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domingo, 5 dezembro, 2021

Comenius: o pai do ‘ensino obrigatório’ que destruiu a Educação

Revista Mensal
Antonio Fernando Borges
Antonio Fernando Borges é escritor (Braz, Quincas & Cia. e Memorial de Buenos Aires, entre outros) e professor/consultor de Arte da Escrita.

Falam muito de Rousseau e Paulo Freire, mas quase ninguém menciona o verdadeiro criador da didática moderna: o bispo protestante Johann Amos Comenius. O Diabo em pessoa

O escritor italiano Alessandro Manzoni, no magnífico Os Noivos, escreveu que historiadores se comportam como soldados mercenários: na hora do saque, de olho no butim (que eles costumam chamar de “pesquisa de campo”), sempre dão preferência aos troféus mais chamativos e supérfluos – em especial, as batalhas e as intrigas políticas. É a forma que encontraram de disputar atenção com aqueles que fizeram a História que eles estão apenas contando. É também a “receita infalível” para passar ao largo das raízes profundas de onde brotam os acontecimentos que aparecem nos jornais do dia.

Na maioria das estantes sobre História da Educação, por exemplo, há muitas prateleiras dedicadas aos nomes mais “vistosos”, de Jean-Jacques Rousseau a Anísio Teixeira e Paulo Freire, e só as prateleiras mais discretas dão notícia daquele que foi, no entanto, um personagem-chave: o pedagogo e bispo protestante de origem tcheca Johann Amos Comenius (1592-1670). O verdadeiro pai da didática moderna – e, em vários sentidos, o Diabo em pessoa.

Já na Biblioteca de Borges, Comenius figura com destaque entre os famigerados “reformadores sociais”, os arautos de novos tempos que se multiplicavam como larvas no período final da Idade Média, aproveitando-se do declínio da ordem cristã e da “secularização do mundo”, supostamente anunciando um novo reino de Cristo – a chamada Novus Ordo Seclorum. Entre eles, havia gênios e loucos, homens santos e um bom punhado de criminosos – em suma, organizadores brilhantes e desordeiros coléricos. Em comum, tinham a mesma intenção insana de empunhar a chibata da Justiça divina e promover às pressas o anunciado Juízo Final.

Em certo sentido, tudo isso reencenava apenas um velho truísmo, e dos mais óbvios: de um modo ou de outro, estamos sempre no fim dos tempos – ou, pelo menos, no “apogeu” do período que nos coube viver. No fim da Idade Média, não era diferente: pregava-se a renovação, a mudança milenarista, e isso costuma aglutinar os tipos mais exóticos. E um desses esquisitões foi justamente Comenius – que dedicou a vida a “reformar o sistema escolar”, transformando a Educação milenar num “direito para todos”. O que não é propriamente um elogio…

Chamando para si o aspecto pedagógico da renovação milenarista de seu tempo, Comenius defendeu a necessidade de aplicar essa Nova Ordem também nas escolas – o que acabou alicerçando a famigerada Nova Ordem Mundial da qual, mais do que testemunhas, somos todos vítimas.

Muitos o citam, alguns o criticam e outros tantos o elogiam, mas raríssimos atribuem a Johann Amos Comenius a responsabilidade que é primordialmente dele, por fato e por direito: depois de sua passagem, a grama verde da Educação nunca mais brotou, no terreno árido do ensino universal e obrigatório. Porque essas duas palavras, quando unidas, costumam produzir perigosas faíscas, sob a capa de objetivos elevados: se a universalidade democratiza, a obrigatoriedade faz justamente o contrário, coletivizando as pessoas, sob a mesma garra tirânica.

No melhor estilo “aquilo deu nisso”: onde se anunciou a implementação de novos direitos, estabeleceu-se a mais cruenta das obrigações; em vez de se promover uma Educação virtuosa, impuseram-se currículos e, desde então, exigem-se diplomas numa escala que tende ao infinito (graduação, mestrado, doutorado e outros tantos pós-isso e aquilo). E tudo isso, acreditem, começou lá atrás, em Comenius.

Há vários livros do bispo-educador na Biblioteca de Borges – só para ilustrar, Labirinto do Mundo (1623), Novíssimo Método das Línguas (1647) e Porta Aberta das Línguas (1631) – mas sua obra mais conhecida, Didática Magna (1631), é também o melhor monumento-síntese de todo o projeto. Logo nas primeiras páginas, Comenius defende a implantação de um método universal de “ensinar tudo a todos”. Eis a ideia: “ensinar com tal certeza, que seja impossível não conseguir bons resultados”. E mais: ensinar rapidamente, “sem nenhum enfado ou aborrecimento para os mestres e os alunos”, e sobretudo “com sumo prazer para uns e para outros”.

Sendo cristão, Comenius queria que a religião estivesse no comando; mas, sendo protestante, pretendia que sua Reforma fosse igual à de Lutero – quer dizer, radical e “revolucionária”. Propôs, enfim, uma “educação para todos” e com a “colaboração de todos” – apregoando que todos deveriam ser enviados às escolas sem distinção, e não apenas os filhos dos ricos. Mas, trocando em miúdos, tudo isso significava apenas que o ensino deveria estar a cargo, não dos “mais doutos”, e sim de profissionais especializados. E assim começou toda a encrenca que chegou até nós.

O leitor atento não demora a perceber a isca atraente que disfarça anzol afiado: a promessa de uma experiência prazerosa mal consegue atenuar o desconforto de seu caráter impositivo. E, de fato, o sucesso da proposta diabólica residiu na sua aparente “racionalidade” – ou melhor, na sua argumentação falaciosa. Caso alguma dúvida reste, este trecho do livro a dissipa:

“Se um pai de família não cuida ele mesmo de tudo o que é necessário à administração doméstica, mas confia em vários colaboradores, por que também não deve fazer também neste caso [i.e., no caso do ensino]? Quando precisa de farinha, vai ao moleiro; de bebidas, ao taberneiro; de carne, ao magarefe; os pais raramente estão em condições de educar os seus filhos com proveito e raramente tem tempo para isso; seria mais útil instruir a juventude em grupos mais numerosos, porque maior é o fruto do trabalho e maior é a alegria quando uns tem o exemplo e o estímulo dos outros; (…) as coisas, para crescerem em abundância, devem ser geradas em local determinado: as árvores nos bosques, os peixes na água e os metais nas entranhas da terra nascem em grande quantidade”.

Trocando em miúdos: o “ensino obrigatório para todos” simplesmente destruiu a educação. Testemunhos e documentos da época mostram que, em muitos lugares, a mudança foi imposta pela força das armas, porque muitos cidadãos resistiram e trataram de proteger a integridade da família e a sanidade de seus filhos. Por falta de confiança nos historiadores – esses verdadeiros “caçadores de troféus” –, a História prefere falar pelos fatos, que costumam cumprir bem sua função, de representar o mundo real. É só olhar em volta: se a educação faz dançar os ursos, como dizia Leibniz, o máximo que o projeto de Comenius conseguiu foi produzir uma penca de miquinhos amestrados.


Os pais raramente estão em condições de educar os seus filhos com proveito e raramente tem tempo para isso; seria mais útil instruir a juventude em grupos mais numerosos

Didática Magna | Johann Amos Comenius (1592-1670)

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