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terça-feira, 28 junho, 2022

ENTREVISTA | Paulo Moura relata momentos de terror durante seu sequestro

Revista Mensal
Samara Barricelli
Samara Barricellihttp://www.revistaesmeril.com.br
Samara Oliveira Barricelli é jornalista, Católica Apostólica Romana, mãe e esposa.

Conheça mais sobre sua trajetória e as horas de terror que precisou enfrentar

O cientista político, cinegrafista e documentarista Paulo Moura passou por momentos de elevada tensão, após ser sequestrado e ficar 17 horas em poder dos criminosos, nos dias 03 e 4 de fevereiro deste ano.

Em entrevista ao Esmeril News, conta um pouco de sua história, relata o que passou e fala sobre os próximos passos em sua vida e carreira.

Qual sua formação?

Sou graduado em ciências sociais, tenho mestrado em ciência política e doutorado em comunicação. Desde os tempos da faculdade de ciências sociais eu já trabalhava com produções de vídeos, na época da introdução do VHS no Brasil.

Como foi o começo da sua carreira?

No Rio Grande do Sul, onde eu morava, não havia produção de vídeo fora das emissoras de TV. Eu trabalhava na Universidade Federal, num sistema de produção de vídeo educacional. Consegui fazer alguns vídeos num sistema de treinamento que existia, para preparar profissionais pra a TV.

Trouxe do Rio de Janeiro um profissional que acabara de chegar do Estados Unidos da América (EUA). inserindo aqui um treinamento de profissionais para videomaker.

Você é cientista político e produtor. Como equilibra ambos?

Fiz cursos de produção de cinema super 8, fotografia, iluminação fotográfica, para produzir cinema, dominando os processos de linguagem que não são iguais. Ou seja, eu já estudava ciências sociais e trabalhava com produção de vídeos. Fazia ambos paralelamente.

Depois de um tempo eu me afastei da produção de vídeos, para cursar o mestrado, através de uma bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), me dedicando mais à carreira acadêmica.

Por vinte anos fui professor universitário e minha relação com a produção audiovisual foi mais intensa durante as campanhas eleitorais, porém, interagindo com as equipes de produção, publicidade e comunicação, como estrategista de marketing político.

Quando retornou ao setor de produção audiovisual?

Há cinco anos a universidade privada na qual eu era professor, no Rio Grande do Sul, entrou em processo de falência. Nessa época, me demiti, reativei minha empresa de produção audiovisual e vim para São Paulo (SP).

Produzi um documentário sobre o movimento do impeachment e desde então estou nesses mercados de produção audiovisual e consultoria política.

É verdade que recentemente sofreu um sequestro?

Sim, é verdade.

Como aconteceu?

Na noite de 03 de fevereiro de 2022, eu estava voltando para casa, após fazer compras de mercado, e saí de uma avenida principal para uma rua secundária, na qual meu carro foi “fechado” e me abordaram. A rua não tinha câmeras de trânsito.

Quatro criminosos armados desceram de um carro e apontaram suas armas para mim. Rodaram comigo até outro ponto, no qual trocaram de veículo e abandonaram meu carro. Não sei quanto tempo rodaram comigo, nem tinha senso de localização naquele momento.

Pediram resgate, sacaram dinheiro? O que queriam?

Pegaram meu celular, me forçaram a entregar as senhas. Foram 17 horas de cativeiro. Na mesma noite fizeram uma pequena transferência via PIX, para verificar se eu havia entregue a senha correta. Quando amanheceu, num primeiro momento fizeram uma limpa na minha conta do Banco do Brasil, despesas nos meus cartões de crédito e depois limparam minha conta na XP Investimentos.

Utilizaram meu próprio Mercado Pago para transferir os recursos das minhas contas e, a partir daí, para membros da quadrilha. Ficaram o tempo todo de máscaras, mas mesmo assim me forçavam a ficar com o olhar voltado ao chão.

Houve alguma ameaça ou indício de que isso poderia acontecer?

Não. Foi de repente, sem qualquer ameaça, aviso ou indício.

Como sua família reagiu?

Minha família só soube após minha libertação. Minha esposa estava no Maranhão, por causa do meu sogro, que está hospitalizado. Como os criminosos pegaram meu celular, eles conversaram pelo aplicativo de mensagens com meu filho e minha esposa, para que não desconfiassem.

Sofreu alguma agressão física ou tortura?

O cativeiro era um lugar horrível, provavelmente no meio de alguma favela. Havia água no chão e um colchão úmido. Eu precisava ficar deitado ou sentado o tempo inteiro.

Faziam ameaças de morte, principalmente nos momentos nos quais pediam as senhas, pois meu celular é de reconhecimento facial.

Fisicamente não sofri violência, mas a violência psicológica foi intensa. Já conversei com minha terapeuta, estou medicado e haverá outras consultas. Fui medicado porque há relatos por pessoas que sofreram sequestros relâmpagos e seis meses depois tiveram Síndrome de Pânico. Para evitar tal problema, minha terapeuta preferiu me receitar os medicamentos e devo tomar por esse período.

Meu caso não é de sequestro relâmpago, pois a polícia tipificou apenas como sequestro, devido ao tempo de cativeiro, mas deixa sequelas.

Ao que você credita ter sobrevivido ao sequestro?

Agradeço a Deus por ter sobrevivido às horas de terror que passei e penso em quatro possíveis motivos para não terem me matado.

Primeiro, a hora que fui abordado senti como se meu coração fosse sair pela boca, porém, tive uma iluminação do Espírito Santo e algo me dizia que não era a minha hora. Eu repetia que ficassem calmos, pois eu entregaria o que queriam, sem reagir.

Em segundo lugar, acredito que minha boa memória para números me salvou, pois consegui lembrar as senhas todas das minhas contas. Terceiro, foi que eu tinha alguma grana nas contas, mesmo não fosse tanto, pois a maioria dos meus recursos estão em investimentos que dependem do gerente dar a chave para liberação, em até 48 horas, portanto, não conseguiriam retirar.

Em quarto, mas não menos importante, rezei muitos pais nossos e aves marias, e isso trouxe muita força mental para me salvar.

Há algum meio de recuperar o dinheiro que foi retirado?

Os bancos possuem seguradoras contra roubos e, por isso, o dinheiro é devolvido ao cliente. É importante que as pessoas saibam disso.

Quais seus próximos passos?

Tirarei uns 10 dias de férias na praia e estou cooperando com a polícia nas investigações, que ocorrem sob sigilo. Confio muito no trabalho da polícia de São Paulo, que me tratou muito bem.

Das instituições financeiras, a XP teve o tratamento mais ”humano” e ágil. Inclusive, já me devolveu o dinheiro e bloqueou todas as contas. Também acionou o Banco Central e a Polícia Federal (PF).

Meu problema foi com o Mercado Pago, pois só conseguia atendimento robotizado, e a “burrice artificial” do MP achava que eu não queria pagar o empréstimo de R$ 600, que os criminosos realizaram em meu nome.

Haverá novas produções?

Estou com uma produção paralisada, sobre a agenda de reformas econômicas do Governo Federal, do Presidente Jair Bolsonaro. Tive que paralisar por causa da pandemia, pois não utilizo Lei Rouanet, nem leis de incentivo ao Audiovisual.

Atualmente trabalho com comunicação e gestão de marketing em mídias digitais. Também mantenho um canal sobre política no Youtube: Dextra by Paulo Moura, que ultrapassou 65 mil seguidores na última semana.

Acha que sua visibilidade pode ter influenciado no sequestro?

Não tenho certeza, mas tenho a impressão de que não. Acho que os bandidos estavam me monitorando no mercado, já tenho meus cabelos grisalhos, um carro que pode ser considerado “bom” e estava fazendo uma compra boa, daquelas de encher a dispensa por um mês.

Devem ter me seguido por um tempo, pela avenida principal, e quando sai para uma rua sem câmeras, aproveitaram a oportunidade.


O verdadeiro homem mede a sua força quando se defronta com o obstáculo

— Antoine de Saint-Exupéry

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