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terça-feira, 28 junho, 2022

CRÔNICA | Raio-X de Comunista

Revista Mensal
Vitor Marcolin
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Pitacos na vida do alheio

Foi durante uma sessão como estagiário de Radiologia de um grande hospital paulistano que ouvi os disparates daquele sujeito. Assim que cheguei ao hospital, um instituto de cardiologia nas proximidades do Ibirapuera, pus o jaleco e, com o dosímetro preso ao colarinho, como uma medalha, preparei-me para atender aos pacientes. Os procedimentos eram de uma facilidade entediante: como a instituição de saúde era especializada em problemas cardíacos, a maioria dos pacientes trazia como pedido médico a realização de um único exame: um Raio-X de Tórax em duas posições.

Da minha perspectiva de aprendiz, abstraindo-se a monotonia dos exames pouco exigentes, a rotina era engraçada — em alguns momentos, engraçadíssima. Às vezes, eu tinha de atender a crianças. Para tranquilizá-las da cinza, fria e opressiva atmosfera hospitalar, eu inventava uma história. A bem da verdade, era o resumo de uma história: “Vamos tirar uma foto bem legal!”. Esta convocação bastava para que a mente lúdica dos pequenos os arrebatasse daquele ambiente esquisito e os conduzisse para outro lugar, qualquer lugar que não fosse cinza, frio e opressivo. A técnica funcionava quase perfeitamente.

Em outras ocasiões, o lúdico ficava por conta das pacientes velhinhas. Mas era um lúdico diferente, mais sofisticado — e menos engraçado. Talvez nem fosse lúdico. Afinal, é um procedimento padrão: não se faz Raio-X de Tórax com a parte superior do corpo vestida. Obrigatoriamente, todos os pacientes devem se livrar de camisas, casacos, suspensórios, sutiãs, brincos, correntes, colares e tutti quanti com algum potencial de reagir à radiação e estragar a radiografia.

Algumas pacientes entravam na sala dos exames com tamanha afoiteza para terminar o procedimento que, antes que eu gentil e respeitosamente as guiasse para trás de um biombo a fim de tirarem os sutiãs, elas já punham a mão por debaixo do tecido fino da roupa hospitalar e, com dois ou três puxões, livravam-se da peça íntima.

Evidentemente, eu estava sob a supervisão constante dos técnicos veteranos. Na verdade, mais do que uma simples “supervisão técnica”: um deles se arvorou a me ensinar mais do que anatomia humana e posicionamento radiológico. Era um sujeito alto, careca e barrigudo — a triste figura da frustração do homem de meia-idade.

A certa altura de uma conversa sobre a realidade “socioeconômica” do país, o sujeito anunciou (sem que ninguém tivesse perguntado): — “Sabe, rapaz, eu sou comunista, socialista e tudo o que você possa imaginar. Eu luto contra o sistema e por um pouco de justiça social”. Sentindo-se em casa, e com a necessária autoridade para isso, o sujeito quis saber por que eu ainda não havia entrado na faculdade.

— “É complicado” — respondi, esperando que ele entendesse que eu não poderia dar uma resposta rápida.

— “Eu entendo…” — disse ele — “foi por falta de dinheiro, né, filhão?”.

— “Na verdade, não!” — tratei de responder.

Dando mostras evidentes de que não havia me entendido, o homem careca desatou a descrever, não sem doses generosas de confusão, as críticas mais ferrenhas contra aquilo que ele chamava de “sistema”.

— “Sabe, meu rapaz, você não precisa ficar com vergonha. Hoje em dia nós temos as faculdades públicas. Aliás, por que você não tentou entrar numa universidade estatal? Com essa idade você já devia ter concluído a faculdade”.

O homem não parava, ao mesmíssimo tempo em que criticava o “sistema” por sua intromissão na vida do indivíduo, metia-se a dar pitacos na minha vida; a
aconselhar-me sobre os meios mais eficientes de ascensão social. A certa altura, tentou inclusive buscar o apoio teórico de seus mestres intelectuais:

— “Você já leu Karl Marx, meu filho? Estou vendo que você é um rapaz inteligente, estudioso… Pois então: leia Marx, pra saber mais sobre a luta contra o sistema. Aliás, eu recomendo que você leia um dos principais livros escritos por ele: A República. Eu o tenho lá em casa, se você quiser eu posso emprestá-lo”.

— “Qual livro mesmo?” — perguntei cinicamente.

— “A República. É sobre a organização social e a luta contra o sistema. Foi o Marx quem escreveu” — esclareceu.

— “Tem certeza de que Marx é mesmo o autor do livro?” — perguntei com um sorriso malicioso nos lábios.

O sujeito espremeu os olhos e lançou um olhar oblíquo para o chão, como quem tentasse invocar alguma lembrança longínqua. Não me respondeu, preferindo retomar seu tema favorito:

— “Eu sei que você não tem condições financeiras, meu filho; mas você tem de lutar contra o sistema, tem de lutar pelos seus direitos!”.

Aquilo já foi demais! Encolerizei-me, mas consegui disfarçar direitinho. O careca não demonstrou ter percebido a alteração do meu estado de espírito. Preferi encerrar a conversa com uma resposta direta:

— “Olha, amigo, eu não sou um número numa planilha pra você me olhar com essa arrogância de burocrata. Eu acredito que a vida humana seja muito mais complexa do que você possa imaginar. Reduzir a complexidade da vida à sua perspectiva meramente econômica — isso é coisa de gente que evidentemente enxerga mal a realidade. Se ainda não ingressei na universidade foi porque não encaro a vida intelectual a partir desse descabido prisma socioeconômico. A vida de estudos é coisa séria, é para pessoas vocacionadas; não é apenas uma forma de ganhar dinheiro ou ascender socialmente, fazer valer os seus direitos e vencer o sistema. Poderíamos falar mais a respeito, mas sinceramente eu duvido que você vá entender. Além do mais, chega de conversa: acabou de chegar mais uma paciente”.

***


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