Magistrados da Câmara de Recursos Criminais de Chincha e Pisco assinaram uma resolução acusando as supostas “elites criminosas de todo o mundo” de criarem o novo coronavírus e serão investigados pela Corte Superior de Justiça de Ica.

Segundo projeto de verificação de notícias (Fact Check) do jornal ‘O Estado de São Paulo’ (Estadão), magistrados da Câmara de Recursos Criminais de Chincha e Pisco assinaram uma resolução acusando os bilionários George Soros e Bill Gates de inventarem a pandemia do novo coronavírus. 

A informação foi confirmada pelo jornal colombiano El Tiempo, em 13 de janeiro de 2021. Segundo o El Tiempo, Rockefeller também foi acusado.  

Origem do vírus

Em 15 de dezembro de 2020, o Estadão Verifica fez a checagem da publicação da virologista chinesa Li-Meng Yan. A especialista afirmou que o novo coronavírus foi produzido em um laboratório militar da China, sua pátria. O jornal afirmou que a tese de Li-Meng foi “contestada por cientistas de todo o mundo” e que se trata de afirmações “sem evidências”.

Ainda segundo o Estadão Verifica, Li-Meng apresentou um relatório em setembro de 2020, porém, “as melhores evidências produzidas pela ciência até hoje indicam que o novo coronavírus tem origem natural, e não foi criado artificialmente”. 

O jornal consultou a microbiologista brasileira Giliane Trindade, que afirmou ao Estadão Verifica que o artigo publicado pela virologista chinesa “não prova nada”. 

Há inúmeros grupos de pesquisa com publicações em revistas renomadas que mostram justamente o contrário — e vários desses grupos trabalham diretamente com iniciativas de pesquisa de vírus zoonóticos silvestres.

– Giliane Trindade, microbiologista

Segundo Li-Meng, sua tese foi censurada por revistas científicas. O Estadão Verifica informou que o relatório não passou pela revisão de outros cientistas, que acusaram a especialista chinesa de “ignorar a vasta literatura científica sobre a circulação de coronavírus em populações de animais selvagens”. Coronavírus é o nome de uma família de vírus, a qual pertence o novo coronavírus Sars-Cov-2, causador da nova doença que causou a pandemia (Covid-19), como destacado pela revista National Geographic. 

A Nature Medicine publicou tese na qual defende que o Sars-Cov-2 é pouco parecido com vírus que infectam humanos, porém é muito parecido (96%) com o coronavírus de morcegos (RatTG13). Segundo a publicação, o novo coronavírus, responsável pela morte de 2.692.806 pessoas (dados de hoje, sexta-feira [19] às 12h14), não teria estrutura parecida com organismos que infectam humanos. Isso seria indício que a hipótese de Li-Meng seria muito improvável, conforme a checagem do Estadão Verifica. 

Uma pesquisa da Nature, publicada en 26 de agosto de 2020, descobriu que a RaTG13 – que seria 96% similar ao novo coronavírus, responsável por essa pandemia mundial que infecta a humanidade – “não seria eficaz o suficiente para se conectar a receptores humanos”. 

Os nomes dos cientistas envolvidos nessas pesquisas, teses e hipóteses, não foram informados pelo Estadão Verifica. 

Nova Ordem Mundial

A resolução do tribunal peruano afirma a existência de uma “Nova Ordem Mundial”, que seria organizada pelos bilionários acusados. Segundo o Estadão Verifica, não há evidências da existência da “Nova Ordem Mundial”, que se trataría de “teoria conspiratória”. Neste caso, o jornal não citou pesquisas, estudos ou especialistas. 

A tese de que haveria uma “Nova Ordem Mundial”, baseada num governo totalitário mundial e implantado pelos bilionários como Soros, Gates e Rockefeller, não é recente e já foi tratada por intelectuais, cientistas e artistas, entre estes os brasileiros Olavo de Carvalho (escritor e professor), Ricardo Felício (professor, pesquisador e opositor da teoria do aquecimento global) e o consagrado ator Carlos Vereza. 

O escritor britânico H. G. Wells publicou livro defendendo uma Nova Ordem Mundial, para “alcançar um mundo pacífico”. Wells era membro da chamada Sociedade Fabiana (saiba mais em Pease, Edward R., A History of the Fabian Society – The Origins of English Socialism New York: E.P. Dutton & Co., 1916. ISBN 978-1934941324). 

É geralmente definida como uma “teoria conspiratória”, inclusive constando esse termo na Wikipédia. De fato, essa tese não foi ainda provada e não há consenso sobre ela na Academia, havendo grande resistência entre os membros dos mesmos setores citados. 

O termo em si foi utilizado pela imprensa, algumas vezes, para definir a era pós-covid, como no artigo de Alan Crawford, para a Bloomberg, e reproduzido em português pelo UOL Economia e pela revista Valor Econômico (Globo). Em 29 de julho de 2020, o termo também foi utilizado pela emissora alemã internacional Deutsche Welle. O mesmo ocorreu em artigo do professor Eugenio Viassa Monteiro, publicado em 26 de dezembro de 2020 pelo portal português Observador; o portal possui um dos principais projetos de verificação de notícias de Portugal. 

Deixamos claro que o termo foi utilizado em sua definição etimológica, não no contexto da chamada “teoria conspiratória” e que não estamos defendendo ou negando a tese, mas explicando ao leitor sobre o que foi defendido na resolução noticiada.

Resolução será investigada

A Corte Superior de Justiça de Ica abriu investigação para apurar se houve ilegalidade na conduta dos magistrados que assinaram a resolução. 

Essa informação foi publicada pelo jornal peruano La República, em 11 de janeiro de 2021, dois dias antes da matéria do jornal colombiano El Tiempo.

Segundo o La República, os magistrados usaram argumentos falsos e uma “teoria conspiratória” para embasar a resolução. A Corte investigará a legalidade. 

Com informações do Estadão Verifica, Nature, Nature Medicine, National Geographic, Diário de Notícias (Portugal), Observador (Portugal), El Tiempo (Colômbia), La República (Perú), Valor Econômico, UOL e Deutsche Welle.

Agradecimentos especiais ao Estadão, cujo projeto de verificação permitiu a realização desta matéria, sem o risco de incorrer em desinformação. 


Justiça é consciência, não uma consciência pessoal mas a consciência de toda a humanidade. Aqueles que reconhecem claramente a voz de suas próprias consciências normalmente reconhecem também a voz da justiça.

– Alexander Solzhenitsyn

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