ISRAEL SIMÕES | O homo sentimentalis

Israel Simões
Israel Simões
Terapeuta, filósofo clínico e curioso observador da vida cotidiana.

Ontem o Padre José Eduardo, que não sei exatamente quem é, onde mora e em qual local exerce sua autoridade religiosa, postou em sua conta no Instagram um recado “aos leigos católicos empoderados e talibãs da tradição, super apologetas do ‘Catecismo Romano’”, segundo as suas próprias palavras. Caí ali não sei como, mas li e compreendi que o sacerdote de rosto simpático exortou os fiéis a não abdicarem da prudência e do bom senso quando se apegam, em seu desejo por santidade, ao texto de certos documentos da Sagrada Tradição. Usando como exemplo outros trechos do referido catecismo que normatizam a conduta do povo e que, se levados a ferro e fogo, produziriam uma camisa-de-força legalista que em nada favorece a comunhão invisível, Padre José pareceu se fazer entender muito bem. Mas o campo de comentários virou uma verdadeira zona de guerra.  

Veja algumas das participações postadas pelos seguidores:

“Eu só gostaria que o padre explicasse o motivo de tanto ódio contra a missa tridentina…”.

“Eu como recém católica convertida eu gosto da tradição mas não sou neurótica…”

“Sigo o Sr a alguns anos e por vezes acho as postagens sensatas, mas dessa vez gostaria de respeitosamente fazer observações (…)”

“Como alguém que nasceu pós concílio, fiquei feliz em participar de duas missas tridentinas e uma rezada em latim do rito novo (…) Ali cheguei à conclusão pessoal que missa celebrada piedosamente é o que busco”.

“…não conheço ninguém que frequente a Missa Antiga que pense dessa forma”.

E por aí vai. Uma chuvarada de depoimentos pessoais que pouco ou nada acrescentam à discussão pública, a qual, creio eu, deveria estar em busca da síntese irrefutável, não de terapia em grupo. Talvez percebendo que, entre os mais de 840 comentários, sobrou subjetividade para um tema tão dogmático, foi que Bernardo Kuster deixou uma pequena participação no imbróglio: “E a verdade vos libertará”. Foram suas palavras, nada mais.

O vício em analisar os fenômenos pela perspectiva da autobiografia, como se a realidade fosse apenas o contexto para a edificação do drama pessoal, impede qualquer reflexão minimamente inteligente e produtiva.

Estamos vivendo a era do homo sentimentalis (termo cunhado em alguma página entre os romances de Milan Kundera e a sociologia de Philip Rieff), onde o testemunho individual é o próprio argumento e nada mais tem a acrescentar. Cada um começa e encerra sua participação no debate, teológico ou futebolístico, compartilhando suas experiências particulares e as conclusões pífias que delas emanam.

Até para mim que não sou católico ficou claro o que o Padre disse: que sem o senso natural das formas e das proporções, viramos “gente doida falando asneira”, criando e impondo a ilusão de desempenhar a beleza do texto ao pé da letra, numa conversão autística radical que vai do mundo concreto ao mundo abstrato e esquece de retornar.

Se o catolicismo não é a religião do biblismo, tão pouco será do cateciquismo.

Mas o homo sentimentalis não compreende sequer a fé que professa, estando sempre a um passo de se transformar no homo hystericus ao traduzir, pelo sistema límbico, toda aparência de oposição, convicto de que defende o mais elevado princípio universal, quando sua única preocupação é se abrigar sobre algum símbolo convencional que ofereça o alívio postiço para a sua identidade fragmentada.

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