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quinta-feira, 23 setembro, 2021

Literatura para mulheres: A Perfeita Mulher Casada

Revista Mensal
Samara Barricellihttp://www.revistaesmeril.com.br
Samara Oliveira Barricelli é jornalista, Católica Apostólica Romana, mãe e esposa.

Mais que uma resenha, mas a oportunidade de abandonar os conceitos que prometem um mundo de fantasia e levam à infelicidade

O livro original intitulado de ‘La Perfecta Casada’, publicado em 1583, foi uma homenagem à Maria Varela Osorio, ilustre mulher da sociedade de Salamanca, pelo seu casamento. A obra é baseada na feminilidade da mulher sábia e temente a Deus, dentro dos padrões éticos e religiosos, em acordo com a Bíblia.

León, Luis de; A Perfeita Mulher Casada, Editora Escala, 1ª edição, São Paulo, SP, tradução de Liliana Raquel Chwat

Para o Frei Luis de León, o matrimônio, que fora instruído por Deus como o verdadeiro caminho a ser seguido pelas mulheres, menos penoso, não precisa ser cercado de dificuldades e caminhos ruins. Que o matrimônio tem seus tropeços, perigos e erros, por isso a necessidade de um guia, de alguém que possa direcionar a mulher a exercer o seu papel com sabedoria. Porque servir ao marido, administrar a família, criação dos filhos, unir tudo isso ao temor de Deus, da guarda à consciência limpa de tudo ao que pertence ao estado e ofício da mulher casada, são obras que requerem cuidado, e que muitas vezes não podem ser cumpridas todas juntas, sem a benevolência divina.

O engano começa quando a mulher acredita que o casamento é apenas deixar a casa dos seus pais, saindo das rédeas e obrigações familiares para a liberdade e felicidade individual. Esquecem que suas mães abdicaram da própria vida para que os filhos pudessem viver bem. E ainda pensam que, parindo um filho a cada tempo e jogando-o nos braços de uma babá, são mulheres plenas, enquanto são obrigadas a servidão a um senhor que nunca fará por elas o que seus maridos e filhos fariam por honra e amor.

León ressalta a virtude existente em Maria Varela, do seu bom senso e inclinação dotadas a Deus, que garantem que ela não será como algumas dessas mulheres. O profundo amor que lhe tem e o desejo de vê-la bem, o incentivam a avisá-la que procure o melhor caminho, sem enganos e erros, que seus maus passos se endireitem e iluminem sempre. Promete que lhe ensinará tudo o que aprendeu nas Sagradas Letras, sob o ensinamento do Espírito Santo; usado para proveito de todos os homens, onde a piedade e sabedoria divina são tudo aquilo que é necessário a cada estado.

Frei Luis de León

Na verdade, mesmo que o matrimônio em grau e perfeição seja menor que o dos castos ou virgens, porém, pela necessidade que há dele no mundo para que se conservem os homens, aqueles que nascem para ser filhos de Deus, para honrar a terra e alegrar o céu com glória, sempre foi honrado e privilegiado pelo Espírito Santo nas Letras Sagradas. Por elas sabemos que este estado é o primeiro e mais antigo de todos os estados, e sabemos que é moradia, não inventada depois que nossa natureza se corrompeu pelo pecado e foi condenada a morte, e sim ordenada logo no início, quando os homens eram integros e bem-aventuradamente perfeitos no paraíso.

– Luis de León, A Perfeita Mulher Casada

As mesmas nos ensinam que Deus por si mesmo promoveu o primeiro casamento, unindo as mãos de todos os primeiros casados e os abençoando. Literalmente, Deus foi o casamenteiro e sacerdote. Também vemos que a primeira verdade que se escreve é dita diretamente por Deus: “Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis, 2). Fez do casamento significado e sacramento santíssimo do laço de amor com que Ele une às almas e desejou que a lei matrimonial do homem com a mulher vivesse a imagem da harmonia dulcíssima e modesta que há entre Ele e sua igreja. Dessa forma enobreceu o matrimônio com magníficos dons de sua graça e valores divinos.

No último capítulo de Provérbios, Deus, pela boca de Salomão, rei e seu profeta, e como a pessoa de uma mulher, mãe do próprio Salomão, a ela se refere com grande beleza de razões ao pintar uma virtuosa mulher casada, para servir àquelas que pretendem ser virtuosas como um espelho claríssimo, a fim de que saibam que ali olhando, encontrarão o que precisam para alcançarem as virtudes das quais necessitam.

Seria gracioso se a mulher casada entendesse sua humilde obrigação e a sua eficiência no cumprimento dela. Como em qualquer trabalho que se pretende ter, é imprescindível duas coisas: Saber o que é e os requisitos para ter aquilo que se deseja, além de compreender a sua importância. E a outra é amar de verdade. Após entender e descobrir o que é esse ofício, com suas qualidades, é que se pode ter o gosto pelo amor e aplicação das suas obrigações e virtudes. A quem teme a Deus, basta-lhe saber que é o próprio Deus que manda que cada um cumpra as suas obrigações. Que o cumprimento das demais obrigações, não significa que esta pode ter falhas. Como na guerra o soldado que abandona o seu posto não cumpre com o seu capitão, o desonra, é essa a visão que Deus tem da esposa que não cumpre as suas obrigações com o seu marido. A desonra das suas obrigações é uma grave ofensa a Deus.

Teria você um cozinheiro e pagaria o seu salário, se ele não soubesse cozinhar, mas tocasse bem um instrumento musical? Deus não quer em sua casa aquele que não exerce o ofício para qual foi destinado.

– Luis de León

O Evangelho diz que cada um pegue e carregue a sua cruz, não a alheia. A mulher religiosa deve ser feminina e continuar a cuidar da sua casa, esposo e filhos. O homem casado deve agradar a Deus sendo um bom homem casado, como o frade deve ser o bom religioso e o comerciante faça corretamente o seu trabalho.

E a cruz que cada um há de levar e aonde deve chegar para se juntar a Cristo, propriamente é a obrigação e a carga que cada um tem em razão do estado em que vive; e quem cumpre com ele, cumpre com Deus e com sua tentativa, fica honrado e ilustre, pelo trabalho da cruz, alcança o descanso merecido. Mas pelo contrário, quem não cumpre com isso, mesmo que trabalhe muito cumprindo os ofícios que toma por sua vontade, perde o trabalho e as graças

– João, 3.

Vemos diversas mulheres casadas fugindo das suas obrigações e responsabilidades, em benefício das próprias vontades ou alheias, na busca de obrigações que não a interessam ou de uma felicidade individual que não existe. Com isso, tomaram por suas vontades as funções que cabiam aos seus maridos, abandonando suas reais funções, não cuidando de sua casa e nem mesmo de si. Outras mulheres abandonam suas casas e maridos, dedicando seu dia ao oratório e esquentar o chão da Igreja, esquecendo o ensinamento sobre a sua feminilidade e virtude, perdendo o marido que ao seu ver se torna um demônio.

O estilo de vida da mulher casada a convida a se ocupar de sua casa, não a ser uma freira. Por isso, deve haver considerável diferença entre a boa religiosa e a mulher casada. A primeira tem a oração como todo seu ofício, ela não quis marido, negou o mundo, se despediu de todos para viver unicamente com Cristo, se entregando a ele. A segunda deve orar para cumprir melhor a sua missão, para administrar bem a sua casa, servir ao marido, pela criação dos seus filhos, para viver como se deve, pela sabedoria e proteção do seu lar.

A boa mulher casada reina em sua casa, atrai para si os olhos e coração de todos. Há descanso e segurança onde quer que ela vá e, para qualquer lugar que olhe, ela encontra alegria e prazer porque se colocar os olhos no marido, descansa em seu amor, se voltar para os filhos, se alegra com sua virtude, nos seus empregados enxergará o bom e fiel serviço, e nos negócios proveito e crescimento. Tudo é motivo para sua alegria e agradecimento. Ao contrário da mulher que é má esposa, onde tudo lhe é motivo de aborrecimento e amargura. Seu marido não é amado e seus filhos são como um fardo a suportar.

A Bíblia diz que o marido da boa esposa é bendito e viverá o dobro de dias, que sua mulher o deixa em descanso e terminará seus últimos dias com paz. Já a má esposa é ciumenta, amargurada e chorosa, e viver com ela é como viver com escorpiões. Que casar com uma mulher aborrecida é incentivar a discórdia em sua casa, vivendo com uma mulher cheia de maldade.

Não há víbora, nem ira que se iguale a ira da mulher vexatória. Viver com leões e dragões é mais fácil que conviver com uma mulher malvada. Todo mal é pequeno em comparação com a mulher má; que aos perversos caiba tal sorte. Tal como a subida arisca para os anciões, assim é para o modesto a mulher inconveniente e linguaruda. A mulher má é chaga mortal e destroça o coração. A mulher que não dá prazer ao marido é como o corte das pernas e perda das mãos. A mulher deu início ao pecado, e por sua causa morremos todos.

– Luis de León

As más mulheres tem o desejo de serem apreciadas e honradas, o que é comum naqueles de espírito fraco, e sentem prazer em vencer suas rivais, ainda que em coisas pequenas e insignificantes, esquecendo mais uma vez a sua própria virtude e louvor. Isso acontece porque essas mulheres querem aparecer mais que as outras, serem mais bonitas, atraentes, desejadas, ter os melhores vestidos e sapatos. Porém, a boa mulher é vantajosa, ela não se perturba nem se magoa, não vencer em algo não a destrói porque a boa mulher é admirada pela sua família, pelo seu marido e seus filhos. Os vizinhos a respeitam, ela é elogiada por onde passa, por conta da sua virtude, não por ganhos terrenos.

E se Eurípides, sábio escritor, parece falar mal de todas, diz que alguém do passado falou ou que podem falar, ele só quis dizer que tais mulheres com más ações são a personificação perfeita de Medéia, já que é a desculpa mais justa que ele poderia usar.

León diz que antes de presumir que o Espírito Santo retrata como boa a mulher casada, atribuindo suas obrigações, deve-se entender que por trás desse retrato há coisas maiores que se referem a toda Igreja, porque a Sagrada Escritura é a voz de Deus. Tanto, que Deus pela boca de Salomão ordenou duas coisas: Instrui e ordena os costumes e profetiza os ministérios secretos. Os costumes que Deus ordena são da mulher casada; os ministérios que profetiza são a criatividade e as condições que haveria de colocar em sua Igreja, a fala e figura de uma mulher de sua casa. Neste último, mostra o que se deve crer, no primeiro, ensina como se deve agir.

E porque este é o propósito, falar de Deus e procurar, dentro do possível, extrair e colocar diante dos olhos tudo o que há na imagem de virtude que retrata Deus aqui. Pois, diz: Mulher de valor, quem a encontrará? Raro e exageradamente caro é o seu preço.

Esta é a primeira parte da resenha do livro A Perfeita Mulher Casada, do Frei Luis de León (1527 d.C. – 1591 d.C.)


A boa esposa é o orgulho do marido, mas a esposa que traz vergonha ao marido é como câncer nos ossos dele.

Provérbios 12:4

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