No dia 19 de novembro, o presente secretário de cultura Roberto Alvim fez um discurso inusual na reunião anual da Unesco, em Paris. Inusual porque não endossa a “Declaração universal sobre a diversidade cultural“, proclamada pela Unesco em 2001.

Jornalistas que não frequentam obras de arte tendem a considerar essa declaração o caminho obrigatório para versar o estatuto da cultura entre os homens. Estão errados. Para entender de cultura, é preciso frequentá-la.

Roberto Alvim não é um burocrata da política internacional. É um artista. E como artista (ou ser humano intimamente envolvido com a criação e a experiência estéticas), matizou o auditório da Unesco com reflexões de profundidade inusitadas por lá.

O discurso de Alvim está para o descaso com a dignificação da alma via experiência estética, costumeiro nos documentos da Unesco, como um soneto camoniano está para uma monografia universitária feita às pressas por um estudante inculto. A falta de sintonia é gritante.

Vale a pena ler a “Declaração”. O documento atribui à “cultura” o papel anteriormente atribuído pela ONU ao “conhecimento”. Nos anos 40, o “conhecimento” era considerado a base da harmonia entre as nações. No século 21, sobra para a “cultura”. Temos aí o pano de fundo de uma gradual e velada imposição de um padrão internacional aos comportamentos e tradições regionais.

O amor à arte vai junto com o horror à homogeneidade. O amor à homogeneidade vai com o furor pela burocracia. Pelo controle. Pelo cerceamento racional da liberdade.

A tal “Declaração” acena ao valor comercial da “cultura”. Há um “plano de ação” para a promoção, sempre de cima para baixo, com base nas quimeras seletas de meia dúzia de burocratas, da “diversidade cultural”.

Roberto Alvim surge diante da Unesco imbuído de apreço pelo valor intrínseco da arte na história da humanidade; imbuído de desprezo pelo uso da arte como propaganda ideológica; pelo uso de um instrumento de dignificação da vida como arma de implosão da consciência individual.

De fato, o discurso assusta. Ao senso comum. A quem preza a verdade, a beleza e a virtude, o discurso espanta. No sentido platônico de despertar admiração. Por isso, registramos aqui cada palavra, convidando vocês a experimentar de novo a doce emoção de orgulhar-se do Brasil mais uma vez.


“Caríssimos Ministros:

Desde os idos da Era Colonial no século XVIII, a cultura brasileira se caracterizou por uma fusão vibrante de hábitos e sociedades.

Inicialmente, na forma de um sincretismo de costumes europeus, indígenas e africanos.

Com os amplos fluxos migratórios em direção ao Novo Mundo que ocorreram nos últimos 3 séculos, o Brasil evoluiu para se tornar um palco ainda mais efervescente, onde hábitos, músicas, danças, literatura e toda sorte de manifestação cultural nacional se mantiveram atentos às tendências e acessíveis às influências da grande arte mundial.

A índole hospitaleira do povo brasileiro e o seu temperamento pacífico – mas jamais passivo – favoreceram este tipo de comportamento.

Entretanto, justamente por sua serenidade, esta índole foi sequestrada por uma ideologia contrária à natureza e à integridade humanas.

A cultura amalgama um povo, construindo com suas manifestações a identidade nacional.

E dentro do campo da cultura, a arte ocupa lugar singular:

uma obra de arte é um sistema complexo de relações formais, construído no mais amplo diálogo com a história, proporcionando uma experiência estética cuja finalidade é o desvelamento da complexidade humana e, por consequência direta, a dignificação da vida.

Uma obra de arte é uma entidade múltipla de significados, podendo ser compreendida de infinitas maneiras, mas em nenhuma dessas maneiras encontra-se embutida a autorização para determinar de que modo o indivíduo deve pensar ou agir.

Nas últimas 2 décadas, a arte e a cultura brasileira foram reduzidas a meros veículos de propaganda ideológica, de palanque político, de propagação de uma agenda progressista avessa às bases de nossa civilização e às aspirações da maioria de nosso povo.

Passamos não mais a produzir e experimentar arte como uma ferramenta para o florescimento do gênio humano…

A arte brasileira transformou-se em um meio para escravizar a mentalidade do povo em nome de um violento projeto de poder esquerdista, um projeto mesquinho que perseguiu e marginalizou a autêntica pluralidade artística de nossa nação.

Este movimento abarcou a quase totalidade do Teatro, da Música, das Artes Plásticas, da Literatura e do Cinema, e não ocorreu de modo espontâneo:

foi meticulosamente pensado, orquestrado e executado por lideranças tirânicas para nossa submissão.

Quando a arte e a cultura adoecem, o povo adoece junto…

Pois a sensibilidade de um povo é formada pelas obras de arte, assim como sua identidade é construída pela cultura.

A arte e a cultura no Brasil estavam a serviço da bestialização e da redução do indivíduo a categorias ideológicas, fomentando antagonismos sectários carregados de ódio – palcos, telas, livros, traziam não elaborações simbólicas e experiências sensíveis, mas discursos diretos repletos de jargões do marxismo cultural, cujo único objetivo era manipular as pessoas, usando-as como massa de manobra de um projeto absolutista.

A ideologia de esquerda perpetrou uma terrível guerra cultural contra todos os que se opuseram ao seu projeto de poder, no qual a arte e a cultura eram instrumentos centrais de doutrinação.

A esquerda perseguiu, difamou, destruiu as possibilidades de trabalho ou existência de qualquer voz que discordasse de seu credo revolucionário.

Pois bem, caros Ministros:

com a eleição do Presidente Jair Bolsonaro, os valores ancestrais de elegância, beleza, transcendência e complexidade encontraram uma nova atmosfera, e isso nos permite retomar o sonho de libertar a cultura e recolocá-la na direção de princípios poéticos sagrados.

Estamos atualmente envolvidos na árdua tarefa de promover um renascimento da arte e da cultura brasileiras.

Estamos comprometidos com a redefinição da identidade e da sensibilidade nacionais, em consonância com os valores fundantes de nossa nação.

Estamos trabalhando para trazer de volta o conceito de Obra de Arte como emancipação do indivíduo na direção da autonomia de pensamento.

Um governo de esquerda patrocina propaganda ideológica.

Um governo de direita apoia Obras de Arte.

Vamos devolver a Arte aos espaços da Arte, com total acessibilidade da população aos nossos Conservatórios de formação de excelência nas diversas áreas, e à difusão de arte clássica em nossos Centros Culturais.

Vamos promover uma cultura alinhada às grandes realizações de nossa civilização judaico-cristã.

E chamamos a este movimento de Conservadorismo em Arte.

Por Conservadorismo em Arte entendemos o conhecimento e o consequente amor aos clássicos, e será a partir deste conhecimento e deste amor que brotará a ambição de criarmos obras de grandeza semelhante em nosso tempo.

A arte, assim como a fé e a sabedoria, é uma das grandes pontes à nossa disposição para tornar cada um de nós mais próximo e unido ao nosso semelhante, e certamente é indispensável para o bem-estar emocional e espiritual das pessoas, assim como para um verdadeiro desenvolvimento social.

Esta é a nova mentalidade do Governo Federal Brasileiro com relação ao extraordinário momento histórico que atravessamos: que a arte não seja doutrinação, mas um caminho para a imaginação edificante, para a prosperidade do caráter, e para a recuperação da soberania de cada indivíduo sobre suas decisões e sua existência.

Para isso, estamos dedicando nossos esforços na realização de muitas tarefas:

a formação de uma nova linhagem de gestores públicos,

a criação de uma nova geração de artistas

e a nobre edificação de nossa civilização brasileira,

para a glória de Deus!

Muito obrigado a todos e que Deus os abençoe.


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4 Comments

  1. Que Roberto Alvim seja inspirado por São João Bosco, que sempre ensinou que o diabo não suporta pessoas alegres. A alegria do brasileiro, na forma da zoeira, derrubou a hegemonia cultural da esquerda na América Latina. Que tal sugerir a um autor teatral criar esquetes com os artigos d’O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota’, de Olavo de Carvalho?

  2. Soberbo discurso, soberba matéria. Roberto Alvim é o gênio escolhido pelas musas da arte, para inspirar, atrair e despertar o brilho artístico perdido na alma dos brasileiros, presa aos grilhões de quem manipula e destrói a verdadeira arte.

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