A última semana foi rica em desalento para a base de apoio ao governo. Primeiro, pela atuação dúbia de Regina Duarte à frente da Secretaria Especial de Cultura. Depois, pela queda de um civil de um posto político do governo, hoje ocupado por um militar. A segunda pancada supera de longe o primeiro tropeço, amplamente coberto pelo Crítica Nacional. Por isso, é dele que vamos tratar aqui.

Política e Tecnocracia

Parte da base de apoio ao governo simplesmente desconhece o papel de Onyx Lorenzoni na formação da equipe ministerial. Pelo menos metade do time de ministros foi escolhido pelo presidente com o auxílio e conselho do ex-ministro da Casa Civil. Essa mesma parte da base de apoio é cética quanto ao grau de eficácia da relação inovadora entre governo e congresso posta em prática ao longo de 2019. Este grupo foi, portanto, indiferente à mudança ocorrida na Casa Civil.

Contudo, os conservadores de faro político mais aguçado vêem com preocupação a entrada de um tecnocrata pacificador na arena de guerra chamada articulação política. Ademais, lamenta que a vitória mais relevante do governo Bolsonaro até o presente (a relação inovadora, sem toma-lá-dá-cá, entre governo e congresso, a duras penas mantida pela equipe da Casa Civil) não seja devidamente valorizada.

A mesma parte da sociedade que faz pouco caso deste feito inédito costuma confundir “direita” com a Instituição “Forças Armadas”, associação sem base na realidade.

Ideias políticas à direita ou à esquerda dependem da consciência individual de cada oficial pertencente ao exército. O único horizonte comum que norteia a Instituição, podendo ser associado a todos os seus membros, é a tecnocracia

Alta Política e Baixa Política

Segundo a visão tecnocrata, a disputa de interesses chamada política deve ser suplantada pela condução tecnicamente superior do ordenamento social. Significa dizer que tanto os ideais da esquerda quanto os ideiais da direita, tanto a cultura progressista quanto a cultura conservadora, devem ser superadas pela manutenção eficiente dos conflitos sociais, para que se alcance a estabilidade pretendida.

Este modo de ver a administração da vida em comum tem matriz cientificista. O seu resultado prático… Bem, traduz-se na notável instabilidade política que o país atravessou ao longo do século XX e vai continuar vivendo enquanto os civis não mostrarem às forças armadas que as regras aplicáveis ao uso profissional da força, ou Instituição militar, são inadequadas ao jogo político.

Para que a sociedade brasileira supere seu problema crônico de instabilidade, os mlitares devem reconhecer que, de política, entendem muito pouco – ainda que de técnicas de outra natureza, entendam bastante.

Direita e Esquerda

O General alçado por Bolsonaro à Casa Civil é um gestor eficiente em pacificação. Essa estratégia é muito boa quando aplicada pelo lado forte, aquele prestes a vencer uma guerra, numa disputa cujo objetivo é definir a vitória. A parte em vantagem oferece a pacificação à parte em desvantagem para antecipar uma vitória previsível, aparentando, de quebra, generosidade aos derrotados. Na história da guerra, a tática se mostra extremamente eficaz.

A política, contudo, é a guerra não-letal de partes em disputa permanente. Que a expressão “alternância de poder” seja nela tão importante, não é por acaso. Pacificar, ou dar um fim a esta disputa de interesses permanente chamada política implica diretamente na morte da política.

Daí a desconfiança dos conservadores, cuja existência política no Brasil parece ser proibida até mesmo sob um governo de direita, de se trocar um político hábil por um tecnocrata pacificador no ministério símbolo do embate de interesses.

Aliança liberal-conservadora e tecnocracia militar

Tecnocracia significa “poder da técnica”. Daí a brilhante atuação de militares em Ministérios cujo cerne é uma ciência específica. É o caso da Defesa, da Infra-estrutura, Minas e energia, Ciência, Tecnologia e Inovação, etc. Alguns ministérios casam perfeitamente bem com a visão tecnocrática comum aos membros das Forças Armadas. Os civis reconhecem este seu talento.

Outros Ministérios, contudo, exigem educação política, ou habilidade de negociação consequente de décadas de prática. Bolsonaro não se consolidou como o líder da Aliança liberal-conservadora por ser um militar, mas por ter conduzido sua carreira política recusando a corrupção sistemática dos fisiologistas de plantão. Onyx Lorenzoni foi aquele colega de baixo-clero que soube vincular seu traço político essencial às exigências do eleitorado liberal-conservador.

Para o grupo LibCon, o maior feito do governo Bolsonaro tem sido não ceder às pressões da ala fisiologista, ou centrão. O nome mais correto para esse grupo de parlamentares que trabalha para si próprio (expropriando o povo brasileiro de sua riqueza sem dó nem piedade) seria quadrilha…

A aliança liberal-conservadora apoia, portanto, o governo que não cede à quadrilha expropriadora do erário, e não um eventual apelo às Forças Armadas como freio suficiente ao projeto de poder comunista. Se este apelo fosse suficiente, PSDB e PT não teriam dominado o cenário político brasileiro desde a devolução do poder aos civis.

Apoio orgânico ao governo

O povo brasileiro não se afina aos ideiais progressistas. O povo brasileiro não vê como boa saída o comunismo, que significa na prática a imposição centralizada de políticas públicas que forcem a sociedade à igualdade, rebaixando todos ao patamar da mediocridade e à mesma linha de pobreza. O povo brasileiro elegeu um governo cuja promessa é o caminho da prosperidade.

A honestidade intelectual obriga qualquer um a reconhecer que os anos de regime militar não foram bem-sucedidos neste quesito. Muito pelo contrário, caracterizam-se por fracasso econômico e política de relações exteriores equivocada. Muito admira que militares de alta patente insistam em indicar Geisel (governante pífio superado em inépcia apenas por alguém da incompetência de Dilma) como um modelo para boas Relações Exteriores.

O ministro símbolo da aliança liberal-conservadora, gostem os tecnocratas ou não, é Ernesto Araújo, que tem feito um trabalho vantajoso aos brasileiros, no campo das relações internacionais.

Paulo Guedes à frente da economia sinaliza, para dizer o mínimo, o enfrentamento dos monopólios. Araújo à frente das Relações Exteriores sinaliza, de sua parte, o enfrentamento da subserviência ao ideal globalista de diluição das soberanias nacionais. Guedes ataca o monopolismo por aqui. Ernesto freia a prática monopolista na esfera internacional.

O monopólio é o maior inimigo da prosperidade. Assim como o patrimonialismo (a política praticada pela quadrilha chamada centrão) é o maior inimigo da liberdade.

A aliança liberal-conservadora é a prova de que podemos ter um livre-mercado próspero e uma economia aberta sem abrir mão do auto-respeito, ancorado na consciência do papel relevante desempenhado pelo Brasil diante dos demais países do mundo. Prosperidade e dignidade andam de mãos dadas. Como propriedade e liberdade.

Ernesto Araújo e Weintraub vão permanecer?

Embora a troca de um político por um tecnocrata na casa Civil passe despercebida ao eleitorado que confunde “direita” com “exército”, ela é preocupante por colocar em risco a posição de ministros estratégicos, como Weintraub e Araújo.

Caso eles venham a ser removidos de seus postos num futuro próximo, os tecnocratas mostrarão ao povo que não estão dispostos a trabalhar em equipe pela consolidação do bem comum, que passa pelo combate ao autoritarismo da esquerda, mas exige, sobretudo, o talento político da aliança LibCon para legitimar a direita enquanto alternativa política forte e permanente.

Caso eles permaneçam, a tese de que Bolsonaro cercou-se de colegas militares por prudência será digna de crédito na base LibCon, cujo trabalho nas redes sociais e mídia ascendente é essencial tanto para combater narrativas que visam desestabilizar o governo, quanto para difundir na sociedade brasileira a matriz conceitual dos valores políticos que de fato a caracterizam.

O erro dos militares em 1964 foi ter se estendido no poder por 20 anos. Naquele gesto, mataram a direita e mostraram não ser bons políticos, embora sejam grandes técnicos. Por ora, cabe à geração democrática da caserna meditar a sabedoria eterna de Cristo:

“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.


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Confira também o Editorial em vídeo do Crítica Nacional sobre este assunto.

3 Comments

  1. Bruna parabéns pelo texto.
    Penso eu nos tempos corridos do longínquo ano de 1982 até os dias atuais do ano de 2020. Foram-se 38 anos!!!
    Em todos esses anos com todos os governos que tivemos não ouvi muitas vozes da Direita ou dos Liberais.
    Agora chegamos ao Poder e já no primeiro ano estamos criando vertentes e mais vertentes.
    Essa estratégia é correta??

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