiro de 2021.

Medir temperatura

As pistolas para medição de temperatura também parecem não fazerem muito sentido para a OMS, segundo Salas. E o mesmo afirmam os especialistas consultados pela CNN. 

Há muitas pessoas que mesmo contaminadas não apresentam febre, porém, podem contagiar outras pessoas. Estar ou não febril não é uma característica que permita detectar alguém com Covid-19, segundo a virologista María Fernanda Gutiérrez, da Universidade Javeriana de Bogotá, na Colômbia, e Elvis García, sanitarista da Universidade Harvard. 

Transporte público

A transmissão no transporte público foi estudada pela cientista Teresa Moreno, do IDAEA (Instituto de Avaliação Ambiental e Pesquisa Hídrica, na sigla em inglês, um órgão do CSIC espanhol). Seu estudo ocorreu em Barcelona, recolhendo amostras em barras e botões do metrô e ônibus da cidade catalã, além de amostras do ar (sua especialidade), numa época na qual as pessoas ainda não usavam máscaras. 

A pesquisa encontrou fragmentos do novo coronavírus nessas superfícies, mas sem capacidade de contágio, enquanto no ar traços em níveis muito baixos. 

Não encontramos estudos sobre a influência da quantidade de usuários no nível de traços; por exemplo, o metrô de Barcelona possui o dobro de linhas e a metade dos habitantes do município de São Paulo, enquanto o metrô de São Paulo chega a atender 4 milhões de usuários/dia, quase 70% da quantidade de habitantes de Barcelona. 

Produtos químicos são mais prejudiciais?

A OMS se opôs à utilização de sprays para soltar produtos químicos no ar, que supostamente combateriam a Pandemia.

A pulverização [também denominada fumigação] de desinfetantes ao ar livre ou em grandes superfícies interiores (auditórios, salas de aula e edifícios), assim como o uso de radiação de luz ultravioleta, não é recomendada para a população devido à falta de eficácia, possíveis danos ambientais e a possível exposição dos seres humanos a produtos químicos irritantes.

– Comunicado da ECDC.

A ECDC também informou que a utilização de luvas, como as usadas em fast foods para usar o pegador de comida, não são aconselháveis, pois podem ocasionar aumento da contaminação de superfícies – então raras, como mostrado pela reportagem do El País e pelos especialistas – e má higienização das mãos. 

Bares, Restaurantes e … mais Teatro?

O teatro de impor distância de segurança, que não é controlada, em bares mal ventilados, como se não existisse contágio por aerossóis quando se fala em voz alta, porque a música impede de ser ouvido.

– Miguel Hernán, epidemiologista da Universidade Harvard.

A ventilação em locais fechados é o fator que realmente importa, ao invés de imposição de distanciamento, que pode levar as pessoas a falarem em voz alta e expelir gotículas contaminadas, principalmente se a música estiver alta, segundo o epidemiologista Miguel Hernán, da Universidade Harvard. 

Garcia, também de Harvard, ainda critica o toque de recolher, fechamentos perimetrais, hospitais de pandemia e “vestir trabalhadores como astronautas”. Para compreender o contexto dessas críticas de Garcia, leia a reportagem de Salas clicando aqui. Ainda que sejam ações intuitivas, Garcia não vê sentido algum nas mesmas e ainda comenta sobre as chamadas ‘ondas de contágio’:

É uma construção que torna as pessoas predispostas a que o vírus venha. Para os governos é bom, porque assumimos que é algo inevitável que simplesmente acontece. Quando enfrentamos uma epidemia, é preciso ir a fundo para acabar com ela, não usar essa linguagem teatral das ondas.

– Elvis Garcia, sanitarista da Universidade Harvard.

Com informações do Jornal El País, CNN, Organização Mundial da Saúde (OMS), Revista Nature, Science Daily, Revista Science, Portal G1 e Universidade da Califórnia.


Pode-se tirar tudo de um homem exceto uma coisa: a última das liberdades humanas – escolher a própria atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho.

– Dr. Viktor Frankl

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