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sábado, 28 maio, 2022

CRÔNICA | 28

Revista Mensal
Vitor Marcolinhttps://lletrasvirtuais.blogspot.com/
Apenas mais um dos milhares de alunos do COF. Non nobis Domine.

Reflexões de aniversário

Começo por dizer que o dia amanheceu nublado. Abri o YouTube a fim de assistir à homilia diária do padre amigo, mas lembro que é Domingo: a homilia tem quase meia hora de duração. Desisto. Ouço música: Tio Bilia faz maravilhas na gaita de oito baixos. Que paulista ouve, nas manhãs de Domingo, música tradicional gaúcha? Eu. Basta. Lá pelo início da adolescência, ganhei de presente de meu pai uma coletânea de músicas clássicas em CD. Vieram a título de brinde na revista Seleções Reader’s Digest, e a primeira que escutei foi a 40ª sinfonia de Mozart.

Não havia nada de especial naquela sinfonia, mas eu a ouvi repetidamente até quase furar o CD. Depois veio Bach e a vontade de morrer para vê-lo no Céu. Numa ocasião, quando eu já ouvia música no computador, de tanto clicar no botão de replay, consegui decorar o poema de Schiller que inspirara Beethoven a compor a sua nona sinfonia: Alegria, formosa centelha divina, filha do Elísio… Minha mãe, impressionada, dizia: “Que negócio é esse?! Esse menino tá falando alemão?!”. Mas hoje pela manhã ouvi Tio Bilia. Quem se importa? Eu. Basta.

“Não sei há quanto tempo tenho consciência de ti, Eu“, pensei. Fechei o YouTube, desconectei os fones de ouvidos e fiz um movimento oblíquo, como que ensaiando levantar-me da cama. “28 anos”. Os acordes da gaita de oito baixos ainda reverberavam dentro da minha cabeça quando eu disse o “amém” da Ave Maria. “28 anos”…

Busquei na memória as minhas primeiras lembranças: tudo veio caótico. Desisti do esforço anamnésico e me entreguei à música que ainda existia em mim. Acho que é um sinal de maturidade passar a ter gosto pelas gaitas gaúchas depois de tantos anos ouvindo os violinos austríacos. Conheço gente para as quais isto é blasfêmia; são sujeitos que, quando escrevem na rede social, pretendem mudar o mundo com um parágrafo. Tio Bilia, Tio Mozart, Tio Bach…

“28 anos”…

Eu“…

São pensamentos que pegam no sujeito pelo pescoço e exigem dele uma explicação. “O que você vai fazer com o tempo que lhe foi dado?”. Quase nada, eu responderia. Uma única coisa: atender à minha vocação. Esta é “toda a Lei e os Profetas“. Quanto mais o tempo passa, mais o sujeito fica paciente, conformado, consciente das suas reais capacidades. E quem se importa com a sua vocação, com o seu dever, com as suas responsabilidades, com o seu talento? Eu. Basta.

***


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