27.1 C
São Paulo
quinta-feira, 27 janeiro, 2022

CANIBAIS DE GARANHUNS | Eles recheavam coxinhas com carne humana

Revista Mensal
Wenner Melohttps://tvpiaui.com.br/blogs/blog-do-wenner
Wenner Melo é advogado e também formado em Comércio Exterior, com especialização em Direito Público e Antropologia Brasileira. Articulista e cronista, também é comentarista político no Programa Café com Notícias da TV Piauí.

Eles eram os únicos membros de uma seita que, sob a interpretação arbitrária da Bíblia Sagrada, matavam a fim de “purificar” a sociedade

O início

O ano era 2008. Um trio amoroso, formado por um homem, Jorge, e duas mulheres, Isabel e Bruna, viviam na cidade de Olinda, Pernambuco. Nessa época, tiveram uma ideia: criar uma seita com o fim de combater o aumento populacional. Em palavras mais simples, o trio desejava exterminar aquelas pessoas consideradas por eles como incapazes de dar alguma contribuição à sociedade.

Denominada Cartel, a seita tinha como alvo mulheres, isso porque a morte delas inviabilizaria a reprodução. Bruna criou as regras: mulheres jovens e solteiras; sem emprego ou estudo; e com filhos, mas sem condições financeiras para criá-los.

A vítima era golpeada fatalmente no pescoço para atingir a jugular, como se faz a uma galinha. O corpo era colocado no banheiro para que todo o sangue escorresse para o ralo. As duas mulheres aproveitavam o momento para lavar o cadáver.

Duas ou três horas depois, quando todo o sangue já tinha se esvaído, o corpo era colocado sobre uma mesa para ser esquartejado. Para a seita, as partes do corpo tinham um significado. Os membros inferiores remetiam ao fogo e à terra. Já os superiores, à água e ao ar. A cabeça remetia a Deus.

A última etapa do ritual era o canibalismo que, para Jorge, seria o momento de purificação das vítimas. Jorge Beltrão afirmava que as vítimas, quando mortas, estavam em paz, pois antes do golpe, ele perguntava a elas se estavam arrependidas dos seus pecados. As vítimas diziam que sim. Ao final do esquartejamento, as carnes humanas eram congeladas para servir de banquete para o trio.

Abordando as vítimas

Após escolher o perfil das vítimas, o trio passou a abordá-las em via pública. Sem violência, eles atraíam as mulheres com proposta de emprego. Eles escolhiam pessoas em situação de rua ou desempregadas, ofereciam um salário e meio para a função de doméstica. Valor muito acima do usual.

A primeira vítima

Jéssica Camila era uma jovem de 17 anos. Com uma filha de 1 aninho, logo chamou a atenção de Jorge, Bruna e Isabel. Jorge tinha o sonho de ser pai, mas nunca havia conseguido. Assim, matar a jovem e tomar para si a criança seria o ideal. Jéssica morava com a filha na Zona Sul de Recife. Era conhecida por pedir esmola na rua. Na casa, residia também o seu pai.

A jovem era a vítima perfeita para o cartel: mãe solteira, analfabeta e desempregada. Ao abordar a mulher, Isabel, além de oferecer um emprego, permitiu que Jessica levasse a sua filha consigo. Ao saber da proposta, o pai de Jéssica Camila estranhou e proibiu a filha de aceitar. No entanto, Jéssica fugiu de casa, juntamente com a filha, indo em direção à morte.

Ao chegar à casa do trio, a jovem foi assassinada, esquartejada e servida para o grupo. O que mais choca em toda essa história é ouvir dos canibais que a criança comeu a carne da sua própria mãe.

Mudança para Garanhuns

A fim de evitar suspeitas, o Cartel mudou-se para Garanhuns. Em 2012, uma moça chamada Giselly Helena deixou a sua residência e foi trabalhar na casa do trio após aceitar o convite para ser babá da filha de Jorge. A menina, no entanto, era a filha da vítima Jéssica Camila.

A suspeita é que Giselly tenha sido morta assim que chegou à casa. Após esquartejar e congelar a carne, os restos mortais foram enterrados no quintal.

Menos de duas semanas depois, o grupo quis fazer outra vítima. Dessa vez, Alexandra Falcão, de 20 anos. Alexandra deixou na casa dos pais seus três filhos e foi trabalhar na casa dos canibais.

A descoberta

O mistério em torno do desaparecimento de duas mulheres em Garanhuns começou a ser esclarecido no dia 11 de abril de 2012. A investigação, contudo, foi iniciada em fevereiro, quando os familiares de Giselly Helena da Silva procuraram a ajuda da polícia.

Logo depois foi a vez da família de Alexandra da Silva Falcão bater à porta das autoridades. Havia um ponto em comum entre os dois casos: tanto Giselly quanto Alexandra receberam uma proposta de emprego. Elas receberiam um salário-mínimo e meio para cuidar de uma criança e uma idosa.

Giselly sumiu no dia 25 de fevereiro. Já Alexandra, no dia 12 de março. Giselly estava tão feliz com a oportunidade de trabalho que comemorou com a família um dia antes do seu desaparecimento.

A polícia, após fazer a ligação entre os dois desaparecimentos, foi alertada pela família de Giselly que a garota estaria fazendo compras, uma vez que as faturas do seu cartão de crédito não paravam de chegar.

De posse dessas informações, a polícia foi aos estabelecimentos em que Giselly teria, supostamente, visitado. Em um deles, as câmeras de segurança mostraram os suspeitos comprando em nome de Giselly.

Com esses indícios, a polícia conseguiu na Justiça um mandado de busca e apreensão na casa do trio matador. Na residência dos canibais, a surpresa inicial da polícia foi o que saia da boca de uma criança de 5 anos de idade. Ela contou que o seu pai Jorge disse que Giselly era uma pessoa má e que, por isso, ela tinha de ir para o inferno.

A menina falou ainda que viu Jorge cortar a cabeça de Giselly e apontou para o local onde os restos mortais das duas vítimas foram encontrados. Assim, fica demonstrado que a criança sabia de tudo o que acontecia naquela casa. Viu a mãe ser assassinada, esquartejada e devorada pelos seus algozes. Logo após, presenciou a morte de mais duas mulheres.

As coxinhas e as empadas

Isabel e Bruna confessaram à polícia que, além de consumirem a carne de suas vítimas, Isabel recheava coxinhas e empadas com os restos cadavéricos e vendia em hospitais, creches e até mesmo na delegacia onde tempos depois foram presas. Quando o fato tornou-se público, centenas de pessoas foram buscar ajuda médica, pois haviam consumido os salgados de Isabel.

Imaginem a seguinte cena: você está acompanhando a sua mãe ou o seu filho ao hospital. Ele ou ela está internado e você fica de acompanhante. Lá pelas tantas, faminto, você vai em direção à rua e encontra uma senhora frágil, de cabelos brancos e voz mansa vendendo empadas e coxinhas. Você é levado a comprar os salgados, não só pela sua fome, mas para ajudar aquela senhorinha indefesa.

O que você não sabe é que essa senhora Isabel é uma assassina canibal, que recheou o seu salgado com carne humana. Quando foi presa e levada até a delegacia, Isabel foi confrontada pelos policiais sobre a venda das coxinhas e empadas. Os agentes reconheceram a senhora. Ela vendia os salgados de carne humana na delegacia.

Canibais no banco dos réus

“Jorge falou que se matasse tinha de comer, porque estava na Bíblia. Mas eu revirei a Bíblia de um canto a outro e não tem isso em lugar nenhum”.

Trecho do depoimento de Bruna

Após serem indiciados pelas mortes das três mulheres, a juíza da Vara Criminal de Olinda Maria Segunda Gomes recebeu a denúncia do Ministério Público em relação à morte da primeira vítima, a adolescente Jéssica Camila.

Isso porque, como os outros dois assassinatos ocorreram em Garanhuns, o trio seria processado também naquela cidade. Dessa forma, eles seriam submetidos a dois julgamentos. Sobre o processo que correu em Garanhuns, não se tem tantas informações porque foi decretado sigilo. Mas, em Olinda, a magistrada fez diferente.

Como se trata de crime contra a pessoa humana, quem decidirá se são ou não culpados é o Júri. Logo no primeiro dia da audiência, foram ouvidos dois irmãos de Jorge; Emanuel, irmão do canibal, disse que sua família não sabia do envolvimento de uma criança e chorou.

Emanuel disse ainda que, depois de casado, Jorge teria falsificado documentos e roubado R$80 mil de outro irmão, Jeová, através de saque em conta corrente.

“Ele se fingia de doido para ficar com a pensão”.

Trecho do depoimento de Emanuel

Antes de encerrada a apuração, a juíza determinou que os réus fossem submetidos a exames de sanidade mental. Esse tipo de exame é importante porque, caso fique demonstrado que eles possuem distúrbios mentais graves, eles não poderão ir a júri popular. Ao contrário, eles seriam submetidos à medida de segurança, sendo levados para um hospital psiquiátrico.

“Jorge era responsável por imobilizar as mulheres que entravam na residência. Em seguida, com a faca entregue por Isabel, ele degolava o pescoço das vítimas e começava o esquartejamento. Com a ajuda de Bruna, ainda retirava toda a pele e cortava pedaços de carne das nádegas, coxas e braços. A carne era congelada para ser consumida pelos três. A criança, filha de Jéssica, também comeu da carne da mãe”.

Delegado Paulo Berenguer, responsável pelo inquérito que apurou a morte de Jéssica Camila

Em 2013, o resultado dos exames de sanidade mental foi concluído. O laudo foi entregue pelo psiquiatra Lamartine Hollanda. Segundo o médico, os três réus não possuíam problemas mentais e estavam conscientes dos seus atos criminosos.

Aqui há uma divergência. Jorge Beltrão era aposentado pelo INSS por esquizofrenia paranoide. Portanto, há uma questão crucial a ser descortinada: Jorge é ou não esquizofrênico? Em 2014, a juíza Maria Segunda Gomes confirmou que os réus iriam a júri popular.

“Não há dúvidas de que os três indiciados tinham a plena consciência do que tinham planejado. (…) A participação da acusada Bruna foi eficaz e decisiva; seja pela relação amorosa que ela mantinha com Jorge, com o consentimento de Isabel, ficando provado que Bruna instigou o casal para a prática do homicídio com vilipêndio e ocultação de cadáver (…)”.

Maria Segunda Gomes, Juíza

O júri foi marcado para outubro de 2014, mas não aconteceu porque o advogado de Jorge havia sido preso, acusado de desviar R$111 mil quando era prefeito do município de Sanharó. Detalhe dessa história: o advogado foi levado para o mesmo presídio no qual Jorge estava desde 2012.

O julgamento

A primeira testemunha a ser ouvida foi o psiquiatra forense Lamartine de Hollanda, responsável pelos laudos psiquiátricos. Para o médico, o trio não apresentava nenhum tipo de distúrbio mental, muito menos sintomas de esquizofrenia.

“A esquizofrenia é uma forma de rotular algo que não existe. Mesmo assim, das várias formas de se interpretar essa “doença”, nenhuma delas se aplica ao caso. Não havia nenhum distúrbio neurológico que criasse incapacidade nos réus. Não cabe este rotulo de esquizofrenia no caso de Jorge. Ele sabia o que fazia, ele planejava tudo e tinha consciência dos seus atos”.

Lamartine de Hollanda

O médico disse ainda que a probabilidade de o trio matar novamente é alta. A defensora pública Tereza Joacy questionou o psiquiatra sobre o laudo, alegando que o INSS e o Caps de Garanhuns onde Jorge frequentava apontaram que ele tinha sinais de esquizofrenia. A defensora perguntou por que o laudo do psiquiatra forense divergiu do INSS e do Caps.

Brevemente, o médico afirmou que é fácil enganar o sistema. Para ele, Jorge conseguiu fingir diante dos médicos. A verdade é que Jorge sempre se intitulou esquizofrênico, o que, para alguns especialistas, já é um indício de farsa. Pois quem é esquizofrênico não teria consciência da esquizofrenia. A pessoa não se acha doente. Para ela, loucos são os outros.

“Eu cortava as carnes. Estudei anatomia e sabia onde fazer os cortes. Bruna ajudava e Isabel observava tudo. A gente guardava a carne no congelador. As pernas representavam os elementos terra e fogo. Os braços, água e ar. já a cabeça representava Deus. Os troncos eram enterrados”.

Trecho da confissão de Jorge

A promotora de Justiça Eliane Gaia fez a seguinte pergunta a Jorge: “O senhor comeu ou não comeu a carne da vítima?” Silêncio no tribunal. A promotora insistiu: “Comeu ou não comeu?”. Jorge disse: “Sim”.

“A gente comia como uma carne qualquer. Tinha sabor de carne bovina. Não sei precisamente quem preparava, se Bel ou Bruna ou as duas juntas”.

Jorge, sobre a prática do canibalismo

Questionado se a criança, filha de Jéssica Camila, presenciou a morte da mãe e ingeriu a carne dela, Jorge disse que sim. Ao ser ouvida, Isabel afirmou que nunca denunciou Jorge porque o amava e tinha medo de perdê-lo. Isabel disse ainda que comeu a carne de Jéssica Camila.

“É como carne normal”, disse Isabel, “Jorge quem preparou. A de Garanhuns fui eu mesma. A gente tinha uma grelhazinha lá em casa. (…) Comi com arroz. A criança também comeu”. O depoimento de Bruna foi um caso à parte: irônica, sorridente e soltando gargalhadas. Bruna narrou a morte de Jéssica.

“Minha participação foi ajudar a Isabel a segurar Jéssica. Ele (Jorge) imobilizou a vítima, depois deu um golpe com uma faca na jugular dela. Isabel dizia que a missão tinha que ser cumprida porque a vítima ia sair. Ela (Jéssica) queria “descolar” uma grana e Isabel não deixou. As duas entraram em luta corporal e Isabel avisou a gente. (…) A criança ficou lá em cima. Isabel estava lado a lado acompanhando a morte da Jéssica. Eu fiquei apavorada. Nunca vi isso nem em filme. Jogos Mortais perdia. Minha Nossa Senhora, tremi tanto. (…) Eu e Isabel limpamos tudo e pegamos os restos mortais. O Jorge cavou quatro buracos. Eles traziam as vítimas, não era eu que trazia. Eu estava lá no meio e via tudo, mas não gostava do que fazia. Não me acostumei e queria que aquilo acabasse, mas eu não tinha como fazer nada. Jorge falou que se matasse tinha que comer, porque estava na Bíblia. Mas eu revirei a Bíblia de um canto a outro e não tem isso em lugar nenhum”.

Trecho do depoimento de Bruna

O advogado de Jorge chamou atenção ao pedir aos jurados que aceitassem o fato de Jorge ser esquizofrênico e o ajudassem a viver em sociedade.

Condenações

Ao final, o trio foi condenado pelos jurados. Jorge a 21 anos e seis meses de reclusão, além de 6 meses de detenção. Isabel e Bruna foram condenadas a 19 anos de reclusão e mais 1 ano de detenção. Ao saírem do tribunal, Jorge e Isabel permaneceram de cabeça baixa. Bruna, ao contrário, ao ver as câmeras e os repórteres, soltou: “Não tenho nada a declarar. Só dou entrevista exclusiva”. Mandou um beijo e seguiu.

O destino do trio canibal

Anos depois, os três foram condenados novamente. Dessa vez, pelos homicídios de Giselly Helena e Alexandra Falcão. Ao final, o júri decidiu pela condenação do trio. A pena de Jorge foi de 71 anos. Bruna e Isabel, 68 anos.

2021

O advogado da canibal Bruna Cristina, Doutor Alexandre de Almeida Silva, impetrou habeas corpus junto ao Superior Tribunal de Justiça a fim de que Bruna tivesse a sua prisão revogada.

Alegando excesso de prazo no julgamento da apelação, o causídico entende que há constrangimento ilegal na demora em ser julgado o recurso. O Relator do HC, Ministro Sebastião Reis Júnior, negou o pedido da defesa de Bruna. Sobre a demora em ser julgada a apelação, o Ministro afirmou que se trata de causa complexa, com vários apelantes e múltiplos crimes. Os advogados do trio recorreram da sentença do júri dos crimes ocorridos em Garanhuns.

Na oportunidade, os desembargadores da 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco mantiveram, por unanimidade, as condenações dos canibais. Bruna, por sua vez, foi a única que teve a pena reduzida, entendendo o Desembargador que a sentença foi dúbia quando da fixação da pena.

Isabel e Bruna estão cumprindo pena na Colônia Penal Feminina de Buíque. Jorge Negromonte, por sua vez, cumpre pena na Penitenciária Professor Barreto Campelo, em Itamaracá.

Final

Nesse caso, a fatura do cartão de crédito de uma das vítimas levou à prisão do trio canibal. Não fosse isso, quantas mulheres teriam sido mortas, esquartejadas e canibalizadas por Jorge, Isabel e Bruna?

As penas aplicadas ao trio foram justas? Neste caso, a justiça foi feita?


Com informações de Guerra, Raphael, Os Canibais de Garanhuns: a história de três serial killers brasileiros que comiam e vendiam salgados com carne humana, Chiado Editora, 1ª edição, 2016.


“O criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente”.

— Fiódor Dostoiévski

Assine Esmeril e tenha acesso a conteúdo de Alta Cultura. Assine!
- Advertisement -spot_img

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns aos criadores do conteúdo, muito bem elaborado. Como alguém tem coragem de fazer uma atrocidade dessas? Bom saber que tiveram a punição que mereciam!

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Mais do Autor

Quem já foi lula?

O ex-Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva tem sido apontado como favorito ao Palácio do Planalto nas...
- Advertisement -spot_img

Artigos Relacionados

- Advertisement -spot_img