Algumas coisas nunca mudam na política externa americana.

Embora se fale muito de uma “Grande Reinicialização” em termos de reconstrução da sociedade em linhas tecnocráticas após o COVID-19, a política externa dos EUA parece estar passando por sua própria “reinicialização”. Especificamente, parece estar revertendo à ordem intervencionista neoliberal das administrações pré-Trump. Uma das reversões mais palpáveis ​​à média neoliberal foi a nomeação pelo presidente Joe Biden de Victoria Nuland para o cargo de subsecretária de Estado para assuntos políticos do Departamento de Estado, no início de janeiro. 

Embora ela ainda esteja passando pelo processo de indicação, o simples fato de Nuland estar sendo considerada para este cargo no Departamento de Estado é um sinal revelador de que Washington (DC) não tem desejo de mudar os rumos de sua política externa. Nuland é neoconservadora ‘até a medula’¹. Seu histórico fala por si.

Durante a administração Bush, Nuland foi uma assessora-chave de política externa do vice-presidente Dick Cheney e mais tarde se tornou embaixadora dos EUA na OTAN, posição em que frequentemente defendeu que os membros da aliança militar reforçassem suas contribuições para as excursões da construção de nações no Afeganistão e no Iraque, pelos EUA. Seu próximo passo na política externa foi se tornar uma porta-voz do Departamento de Estado durante o governo Obama, quando a então secretária de Estado Hillary Clinton pressionava por uma mudança de regime na Líbia e na Síria.

No entanto, onde Nuland realmente se destacou foi em sua posição como subsecretária de Estado para assuntos europeus e da ‘Eurásia’², onde ajudou a orquestrar um golpe na Ucrânia em 2014. Compreender a política externa americana desde o colapso da União Soviética é a chave para perceber que Nuland é uma escolha perigosa de política externa. A Ucrânia pós-soviética foi caracterizada por episódios repetidos de instabilidade política e corrupção generalizada. Esses fatores tornaram o país suscetível à interferência de atores externos, como Rússia, União Europeia e Estados Unidos da América. De uma administração para outra, os presidentes ucranianos fizeram gestos para o Ocidente ou para a Rússia.

Uma das maneiras pelas quais o Ocidente tentou estender sua influência após o fim da Guerra Fria foi usando a Organização do Tratado do Atlântico Norte³ como um veículo para a expansão para o leste na esfera de influência tradicional da Rússia. No início da década de 1990, os Estados Unidos prometeram inicialmente aos líderes russos que a OTAN não tinha intenção de se expandir para o leste, no quintal da Rússia. Mas, para uma superpotência intoxicada pelo desejo de estender sua influência ao exterior a todo custo, a promessa de contenção na antiga esfera soviética era, na melhor das hipóteses, duvidosa.

A primeira queda de braço⁴ geopolítica da OTAN, após o fim da União Soviética, foi o bombardeio da Iugoslávia em 1999, fazendo com que muitos membros do sistema de segurança russo desconfiassem das ambições geopolíticas da OTAN na região. Além disso, os Estados Unidos da América deram uma guinada de 180 graus e decidiram defender a incorporação de países como Polônia, Hungria, Estônia, Albânia e Croácia, entre outros, ao guarda-chuva de segurança da OTAN. O que começou como uma aliança formada por doze membros fundadores, agora compreende trinta nações.

Intoxicada por uma mentalidade triunfalista típica das instituições ocidentais na era pós-soviética, a OTAN continuou a pressionar para tirar os países da órbita russa com a perspectiva de ingressar na aliança militar. Como todas as aventuras expansionistas em geopolítica, os esforços da OTAN acabaram encontrando limites severos.

Os casos da Geórgia e da Ucrânia são instrutivos. O governo dos Estados Unidos da América exerceu sua influência na Geórgia (2008) e na Ucrânia (2014) para  induzir suas adesões⁵ à OTAN. As esperanças americanas de adicionar novos membros à OTAN foram frustradas quando a Rússia rebateu essas maquinações com suas próprias ações militares na Ossétia do Sul e na Crimeia, pondo fim ao monopólio ocidental do uso da força na política mundial. Para a Rússia, esses países são de importância estratégica e estão dentro de sua esfera de influência tradicional, por isso ela justificou suas ações pela defesa de seus interesses estratégicos contra a influência ocidental.

No último caso da Ucrânia, Nuland estava intimamente envolvida em fomentar a agitação enquanto era subsecretária de Estado para Assuntos Europeus e Eurasianos. O que foi bastante irônico naquele período foi o desejo original do governo Obama de promover um “reinício” das relações com a Rússia. No entanto, as maquinações de Nuland como subsecretário de Estado para Assuntos Europeus e Eurasianos frustraram possíveis planos de reaproximação entre a Rússia e os Estados Unidos.

Ao final de 2013, a Ucrânia foi palco de protestos depois que o governo ucraniano, sob a liderança do presidente Viktor Yanukovych, se recusou a assinar um acordo de associação com a União Europeia. Ao invés disso, Yanukovych escolheu fortalecer o relacionamento da Ucrânia com a Rússia e a União Econômica da Eurásia; um bloco geoeconômico formado por países da Europa Oriental, Ásia Central e Ásia Ocidental, aos quais os governos do Atlântico costumam ser hostis. O governo russo tentou adocicar o acordo com a Ucrânia oferecendo descontos nos preços da energia e US$15 bilhões em ajuda financeira.

O movimento de Yanukovych fez com que o Ocidente levantasse as sobrancelhas⁶, e pessoas como Nuland e entidades estrangeiras associadas procuraram maneiras de derrubar seu governo. Aproveitando os protestos que se seguiram, motivados pela percepção de corrupção e abuso político por parte do governo Yanukovych, Nuland e companhia fizeram questão de aumentar a pressão sobre o presidente em exercício. O que começou como um conjunto de protestos orgânicos, se transformou em um cabo de guerra geopolítico entre atores externos. No processo, Nuland ganhou notoriedade depois que um telefonema entre ela e o então embaixador dos Estados Unidos na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, vazou para o público e se tornou público no YouTube. Durante essa ligação, Nuland e Pyatt discutiram quem deveria ser o sucessor de Yanukovich. Em 22 de fevereiro de 2014, depois que os protestos saíram do controle e a ordem começou a ruir na Ucrânia, Yanukovych renunciou e posteriormente fugiu para a Rússia em busca de refúgio.

Os arquitetos da mudança de regime esperavam uma transição política suave na Ucrânia, mas o que se seguiu foi qualquer coisa, menos estável. Após a partida de Yanukovych, a Rússia procedeu à anexação da Crimeia. Pouco depois, eclodiu um conflito armado na região de Donbass, na Ucrânia. Esta região tem minorias étnicas russas significativas, juntamente com um número considerável de russos, enquanto a primeira é predominantemente russa em termos etnolingüísticos. A proteção de seus pares foi um fator-chave que motivou a intervenção da Rússia nessas regiões.

A possibilidade de a Ucrânia aderir à OTAN, após as manifestações Euromaidan era um risco que o Estado russo não iria contemplar à luz das duas décadas de alargamento da OTAN no seu próprio quintal. Até agora, a guerra russo-ucraniana custou as vidas de mais de 10.300 pessoas, deixou 24.000 feridos e deslocou mais de 1,5 milhão de pessoas. Uma crise que poderia ter sido evitada se os EUA não tivessem metido o nariz nos assuntos internos de terras distantes, mandarins de política externa como Nuland não levaram em conta os interesses geoestratégicos muito reais da Rússia e até onde iria para defendê-los.

Nos perguntemos o seguinte: como reagiriam os Estados Unidos se países rivais como a China ou a Rússia planejassem um golpe no México, com a intenção de instalar um candidato presidencial preferencial contra os interesses dos Estados Unidos e os desejos dos eleitores mexicanos? Da mesma forma, DC provavelmente ficaria furioso se as grandes potências emergentes instalassem estados clientes além da fronteira na bacia do Caribe. Mas a política externa dos EUA é governada por outros critérios. Para o governo dos EUA, o mundo inteiro é uma caixa de petri, para experiências bizarras de mudança de regime, independentemente das consequências.

Os delírios de mudança de regime estão profundamente enraizados na classe política estrangeira. Tanto é verdade que orquestrar erros de política externa é um exemplo de “fracasso para a frente“, em que os líderes políticos não são responsabilizados por suas políticas fracassadas e, em vez disso, são recompensados ​​com benefícios de maior prestígio. Na verdade, infligir danos maciços no exterior é a melhor maneira de subir na hierarquia da política externa em Washington, como demonstra a nomeação de Nuland como subsecretária de Estado para Assuntos Políticos. Algumas coisas nunca mudam.

Da mesma forma, falhas na política externa acabam sendo empreendimentos lucrativos para grupos de interesse bem conectados. O mau comportamento da América na Ucrânia foi uma bênção para os falcões vorazes do Pentágono. A vitória decisiva da Rússia na Crimeia e o ressurgimento da China proporcionaram um terreno fértil para a Estratégia de Defesa Nacional de 2018, do Pentágono, que impulsionou a política externa da América do combate ao terrorismo ao envolvimento em um conflito de grandes potências. Isso significa mais habilidade e orçamentos maiores para os empresários de defesa⁷.

Como acontece com toda a perfídia que emana de Washington, há uma adesão bipartidária significativa. Apesar da retórica de contenção de Donald Trump na campanha eleitoral, as ações de seu governo contam uma história mais sombria. A administração Trump estava mais do que disposta a destruir a histeria de ‘Rússia Gate’, instalando uma base de mísseis na Romênia, destacando tropas adicionais para a Polônia, impondo sanções significativas à Rússia, fornecendo ajuda letal na forma de mísseis antitanque Javelin para a Ucrânia, e até mesmo intensificando as tensões com os mercenários russos na Síria.

As relações entre a Rússia e os Estados Unidos da América já estão se deteriorando, e com Nuland na conversa como o subsecretária de Estado indicada para Assuntos Políticos, só podemos esperar que o status quo seja mantido com firmeza. Não ajuda que o atual secretário de Estado de Joe Biden, Antony Blinken, tenha declarado abertamente que o governo dos EUA não reconhecerá a anexação russa da Crimeia.

Pior, durante o processo de nomeação para seu cargo atual, Blinken não descartou a ideia de incorporar países como a Geórgia ao cobertor de segurança da OTAN. De uma forma arrogante típica dos diplomatas americanos hoje em dia, Blinken ignorou as objeções da Rússia e demonstrações anteriores de força para defender seus interesses de invasões ocidentais percebidas em sua esfera histórica de influência. As posições de Blinken sobre a Rússia não são um bom presságio para as relações dos EUA com a potência eurasiana.

Os partidos no poder podem mudar em qualquer ciclo eleitoral, mas as políticas intervencionistas permanecem as mesmas, em detrimento de um público americano exausto após anos de conflito perpétuo. Os legisladores americanos fariam bem em parar de fingir que estamos na Guerra Fria 2.0 com a Rússia e, em vez disso, adotar uma política baseada no realismo e na moderação.

Francamente, uma política externa sóbria não se materializará com Victoria Nuland no quadro.


Abaixo o link para a publicação original em espanhol, no Mises Institute: 

https://mises.org/es/wire/con-el-nombramiento-de-victoria-nuland-biden-senala-un-retorno-la-politica-exterior-de-la-era

Notas do tradutor

¹ Originalmente “hasta la medula”, foi propositalmente traduzida de forma literal para “até a medula”, por caber no conceito explicitado pelo autor e o termo existir em língua portuguesa;

² Escrito em espanhol como euroasiáticos, traduzi como Eurásia por se tratar da definição que o principal ator nos conflitos e interessado em manter a região sob sua influência, Vladimir Putin, ter como “guru” Alexander Duguin, defensor de uma corrente popularmente chamada de ‘Eurasianismo’. A Ucrânia e a Revolução de 2014 estão dentro desse conceito e da zona de influência da Rússia;

³ Sigla: OTAN;

⁴ Flexión foi traduzido como “queda de braço” devido ao contexto e a clara intenção do autor a usar essa expressão em espanhol: demonstrar uma ação que plantou a semente da desconfiança e preparou o terreno para a colheita de conflitos com a Rússia;

⁵ Originalmente “para que entraran en la OTAN”, foi traduzido como “induzir suas adesões à OTAN” devido ao contexto histórico e aos fatos existentes em ambos os casos;

⁶ Tradução literal devido à clara intenção do autor em reproduzir a imagem de políticos e outros atore terem feito o movimento de levantar as sobrancelhas, geralmente usado como sinal de alerta. Também caberia “abrissem os olhos” devido ao contexto,;

⁷ O termo é empregado no sentido de haver indivíduos dentro e fora dos governos, que atuam como empresários da guerra, falando em nome da “necessidade de defesa”. 

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Tradução

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