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terça-feira, 28 junho, 2022

CRÔNICA | Mas qual era a rima?

Revista Mensal
Vitor Marcolin
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

“Pessoal, primeiramente aquele bom dia abençoado por Deus!”

Naquele submundo que nós, orgulhosos moradores da metrópole, chamamos de metrô ouvem-se muitas vozes, vê-se muita gente todos os dias, invariavelmente. A voz que mais se destaca do falatório é o timbre feminino bilíngue dos alto-falantes: em português e inglês a mulher diz para fazermos isto, para evitarmos aquilo, para seguirmos por aqui… Urge precaver-se contra os trombadinhas. Para a doce voz feminina do metrô é ilegal dar esmolas aos pedintes. E, se o sujeito é surdo, que ele não pense que estará livre dos imperativos do alto-falante; há placas com as mesmas instruções por todas as dependências do metrô.

Aparentemente, no entanto, há meios relativamente eficazes de escapar daquele ambiente controlado: jornais, revistas, livros e, mais recentemente na História, smartphones. Basta plugar os fones nos ouvidos ou abrir um livro para o sujeito ver-se livre da lobotomia — ou quase. Quem quer que tenha tido a experiência de ler no metrô sabe que não é fácil pelejar contra um exército tão numeroso de distrações. Para começar, o comboio vem apinhado de gente; exceto pelas tréguas dominicais, quando as pessoas não vão à Missa, o trem é sempre cheio.

Depois, se o sujeito tem sorte e consegue um lugarzinho para sentar, ainda tem de lutar para se manter concentrado na leitura a despeito dos shows improvisados dos saxofonistas, flautistas, violinistas, alabês, gaiteiros; isso sem falar nos dançarinos de hip-hop que, com os seus saracoteios, só faltam arrancar o nariz dos mais distraídos. Na última incursão que fiz até a Sé fui alvo fácil de dois assaltantes: à mão armada com uma flautinha doce eles roubaram a minha atenção. Eram dois dançarinos de um estilo ainda inominável que frequentemente se apresentam nos comboios da linha vermelha. Geralmente, consigo livrar-me deles, mas desta vez não deu.

Eu estava sentado, lendo uma tradução capenga de um título conhecido do George Orwell. O trem para, as portas abrem-se para a multidão. “Pessoal, primeiramente aquele bom dia abençoado por Deus! Nós não queremos atrapalhar ninguém; esta, pessoal, não é a nossa intenção, okay? Queremos apenas mostrar um pouco do nosso trabalho, da nossa arte. Não é fácil pra nós, mas com fé em Deus…”. O rapaz que apresentava a dupla devia ser membro da mesma confraria dos artistas do metrô, porque, mutatis mutandis, o seu discurso era o mesmo de todos os outros que se apresentavam lá, inclusive dos pedintes.

De nada adiantou fingir concentração na leitura. Aproximaram-se de mim improvisando uma rima boboca mas divertida, era sobre um sujeito que lia no metrô; alguém com “pinta de inteligente, estudioso” e qualquer outro sinônimo de intelectual. Tudo aquilo era descabido, eu poderia estar a ler um livro de culinária, uma revista de fofoca ou a autobiografia da mulher sapiens — aquela que se gaba de “puxar a brasa para a minha sardinha”. Mas, não. Talvez eles tenham reconhecido o livro pela capa… o grande irmão, o novidioma, Winston Smith… o sistema… Não sei. Estava precavido: ofereci as moedas antes do fim da apresentação. Só me chateio de não conseguir lembrar da rima.

***


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