Mesmas medidas podem ser repetidas, almejando consequências diferentes e muita propaganda

Na segunda-feira (01) dezenove governadores assinaram carta em resposta à publicação dos repasses federais aos governos estaduais, feita pelo presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) no domingo (28/02), através de suas redes sociais. 

Os governadores argumentam que os repasses do Governo Federal são uma obrigação constitucional – algo que não foi questionado pelo presidente em momento algum – e reclamaram dos valores enviados para o setor de saúde. 

Uma publicação informativa foi tratada como ataque pessoal; não à toa os governadores acusam o presidente de gerar confrontos, o confrontando com uma carta, por causa de informação publicada e que está disponível para consulta pública no Portal da Transparência

De fato, há repasses constitucionais, no entanto, compõe 57% do total repassado. Isso significa que 43% dos repasses foram legais, voluntários e específicos, conforme informa o gráfico abaixo (do Portal da Transparência).

Resposta de João Dória

Segundo o UOL, o governador de São Paulo, João Dória (PSDB), afirmou que está indignado (junto aos demais governadores que assinaram a carta) com a publicação dos valores dos repasses – que (reforçamos) estão disponíveis para consulta pública no Portal da Transparência – pelo presidente Jair Bolsonaro. 

Também aproveitou a oportunidade para anunciar a entrega (este mês) de 21 milhões de doses da vacina Coronavac, produzida pelo Instituto Butantã em parceria com o laboratório chinês Sinovac. Os termos do contrato permanecem sob sigilo e atrapalham até a autorização para vacinação da população, segundo a CNN Brasil.

Dória informou os valores arrecadados pelo Estado de São Paulo e enviados à União e os valores recebidos através de repasses (11% do total arrecadado). A República “Federativa” do Brasil já funcionava assim nos governos anteriores. Alguns Estados recebem mais do que repassam e outros repassam mais do que recebem; a falta de federalismo na República Federativa não é saudável, mas tampouco novidade. 

Já que o governador falou em indignação, listaremos alguns fatos que talvez gerem justa indignação; melhor, uma indignante  linha do tempo por tópicos.

O começo de tudo

A transparência do governo Chinês está envolta por espessa neblina. Os amantes de contratos sigilosos, são inimigos da divulgação de dados reais. O presidente “perpétuo” da China, Xi Jinping, sabia sobre o vírus desde 07 de Janeiro de 2020, conforme apurou o El País

Segundo o UOL, a missão da Organização Mundial da Saúde (OMS) no epicentro da pandemia encontrou indícios de que a Covid-19 começou a se espalhar na cidade de Wuhan (China) em dezembro de 2019. 

Pelos menos doze mutações (variantes) do vírus já circulavam pela cidade ao final de 2019. O vírus circula com mais liberdade do que os cidadãos brasileiros; especialmente o povo paulista. E você achando que a variante do Amazonas anuncia o final do mundo? 

Em 23 de janeiro de 2020, a rede britânica BBC anunciou a chegada do novo Coronavírus em oito países; o Brasil continuava de fora do itinerário do vírus, mas isso estava para mudar. 

Fronteiras abertas e Carnaval liberado 

No Ano Novo chinês há (em média) três bilhões de viagens, segundo o Conselho Estadual da China. Quantos desses viajantes também se deslocaram para outros países, com suas fronteiras abertas e festividades de massa autorizadas, carregando o Novo Coronavírus? 

Talvez embalados pela campanha do prefeito de Florença, Dário Nardella (Partido Democrático), chamada “Abrace um Chinês”, quando a China contava 17.391 casos e 302 mortes (que não passou despercebida pelo jornalista Augusto Nunes) o prefeito de São Paulo (e aliado do governador) Bruno Covas (PSDB) deixou o Carnaval “rolar solto” e ainda comemorou o que teria sido “o maior Carnaval da história de São Paulo”, segundo o UOL.

O prefeito Covas comemorou a maior aglomeração da história da capital, num momento de pandemia internacional, durante uma festa “pouco higiênica” e que recebe milhares de turistas internacionais.

Quem também comemorou os milhões de foliões pelas ruas foi o Governador João Dória.

Primeira quarentena em São Paulo

O governador João Dória anunciou a primeira quarentena no Estado em 21 de março de 2020, argumentando que a medida serviria para diminuir a disseminação do novo Coronavírus. A duração seria de 15 dias, seria… 

Em 10 de Junho de 2020, João Dória anunciava a quinta extensão do período de quarentena, informou a Agência Brasil. Em 31 de Dezembro de 2020 o jornal O Globo noticiou a 15ª extensão da quarentena pelo governador de São Paulo. 

E a disseminação do vírus não parece contida. Aliás, São Paulo é o Estado com mais casos de contaminação, sendo Minas Gerais o segundo colocado, mas com menos da metade de contaminados. 

Também é o recordista em recuperados e … de mortes. Mas a 15ª prorrogação da quarentena nos salvaria, afinal, se trata de salvar vidas, certo? 

Hospitais e Leitos

Os governantes afirmam na carta que estamos no pior momento da pandemia e na maior crise sanitária de nossa história, segundo divulgou o Portal G1. Mas e as quarentenas? Fechar todas as empresas consideradas não essenciais e acabar com o emprego desses trabalhadores não essenciais, não controlou a disseminação do vírus? 

As palavras de ordem são: sem leitos (principalmente de UTI). E agora? O Governador está preocupado com a insuficiência de leitos? Então por que desmontou os hospitais de campanha? Por que fechou tantos leitos em plena pandemia? Quis evitar aglomeração de doentes nesses hospitais? O último hospital de campanha do governo do Estado foi desmontado em setembro de 2020, informou a Agência Brasil

Segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS) analisados pelo Audita SUS, a taxa de ocupação de leitos de UTI do SUS em 2020 foi a menor dos últimos 12 anos no Brasil e também no Estado de São Paulo (gráficos abaixo).

Mas então, como em dois meses os leitos teriam lotado mais do que entre Março e Dezembro de 2020? Como a disseminação teria disparado com uma quarentena implantada a quase um ano? O dinheiro não essencial dos empregados não essenciais, para comprar o essencial às suas famílias foi destruído à toa? Mas se trata de salvar vidas, certo? 

Verbas para a Saúde

João Dória reclamou de ínfimos repasses federais para a Saúde. Porém, em Dezembro de 2020 a Folha de São Paulo noticiou o corte de verbas da Saúde pelo Governador de São Paulo. 

O corte foi profundo: R$820 milhões. Repetindo, em plena pandemia, o Governador João Dória cortou R$820 milhões do orçamento de 2021 da Secretaria Estadual da Saúde. 

Estaria uma Copa do Mundo de Futebol da FIFA para ser sediada por São Paulo? Dória incorporou o ex-atacante Ronaldo? Que nome dar a tal fenômeno? E que tal o hospital dentro do Estádio? 

O repasse não estancou o ferimento provocado por um corte autoinfligido… Mas é tudo para salvar vidas, certo?

Aumento de verbas para publicidade

Junto ao corte de R$820 milhões no orçamento da Saúde, João Dória aumentou em 120% o orçamento para a propaganda. O Ministério da Verdade de Dória terá R$193,7 milhões para gastar com propaganda da administração do “gestor”, frente aos R$90,7 milhões de 2020, segundo o jornal Metrópoles

Já o jornal Gazeta do Povo falou em R$153,7 milhões (67%); e este foi o gasto aprovado pela ALESP e sancionado por João Dória, conforme noticiou a Crusoé, em 30 de Dezembro de 2020. 

E lembremos que essa verba também é derramada pelas redações de diversos jornais (impressos, portais, rádios e televisão). A propaganda é a alma do negócio! Salvará vidas? Já sei, divulgarão tanto as novas extensões da quarentena e os dados da disseminação, que teimam em piorar, até que a população fique imune! 

Santa Coronavac da efetividade baixa Batman! É tudo para salvar vidas, certo? 

Tratamentos e remédios mais caros

Em Outubro de 2020 o pacote de “ajuste fiscal” do governador João Dória foi aprovado na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), conforme noticiou o UOL

Nesse pacote havia o aumento de impostos e corte de inserções do ICMS, inclusive para o setor de Saúde. O “ajuste” de João Dória reajustará medicamentos e equipamentos médico-hospitalares em 18%, conforme manifesto que reúne entidades do setor. 

Alguns parlamentares estão tentando reverter essa situação, noticiou a Veja!, em 16 de Fevereiro de 2021. Abaixo os parlamentares que assinaram pela revogação do aumento (verde) e os que pretendem apoiar João Dória e manter esse reajuste para cima (vermelho).

Os principais afetados por esse aumento serão os hospitais, farmácias e pacientes que precisam de diálise, com câncer, HIV, H1N1 e outras doenças graves, apurou o Correio Braziliense

Segundo a Jovem Pan, o setor de órteses, próteses e equipamentos especiais (OPMEs) também será prejudicado. Mas é tudo para salvar vidas, certo?

E quem quiser estocar itens essenciais?

De acordo com a Jovem Pan, o Grande Salto em Frente (ou Holodomor?) de João Dória impactará também os alimentos da cesta básica, outros tantos medicamentos e a sua conta de luz.  

Melhor tentar comprar enquanto sua empresa não copia 20% das lojas do maior centro comercial ao livre, que não suportaram a política anti-econômica do governador e fecharam as portas

Talvez o escuro ajude a esquecer a fome e as dores, febres, enxaquecas… por que não aproveitar e dormir de vez nesse berço esplêndido? Afinal, foi preparado com quarentena, isolamento, cortes da saúde, aumento de impostos, desemprego, aumento da propaganda e tanto carinho? Tudo para salvar as vidas – de pessoas saudáveis – dos (aproximadamente) 2,92% de fatalidade do terrível Covid-19. 

E aquelas com comorbidades (câncer, diabetes, HIV etc)? Ah, essas o aumento dos custos afetará diretamente e dará aquele “jeitinho”; ainda ajudará o aliado Bruno a preencher suas Covas, abertas num “presságio” ainda em Abril de 2020, conforme apurou o Portal G1

Lockdown à vista

Já que as políticas de quarentena e fechamentos de comércio, bares, restaurantes, e tutti quanti não é “serviço essencial” não impediram a disseminação do novo Coronavírus, o jeito é… fazer Lockdown; fechar comércios, academias, bares, restaurantes e tutti quanti não é “serviço essencial”, apurou a CNN Brasil.

Quem diz isso é a ciência, evidentemente. Apesar de milhares de médicos especialistas defenderem justamente o contrário (Imagem abaixo) e a realidade objetiva e concreta esfregar em nossas hilariantes faces que as medidas não surtiram efeito algum; ou os governadores chamaram o atual momento de “a pior crise sanitária de nossa história” por “força de expressão”? 

Em tempo, a OMS – grande defensora da ciência (de momento, como podemos ver na imagem abaixo) – reconhece os impactos negativos de Lockdowns, conforme checou o Estadão, em 16 de Outubro de 2020. 

Também em Outubro de 2020, o Diário de Notícias (Portugal) noticiou a entrevista do responsável da OMS para COVID-19 na Europa, David Nabarro (foto), ao jornal britânico The Spectator.

Nabarro defende um meio termo, ao invés de confinamentos (Lockdown) para o combate ao vírus, que inclui medidas de “distanciamento físico, proteção facial, higiene, isolamento de doentes e proteção de pessoas vulneráveis” através de “alto nível de organização por parte dos governos e uma notável adesão por parte das pessoas”.

A única vez em que acreditamos que um confinamento se justifica é para ganhar tempo para reorganizar, reagrupar, reequilibrar recursos e proteger os profissionais de saúde que estão exaustos, mas, em termos gerais, preferimos não o fazer

Basta olhar para o que aconteceu com a indústria de turismo no Caribe, por exemplo, ou no Pacífico, porque as pessoas não estão a tirar férias.

Veja o que está a acontecer com os pequenos agricultores em todo o mundo. Veja o que está a acontecer com os níveis de pobreza. Parece que podemos muito bem ter uma duplicação da pobreza mundial no próximo ano. Podemos muito bem ter pelo menos o dobro da desnutrição infantil.

– David Nabarro, responsável da OMS para COVID-19 na Europa

O zero termo

Desde o primeiro dia de quarentena até a publicação deste artigo, as medidas do Governador João Dória não surtiram efeitos, nem se focaram num meio termo que evitasse o desemprego e a pobreza e salvasse vidas, nem numa reorganização do sistema de saúde. 

Agora pode vir um Lockdown para terminar de varrer os “não essenciais”? Pois sem ter usado o meio termo, usará o extremo, o zero termo? 

Mas se lembra, é tudo para salvar vidas! Ora, você está mais seguro com a fome matando até 12.100 pessoas ao dia, no mundo, do que com uma doença que no pico matou 10 mil, mas cuja média varia entre 5 e 7 mil. Mais seguro com a fome que matou 45 milhões de chineses entre 1958 e 1962, do que o Covid-19 que matou 255.720 no Brasil, em um ano. A fome deve ser menos agressiva que esse vírus, pergunte aos Ucranianos

Sigamos pela estrada do Lockdown, do mais do mesmo que não impediu “a pior crise sanitária de nossa história”, do Toque de Recolher (como num Estado de Sítio). Tudo para supostamente salvar vidas, ao custo de quantas?

Com informações do Portal G1, CNN Brasil, Portal R7, UOL, Revista Veja!, Gazeta do Povo, Diário de Notícias (Portugal), Público (Portugal), Estadão, Portal da Transparência, Oxfam Brasil, The Spectator (Inglaterra), Agência Brasil, Canaltech, Folha de São Paulo, Correio Braziliense, Diário do Nordeste, Metrópoles, O Globo, Jovem Pan, BBC (Inglaterra), El País, Jornal Jota, Aventuras na História e Revista Esmeril (confira os Dossiê sobre a Quarentena clicando aqui).


A Idade das Trevas pode voltar – a Idade da Pedra pode retornar nas asas brilhantes da ciência; o que, agora, pode derramar bênçãos materiais incomensuráveis sobre a humanidade pode, até mesmo, causar sua destruição total. Cuidado, digo! O tempo pode ser curto. 

– Sir Winston Churchill, Fulton, Missouri, 05 de Março de 1946

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