O mal-estar da população com a grande imprensa (aquela feita com muito dinheiro, muitos recursos, muita infra-estrutura) se deve à inépcia da mesma em compreender seus pensamentos e sentimentos. Assim como a esquerda já não fala com o povo, a imprensa tem perdido essa conexão.

De início, tanto Jovem Pan como Antagonista eram caros aos conservadores que hoje apoiam o governo Bolsonaro. O espaço concedido a Gustavo Bebbiano (ministro caído em desgraça ao deixar notar que agiu em causa própria, levando Bolsonaro ao PSL) pelo programa “Pingos nos Is”, contudo, acarretou as primeiras críticas a Felipe Moura Brasil.

Bebbiano era a fonte do jornalista. Os indivíduos que se exprimem via redes sociais aprovaram a queda de Bebbiano e satirizaram a atitude de Felipe, que recebeu mal a expressão massiva de repúdio nas redes.

Meses depois, publicou na revista Crusoé uma reportagem afirmando a existência de uma “milícia organizada” pró-governo. A base de sua investigação residia em conversas informais extraídas de grupos de whatsApp. A reportagem se propunha a descrever o modus operandi da “rede”. Na prática, é um compêndio de diálogos soltos mais ou menos efusivos.

“Felipe Moura Brasil tenta dar ares de escândalo a algo comum numa democracia – a reunião entre pessoas com algumas afinidades para discutir política”

Afirmou em resposta à matéria Otavio Fakhoury — não na própria Crusoé, claro. Não se concedeu direito de resposta às personalidades mais atacadas. A íntegra está publicada na página do Movimento Avança Brasil, iniciativa da qual é conselheiro. Mas a Crusoé não se retratou.

O que move as mídias conservadoras?

Felipe Moura Brasil parece realmente convencido de que há uma “milícia organizada”. Talvez desconheça como as diversas iniciativas independentes surgem e são mantidas. Talvez nunca tenha pensado nos motivos que levam os vários indivíduos que apoiam o governo a desconfiar das investidas em série, quase sempre infundadas, espalhadas canhestramente por aí.

A editora-chefe desta incipiente iniciativa, por exemplo, tem como parâmetro de análise política a premissa clássica: um governo deve ser avaliado pelo seu inventário, isto é, pelo estado em que entrega ao povo o país, comparado ao estado em que o recebeu. A premissa está em Joaquim Nabuco, mas a sabedoria é antiga.

Em que estado o governo Bolsonaro recebeu a máquina pública brasileira? Em que estado vai entregá-la? Objetivamente, qual será o quadro final? As querelas nas quais vai tropeçar pelo caminho são relevantes, diante do quadro geral?

O jornalismo vive de notícias alarmantes, furos e escândalos. Já a verdade é filha do tempo, não da sede por novidades de uma audiência. Contudo, ao pôr em prática esse aprendizado, corro o risco de ser taxada como “adesista” por inteligências menores.

“Adesista” é a etiqueta colada no rosto de veículos como Crítica Nacional, Conexão política e Terça-Livre, os quais ora se ocupam, em grande medida, de rebater a desinformação e diluir na imaginação dos consumidores de notícias as falsas imagens do governo que a grande mídia espalha. Os três veículos escolhem verificar a bandeja da balança que a grande imprensa ignora. Em virtude desta deliberação, são desqualificados.

Há muitos motivos em jogo.

Parte da imprensa rica e poderosa é movida pelo exaspero em desestabilizar um governo que lhes nega “pagar o pedágio”. A imprensa se habituou a manter lucros astronômicos com uma mãozinha do estado: uma gorda verba em publicidade. Relação promíscua evitada por governos austeros. Os conservadores não pagam pedágio.

Jovem Pan

O caso da Jovem Pan é controverso, uma vez que a rádio recebe verba publicitária expressiva do governo do estado de São Paulo, cujo líder atual já exprimiu intenção de concorrer à presidência da república em 2022.

Embora a emissora tenha um público fiel, muitos se perguntam se a verba carimbada pelo PSDB chega a influir no teor das manchetes associadas às análises e notícias veiculadas pela empresa.

Nos grupos de whatsapp que Felipe Moura Brasil vê como “esquemas de milícia organizada”, a insistência da Jovem Pan sobre uma improvável amizade espúria entre Toffoli e Bolsonaro virou piada, como evidencia a imagem ao lado.

Felipe Moura Brasil

A famigerada matéria sobre “milícias bolsonaristas”, publicada em outubro na revista Crusoé, valeu-lhe o apelido Chilique Moura Brasil, cunhado pela mordaz influenciadora Paula Marisa. Infelizmente, Felipe não está nos grupos que desqualifica. Um tema recorrente em muitos deles (eu faço parte de uns 7) é a ausência de críticas à gestão Dória no estado de São Paulo.

Esta semana, conservadores e suas tias questionam-se no WhatsApp quando Felipe Moura Brasil vai convidar Gustavo Bebbiano para esclarecer a população sobre o dossiê fraudulento contra Luiz Philippe de Orléans e Bragança, montado para obstruir sua candidatura a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro.

Muita implicância de nossa parte, esperar que um jornalista, por profissionalismo, admita deslizes? Parece que sim. Recentemente, até o veterano Augusto Nunes andou recebendo invertidas de seu chefe de redação…

Enquanto Felipe insiste em Toffoli e Nando Moura só tem olhos para o Aras, a reputação de Luiz Philippe de Orléans e Bragança é atacada. Será que o fato de ele presidir a subcomissão de reforma política tem algo a ver com isso? O teor da mais importante reforma para conter as garras do centrão não é digna de pauta? Bebbiano é mais importante para o Brasil que a reforma política defendida por Luiz Philippe?

O problema mais grave do jornalista, contudo, é a perda de conexão com a fatia da audiência buscando debates consistentes. O programa Morning Show veicula análises rasas, dignas de ferir a inteligência de qualquer colegial pouco aplicado.

Se o propósito é entreter, perfeito. Emílio Surita mantém a audiência do Pânico pela clareza de propósitos. Quanto a Moura Brasil, olhar torto para quem se empenha em elevar o nível do debate (como muitos “adesistas”) e fechar os olhos para a mediocridade dos quadros que se chefia afeta mesmo a credibilidade.

Antagonista

Quando Alexandre de Moraes e Dias Toffoli deram uma marretada seca na revista Crusoé, os indivíduos taxados de “milicianos virtuais” saíram correndo para martelar o gesto injusto dos ministros. Ninguém estava ligando para o dueto blasé Diogo Mainardi e Fernando Sabino, mas todo mundo ficou louco com o ato inaceitável do STF contra o trabalho de ambos.

Meses antes da pancada ilegal desferida pela suprema corte contra dois indivíduos que tocam uma empresa de comunicação independente, um deles entrara em conflito aberto e direto com Allan Dos Santos, figura central do Terça-Livre. Diogo Mainardi o descreveu como “blogueiro sujo”, em alusão maliciosa ao trabalho de sites financiados pelo PT antigamente.

“Sou dono do maior portal conservador da América-latina e não recebo nenhum centavo do governo”

Afirmou Allan dos Santos durante a CPI das Fake News. A afirmação saiu no Antagonista? Claro que não. Se atacar é permitido, reconhecer o ataque como um erro parece ser algo a evitar.

Os chefes e colaboradores da página fizeram carreira na grande imprensa e trabalham dentro do “padrão oficial”. Consequentemente, não fazem a menor ideia de como veículos criados por conservadores, há muito tempo praticamente sem espaço na imprensa estruturada, surgem e funcionam.

Os juízos equivocados sobre Allan dos Santos e demais pessoas decorre, no final das contas, de arrogância, incompreensão e incompatibilidade de ideias políticas.

Crusoé e Antagonista, para quem sabe ler nas entrelinhas, não são veículos conservadores. Exprimem o pensamento do centro político, reivindicado pelos liberais. Não poderiam ter apoiado um programa político socialista. Mas tampouco julgam com a proclamada “neutralidade” um governo conservador.

Contra os Movimentos

A Manifestação de 26 de maio de 2019 dividiu as águas do ativismo político diante do povo. VPR e MBL taxaram de “adesistas” os movimentos conservadores que lideraram os atos. Perderam ibope, arrependeram-se e passaram a atacar a “concorrência”.

O problema é que convicções políticas não são negociáveis. Mercado pouco volátil onde o marketing tem funções limitadas, a queda de máscaras não tem volta.

Em nota recente, o Antagonista faz eco à narrativa propagada pelo MBL de que os movimentos conservadores mais relevantes se reduzem a “bolsonarismo”.

“Alguns dos grupos dispostos a coletar assinaturas para o partido de Jair Bolsonaro – entre eles, Nas Ruas, Avança Brasil e Movimento Brasil Conservador – resolveram convocar para o dia 17 um ato pelo impeachment de Gilmar Mendes”.

Qual a relação entre as duas atitudes?

Que movimentos conservadores estejam dispostos a coletar assinaturas para apoiar um partido conservador, portanto alinhado ao tipo de política defendida por todos eles, beira o previsível. Já exigir o impeachment de Gilmar Mendes é uma questão de honra para qualquer pessoa que faça uso do cérebro. Tanto que… será que MBL e VPR vão perder essa?

Breve, enquanto os conservadores acatam as reformas de Paulo Guedes de braços abertos; enquanto Ernesto Araújo defende a aliança liberal-conservadora que este governo exprime, muitos liberais (talvez confusos após tantos anos sendo engambelados pelo PSDB), decidem que os conservadores são um anverso do PT a ser repudiado.

Enquanto isso, seguimos trabalhando no que realmente importa: observar a sociedade e solidificar a conexão com o povo. Por falar nisso, como sentem e pensam aqueles que, cansados do trabalho ou atentos à vida privada, apreciam quietos o debate todo? Será que se deixarão enganar por essa nova esquerda que surge?

É o que se verá no próximo domingo, como prévia; em definitivo, nas eleições municipais do ano que vem.


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4 Comments

  1. Só uma errata: Quem primeiramente apelidou Felipe Moura Brasil de Chilique Moura Brasil foi a jornalista e professora de Jornalismo Regina Vilella. Que inclusive lançou uma live no youtube usando o apelido no titulo.

  2. Só uma errata: Quem primeiramente apelidou Felipe Moura Brasil de Chilique Moura Brasil foi a jornalista e professora de Jornalismo Regina Vilella. Que inclusive lançou uma live no youtube usando o apelido no titulo.

  3. Excelente artigo, colocações bem precisas e diretas ao ponto. Não podemos desconsiderar o fato de que o pujante São Paulo é muito mais do que apenas o carro-chefe da economia brasileira. O Estado tem sido também o Norte da direção política em termos da condução do processo de resultados, os quais terminam por influenciar enormemente os destinos políticos da democracia da Nação Brasileira.
    Assim, é forçoso reconhecer que lamentavelmente nas últimas décadas desse processo de espoliação do povo brasileiro, esta gigante força política contribuiu enormemente para que através de barganhas espúrias a quadrilha organisada permanecesse onde esteve por tão longo tempo, e por muito pouco não nos levou ao caos absoluto. É inquestionável a atuação do PSDB e do MDB neste sentido, para mencionar apenas dois elemento mais fortes do complexo tabuleiro. O enfático e excessivo falatório contra o tão propalado “curral eleitoral nordestino”, apesar de existente, é uma tática disfarçada para encobrir o óbvio desta realidade.
    E o que é mais notório no jogo sujo desse intrincado quebracho-cabeça, é que os atores dessa panacéia se enchergaram como que a bola da vez ou os herdeiros natos e irremovíveis na continuidade do troca-troca. É o que se pode notar claramente em suas atuações e manobras sutis, muitas vezes na calada da noite, desde o nascedouro do processo de Impeachment da estocadora de vento.
    E observe-se que mesmo com o andar da carruagem, as mudanças dos ventos, as pedradas e tempestades, eles ainda assim não desistem do sonho que já virou pesadêlo. E não desistirão, ao contrário os desatinos tornar-se-ão cada vez mais ridículos e hilariantes. Os vexatórios não sei quantos por cento agraciados ao candidato da primeira agremiação política nas últimas eleições presidenciais, não foram suficientes para mostrar-lhes o quanto a nova mentalidade brasileira os repudia. Assim, incapazes de enchergar os fatos e a dura realidade que lhes bate às portas, é perfeitamente entendível o desespero que os assalta.
    É neste sentido que continuaremos a ver os Felipes Mouras da vida, os Dorias, os MBLs, os Antagonistas, as Joice Hasselmans, as Jovens Pams e outras imbecilidades insistirem na mesma lenga-lenga. Porém o povo brasileiro está como aquele caachorro que tem medo de linguiça por já ter sido mordido por cobra. (Antonio Leite, de Nova Iorque)

  4. Excelente artigo, colocações bem precisas e diretas ao ponto. Não podemos desconsiderar o fato de que o pujante São Paulo é muito mais do que apenas o carro-chefe da economia brasileira. O Estado tem sido também o Norte da direção política em termos da condução do processo de resultados, os quais terminam por influenciar enormemente os destinos políticos da democracia da Nação Brasileira.
    Assim, é forçoso reconhecer que lamentavelmente nas últimas décadas desse processo de espoliação do povo brasileiro, esta gigante força política contribuiu enormemente para que através de barganhas espúrias a quadrilha organisada permanecesse onde esteve por tão longo tempo, e por muito pouco não nos levou ao caos absoluto. É inquestionável a atuação do PSDB e do MDB neste sentido, para mencionar apenas dois elemento mais fortes do complexo tabuleiro. O enfático e excessivo falatório contra o tão propalado “curral eleitoral nordestino”, apesar de existente, é uma tática disfarçada para encobrir o óbvio desta realidade.
    E o que é mais notório no jogo sujo desse intrincado quebracho-cabeça, é que os atores dessa panacéia se enchergaram como que a bola da vez ou os herdeiros natos e irremovíveis na continuidade do troca-troca. É o que se pode notar claramente em suas atuações e manobras sutis, muitas vezes na calada da noite, desde o nascedouro do processo de Impeachment da estocadora de vento.
    E observe-se que mesmo com o andar da carruagem, as mudanças dos ventos, as pedradas e tempestades, eles ainda assim não desistem do sonho que já virou pesadêlo. E não desistirão, ao contrário os desatinos tornar-se-ão cada vez mais ridículos e hilariantes. Os vexatórios não sei quantos por cento agraciados ao candidato da primeira agremiação política nas últimas eleições presidenciais, não foram suficientes para mostrar-lhes o quanto a nova mentalidade brasileira os repudia. Assim, incapazes de enchergar os fatos e a dura realidade que lhes bate às portas, é perfeitamente entendível o desespero que os assalta.
    É neste sentido que continuaremos a ver os Felipes Mouras da vida, os Dorias, os MBLs, os Antagonistas, as Joice Hasselmans, as Jovens Pams e outras imbecilidades insistirem na mesma lenga-lenga. Porém o povo brasileiro está como aquele caachorro que tem medo de linguiça por já ter sido mordido por cobra. (Antonio Leite, de Nova Iorque)

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