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quinta-feira, 27 janeiro, 2022

Geração mimimi: por que, desde Rousseau, as palavras ‘machucam’

Revista Mensal
Antonio Fernando Borges
Antonio Fernando Borges é escritor (Braz, Quincas & Cia. e Memorial de Buenos Aires, entre outros) e professor/consultor de Arte da Escrita.

O homem que abandonou cinco filhos e traiu suas amantes e amigos acabou se tornando um modelo de moralidade: eis, em breve síntese, toda a tragédia contemporânea

A revista Time recém-elegeu como “Atleta do Ano” de 2021 uma ginasta que desistiu de participar das Olimpíadas em nome da manutenção de sua saúde mental. Definitivamente, o medo e o estresse são o novo heroísmo. 

Na verdade, ao longo dos séculos, a covardia tem assumido nomes variados. Este é apenas o mais recente. A extrema-imprensa aplaude, os mimizentos de plantão se regozijam – e, se ainda cabe usar a vetusta figura de linguagem, o velho-menino Jean-Jacques Rousseau certamente anda resmungando e “revirando no túmulo”. Deveria bater palmas, ao ver suas ideias fora-de-ordem ocuparem o centro da cena. Mas o segredo de um sem-noção mimado é mesmo fingir que nunca está satisfeito.

Na Biblioteca de Borges, nas prateleiras dedicadas às origens e fundamentos de toda insanidade moderna, o espaço ocupado pelo “filósofo” Rousseau (ênfase nas aspas) é imenso, mas infinitamente desproporcional à sua contribuição efetiva para os mistérios deste mundo, ou do outro. Na verdade, Jean-Jacques funciona sobretudo como um legítimo contraexemplo: com suas ideias miúdas de que todos os males da Humanidade têm raízes em valores como Razão, Civilização e Propriedade Privada, ele é o incontestável precursor da mentalidade revolucionária da esquerda – que o enaltece como um dos principais baluartes do Iluminismo e do Romantismo. Não há como negar estes tópicos. Difícil é defender que eles sejam bons. 

Rousseau deixou um punhado de obras, com destaque para Do Contrato Social, Da Origem e Fundamentos da Desigualdade entre os Homens e Émile ou Sobre a Educação – mas elas podem perfeitamente ser resumidas numa ideia simplória (“O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”) com uma consequência perigosa (“É preciso criar uma nova sociedade”). Mais um caso da interminável série Aquilo Deu Nisso, a nos legar, não ideias, mas um padrão de comportamento.

Natural da Suíça, país que legou ao Universo pouco mais do que o relógio-cuco e a ideia ordinária de “neutralidade política”, Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) encontrava na própria biografia os ingredientes e temperos do seu receituário de lamúrias e “desventuras”: órfão com apenas nove dias (a mãe morreu de infecção pós-parto), foi criado pelo pai, Isaac, de quem precisou se afastar aos dez anos; na adolescência, estudou numa rígida escola religiosa – o que ele computava como um ponto negativo, e não elemento para uma boa formação. 

Em suas Confissões (que estão a anos-luz de distância da sinceridade confessional de um Santo Agostinho) Rousseau se dedica sobretudo a inventar justificativas para seus atos e decisões – quase todos insanos e reprováveis, mas para os quais havia sempre um responsável, que não era ele. Sua opção de vagar pelo mundo, por exemplo, ele a atribui ao fato de ter encontrado os portões de Genebra fechados, certa noite quando voltou mais tarde de um passeio… E não foi diferente, com todo o resto. 

(Outro exemplos: tornou-se amante de uma rica senhora, que sustentou seus estudos de música e filosofia mas, quando ela caiu em desgraça financeira e política, trocou-a por uma companheira mais jovem e mais abonada, com quem fugiu para Paris; teve cinco filhos com a nova amante – mas entregou todos eles para adoção num orfanato.)

Mentiroso contumaz, frequentador habitual dos leitos das esposas de seus benfeitores (de quem falava mal publicamente), Rousseau se dava ao luxo de jurar que, em toda a Europa não havia ninguém melhor do que ele – e, quando enumerava suas altas qualidades morais, derramava lágrimas de comoção. Que tenha se tornado um modelo de moralidade e um dos “Pais da Educação Moderna” é muito mais do que simples ironia ou licença poética: constitui um grave sintoma da patologia moral contemporânea. 

A facilidade com que os “apóstolos do futuro” legitimam as injustiças, a opressão e o genocídio nas sociedades que eles próprios ajudaram a criar, em contraste com sua indignação diante de simples ideias e símbolos abstratos das sociedades que eles se empenham em destruir – tudo isso faz parte do legado de Jean-Jacques Rousseau, que  semeou a ideia de que as palavras machucam muito mais do que, por exemplo, uma guilhotina.A alemã Hannah Arendt acertou na mosca ao dizer que a ambição das ideologias revolucionárias não é – nunca foi! – criar uma sociedade melhor, e sim mudar a natureza humana, transformando as pessoas numa legião de Rousseaus, campeões olímpicos na categoria Cinismo.


Odeio mais as frases ruins do que as más ações

— Jean-Jacques Rosseau, o pai da (i)moralidade moderna

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