Para estudar os efeitos da perda da noção de tempo e de espaço, um grupo de voluntários franceses aceitou participar de uma experiência de isolamento de grandes proporções

No Mito da Caverna, narrado por Platão no livro VII da República, obra escrita por volta do ano 380 a.C., um grupo de indivíduos vive, acorrentado, na desolação de uma caverna. A única via de contato com o mundo exterior é através das sombras projetadas numa parede pela luz de uma fogueira. Para os isolados de Platão, a realidade do mundo exterior é tão tênue quanto as sombras na parede da caverna; a vida lá fora, portanto, é menos interessante do que o estrume dos morcegos que caem, desde o teto da caverna, nas cabeças dos pobres isolados do mundo.

2400 anos depois

2400 anos depois da alegoria do mestre de Aristóteles, um grupo de franceses decide fazer o caminho inverso e, voluntariamente, se isolar do mundo na caverna Lombrives, na região sudoeste da França. O objetivo é observar como os seres humanos perdem, em função de um isolamento de grandes proporções, as noções de espaço e de tempo. Sob a liderança do explorador franco-suíço Christian Clot, o grupo de 15 voluntários ficou sem luz solar, relógios, celulares ou qualquer outro objeto eletrônico que lembrasse a exuberância do mundo exterior. Mas, diferentemente dos prisioneiros platônicos, os voluntários franceses dormiam em confortáveis barracas e geravam a sua própria eletricidade — porque não estamos mais na época da luz de tochas.

A experiência batizada com o nada sugestivo nome em inglês “Deep Time“, terminou no sábado, 24 de abril, com a saída da caverna de sete mulheres e oito homens, com idades entre 27 e 50 anos. Na 39ª manhã do isolamento, os cientistas que supervisionavam o projeto entraram na caverna para informá-los de que a experiência estava quase finalizada. Os participantes deixaram o subsolo em meio a aplausos; mesmo sorrindo foi impossível disfarçar o semblante de confusão e desnorteamento. Óculos de sol foram entregues para ajudá-los com a readaptação à luz exterior.

Vida interior

Christian Clot disse que, enquanto esteve na caverna, experimentou a sensação de que o tempo parecia passar mais devagar. Todos os voluntários, em graus variados, viveram a experiência da afetação de suas noções de espaço e de tempo.

“Foi como apertar um botão de pausar a vida”.

Marina Lançon, 33 anos, voluntária.

Durante o período de isolamento, foi proposto aos voluntários a realização de muitas tarefas, no entanto, eles não tinham parâmetros para medir a duração de tempo de cada atividade. A única alternativa para administrar o tempo era a confiança no instinto natural dos seus relógios biológicos — afetados pela ausência prolongada da luz solar.

Mesmo assim os franceses não foram abandonados na caverna só com a luz de uma fogueira, como os personagens de Platão. Eles tinham à sua disposição algumas benesses da modernidade: geravam eletricidade com o auxílio de um pedal mecânico e usavam a água de um poço de 45 metros de profundidade. Para completar os resultados da pesquisa, os cientistas mediram as funções cognitivas dos participantes antes e depois da experiência; eles colheram inúmeros outros dados referentes à saúde dos voluntários também.

O objetivo do estudo tem pertinente relevância para os nossos dias, pois o Coronavírus obrigou os Governos de várias regiões do mundo a adotarem medidas de isolamento e de restrições ao convívio social. O mundo entrou na caverna.

Com informações do site de notícias BBC News — Brasil.

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