19.4 C
São Paulo
quinta-feira, 28 outubro, 2021

Conheça os cientistas que expuseram falhas nas Urnas Eletrônicas de 1ª geração

Revista Mensal
Roberto Lacerda
Roberto Lacerda Barricelli é jornalista, assessor e historiador. Foi correspondente do Epoch Times e colaborador em diversos jornais, como Jornal da Cidade Online, O Fluminense, São Carlos Dia e Noite, Diário da Manhã, Folha de Angatuba e Jornal da Costa Norte.

Especialistas integram quadros científicos de importantes universidades brasileiras como USP, UNICAMP e UFMG, além de publicarem artigos nos jornais oficiais dessas instituições e até livro sobre o tema

A discussão acerca da falta de auditoria e segurança das Urnas Eletrônicas se arrasta desde sua primeira utilização no Brasil, em 1996, segundo artigo científico do Jornal da Universidade de São Paulo (USP) intitulado ”Cientistas explicam como as urnas eletrônicas podem ser mais seguras”, publicado em 25 de Setembro de 2018.

Ainda 11 de maio do mesmo ano, no mesmo Jornal da USP, o professor titular aposentado da Escola Politécnica da USP e engenheiro eletrônico, Walter Del Picchia, publicou o artigo científico “As urnas brasileiras são vulneráveis“, no qual elucida a fragilidade do sistema exclusivamente eletrônico de votação, através de sua experiência e da “constatação técnica de especialistas em Segurança de Dados”.

Professor Walter Del Picchia, titular aposentado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI/USP)

O professor e especialista informa que as urnas são fraudáveis, pois não passam em testes básicos, inclusive organizados pelo próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pela UNICAMP e pela Polícia Federal, como o realizado em Novembro de 2017.

[…] testes promovidos pelo próprio TSE-Tribunal Superior Eleitoral demonstraram cabalmente que nossas urnas são fraudáveis. Elas não passam no mais simples teste de Segurança de Dados – matéria complexa e especializada, desconsiderada pelos que afirmam esta inexistente segurança.

Professor Walter Del Picchia, titular aposentado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI/USP)

Teste de 2017 revelou vulnerabilidade

Em Novembro de 2017, uma equipe organizada pelo Professor Doutor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Diego Aranha, encontrou falhas e vulnerabilidades e conseguiram realizar um ataque que alterava código, inseria propaganda eleitoral na tela, porém, por insuficiência de tempo, chegaram muito próximos de alterar votos antes do armazenamento, numa eleição simulada, mas não conseguiram concluir a tarefa.

Conforme informado pelo Professor Doutor Diego Aranha, numa entrevista ao TecMundo, em 20 de Dezembro de 2017, foi possível alterar votos através de teste em um PC, utilizando réplica dos trechos relevantes do código de uma urna simulada.

Diego Aranha, posando para o pessoal da Motherboard / Foto: Helena Wolfenson

Na equipe ainda participaram o Doutor em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Pedro Yossis Silva Barbosa, o especialista da empresa de tecnologia e Big Data Hekima, Thiago Nunes Cardoso Carneiro, o Professor Doutor em Física Aplicada Computacional, pelo Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP) e Professor Adjunto do Departamento de Computação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Paulo Matias, e Caio Lüders, graduando do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Outra equipe que obteve sucesso nos ataques às urnas, durante o teste autorizado e verificado pelo TSE, foi composta por especialistas da Polícia Federal, sob a tutela de Ivo Peixinho, ao lado de um grupo coordenado pelo Professor Luis Antonio Brasil Kowada, Doutor em Engenharia de Sistemas e Computação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Um relatório técnico foi publicado pelo TSE em 12 de Dezembro de 2017, intitulado “Vulnerabilidades e sugestões de melhorias encontradas no Teste Público de Segurança 2017 sobre o Ecossistema da Urna“.

Cientistas defendem a impressão do voto

No Boletim 2006, ano 44, de 26 de Fevereiro de 2018, na editoria ”Espaço das Diferenças”, o portal da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicou o artigo ”Voto Inseguro”, para falar sobre o lançamento do livro O mito da urna: desvendando a (in)segurança da urna eletrônica, do professor e especialista em criptografia Jeroen van de Graaf, do Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG.

De acordo com o professor e especialista, os eleitores brasileiros não contam com o sigilo de seus votos, nem a possibilidade de auditoria da votação, sendo necessário confiar cegamente na idoneidade de um pequeno grupo de técnicos do TSE, que são os únicos possuidores das informações sobre as votações nas eleições.

Não é assim em lugar algum do mundo. Aqui, o mesário introduz os dados do eleitor no mesmo equipamento em que o eleitor digita seu voto. É obviamente um pecado. O correto seria dar a permissão para o voto e anotar a presença, num sistema diferente daquele em que o voto é registrado.

Professor e especialista em criptografia Jeroen van de Graaf, do Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG

O professor Jeroen van de Graaf integrou uma equipe de especialistas da Sociedade Brasileira de Computação (SBC),que analisaram o processo de votação, através de convite da Justiça Eleitoral. O diagnóstico não foi animador.

Naquele momento, constatamos a inviabilidade de uma verificação independente do processo, mas não fomos chamados para discutir o assunto”, conta. Ele esclarece que transparência, nesse caso, refere-se à verificabilidade, tanto no âmbito individual quanto no universal, em que todos se convencem da correção dos procedimentos. 

A urna baseia-se na filosofia de ‘segurança por obscuridade’, de acordo com a qual os detalhes do projeto de um sistema devem ser mantidos secretos. Essa filosofia certamente faz sentido em muitos casos, em contextos militares, por exemplo. Mas não cabe no processo eleitoral, que é central em uma democracia.

Professor e especialista em criptografia Jeroen van de Graaf, do Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG

Para o especialista do Departamento de Ciência da Computação da UFMG, a impressão do voto não é um retrocesso, mas uma necessidade para garantir a transparência e lisura das eleições.

A comprovação digital não possibilita auditoria. Como o eleitor tem certeza de que o seu voto não foi mudado? É preciso confiar cegamente na idoneidade da Justiça Eleitoral

Professor e especialista em criptografia Jeroen van de Graaf, do Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG

Para baixar o livro clique aqui!

E quem concorda com a necessidade de impressão do voto, para permitir a auditoria nas eleições, é o professor Mário Gazziro, pós-doutorando do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.

Professor Mário Gazziro (de chapéu)

No já citado artigo científico ‘ ‘Cientistas explicam como as urnas eletrônicas podem ser mais seguras”, publicado no Jornal da USP, em 25 de Setembro de 2018, Gazziro afirma a necessidade de adotarmos as urnas que permitem a impressão dos votos (hoje chamadas de ”2ª geração”), no lugar das urnas de 1ª geração.

Por que o registro em papel é um avanço? Porque é a única forma de garantir que os votos sejam auditados caso haja algum problema no registro eletrônico.

Professor Mário Gazziro, pós-doutorando do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos

Gazziro integra um grupo de cientistas que estudam as tecnologias eleitorais e organizou, em 2013, o 1º Fórum Nacional de Segurança em Urnas Eletrônicas, no ICMC.

Permitir a conferência do registro de voto do eleitor por meio da impressão em papel não é um retrocesso porque não significa inutilizar o voto eletrônico ou retornar à forma antiga de apuração manual.

Professor Mário Gazziro, pós-doutorando do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos

Com informações do Jornal da Universidade de São Paulo (USP), Boletim 2006, ano 44, de 26.02.2018, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Relatório Técnico ”Vulnerabilidades e sugestões de melhorias encontradas no Teste Público de Segurança 2017 sobre o Ecossistema da Urna’ do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e TecMundo


A ciência é, portanto, uma perversão de si mesma, a menos que tenha como fim último, melhorar a humanidade.

Nikola Tesla

Gosta de nosso conteúdo? Assine Esmeril, tenha acesso a uma revista de alta cultura e ajude a manter o Esmeril News no ar!

Esmeril Editora e Cultura. Todos os direitos reservados. 2021
- Advertisement -spot_img

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais do Autor

PATRIMÔNIO E MEMÓRIA丨O lusotropicalismo em Gilberto Freyre

Roberto Lacerda recorda o clássico "O luso e o trópico" para honrar a memória de Gilberto Freyre, cuja reflexão...
- Advertisement -spot_img

Artigos Relacionados

- Advertisement -spot_img