Em 9 de fevereiro de 1964 – um domingo idêntico ao de hoje – os ingleses se apresentavam nos EUA, prontos para alterar o curso da história

Dê uma olhada agora mesmo no calendário de 2020 e o compare com o emblemático 1964. Sim. O mundo rodou e, mais uma vez, todos os dias da semana voltaram a coincidir como há 56 anos.

Naquele instante, enquanto o Brasil se preparava para se desvencilhar das conexões obscuras e nada republicanas com China e União Soviética do governo de João Goulart, um feito de proporções épicas era iminente nos eminentes Estados Unidos da América do presidente Lyndon Baines Johnson.

Às 20h12 (23h12 no Brasil) de 9 de fevereiro de 1964 – um domingo como hoje – John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr entraram no Studio 50 da rede CBS (Columbia Broadcasting System) para fazer sua estreia em solo norte-americano.

Quando a revolução cultural foi televisada

Muito mais do que um momento épico da história musical capitaneado pelos Beatles, o programa comandado por Ed Sullivan no teatro que hoje leva seu nome no cruzamento da Broadway com as ruas West 53 e 54 em Nova York representa um marco da cultura ocidental – e por múltiplas razões.

Menos de dois anos depois de a primeira transmissão televisiva via-satélite AT & T Telstar ser concluída em 23 de julho de 1962, um grupo de artistas estrangeiros atrairia uma audiência local superior a 73 milhões e 900 mil telespectadores americanos, segundo medições do órgão US Census Bureau.

Esses números, não se esqueça, seriam ultrapassados apenas em 1983 e, de forma surreal, permanecem como o segundo programa mais visto da TV norte-americana.

A noite em que os americanos não saíram de casa

Em fevereiro de 1964, os norte-americanos ainda atravessavam um período de luto cívico. Afinal, o rescaldo decorrente do assassinato do presidente John F. Kennedy em Dallas, em 22 de novembro do ano anterior, era proeminente nos quatro cantos da nação – e claro, no resto do planeta.

Bem diferente de 2020, onde a tecnologia digital abrevia fronteiras diariamente, um acontecimento como a apresentação dos Beatles ostentava poderes inimagináveis. Outro fator importante: bem tutelados pelo empresário Brian Epstein, os Beatles esbanjavam simpatia e evitavam comentários sociais ou políticos – algo bastante incomum para a “geração lacradora” do pop.

De ponta a ponta, enquanto os músicos de Liverpool apresentavam no palco do original Hammerstein’s Theatre os clássicos “All My Loving”, “Till There Was You”, “She Loves You”, “I Saw Her Standing There” e “I Want To Hold Your Hand”, o número de queixas de roubos declinaram sensivelmente.

Apesar de não haver registros oficiais, nos 60 minutos de duração do programa patrocinado pelos comprimidos analgésicos Anadin (e que contou com a presença de outros convidados: Georgia Brown & Oliver Kidds, Frank Gorshin, Tessie O’Shea) o fato é que mais de 34% dos 192 milhões equivalentes à população do país estavam em suas residências (cerca de 23 milhões), colados em seus aparelhos de TV (sem contar os 728 abençoados, presentes em loco, no auditório),

Efeitos da segunda “invasão britânica”

Em 1777, um ano após a declaração de independência, soldados britânicos invadiram os Estados Unidos, via Nova York, na tentativa de retomar sua colônia. Desta vez, ao contrário da operação militar desenrolada havia 178 anos, a chegada dos Beatles apelidada de The British Invasion, não só foi amigável como extremamente positiva para a economia americana.

Até então, as barreiras para os britânicos no cenário da cultura americana eram altas e resistentes. Naquele fevereiro de 1964, poucos suspeitavam, o cenário estava prestes a mudar.

Os primeiros passos dos Beatles na América serviriam como porta de entrada outros grupos – entre eles, os Rolling Stones – que movimentariam vendas de ingressos e discos, além de revolucionar a indústria do entretenimento como um todo.

Esse poderoso efeito logo seria registrado em 15 agosto de 1965, em mais um recorde anotado pelos Beatles.  Desta vez, os jovens ingleses atrairiam 55.600 pessoas ao campo de beisebol (hoje demolido) William Alfred Shea Municipal Stadium localizado em Flushing Meadows, Queens, na grande Nova York.

A incrível performance renderia US$ 304 mil para os cofres do lendário promotor Sid Bernstein – o equivalente a mais de US$ 2,5 milhões em 2020 – e marca somente quebrada por outro grupo inglês, o Led Zeppelin, em 1973.

Os quatro cavaleiros britânicos: ainda na ativa

O impacto econômico gerado pela Invasão Britânica em 1964 parece não ter fim. Além de computar vendas em torno de 1.6 bilhão de discos na América de Donald Trump, os Beatles ainda fazem a economia gerar no Tio Sam de forma espetacular.

No ano passado, a reedição de luxo de Abbey Road (último LP gravado e penúltimo lançado pelo quarteto enquanto banda em atividade) retornou às paradas americanas, atingindo uma inimaginável 3ª posição, 50 anos após sua criação.

Em tempo: não é permitido omitir a performance do hiperativo Paul McCartney. Aos 77 anos, sua Freshen Up Tour atingiu o 5º lugar das mais lucrativas de todos os tempos, anotando renda de US$ 129 milhões e mais de 928 mil ingressos vendidos.

Março de 1996: o autor dessa matéria visita o local onde os Beatles deram início à invasão

Não deixe de conferir nosso ensaio sobre os Beatles na edição de Outubro 2019: “Construindo Piscinas contra o Socialismo”.

Fim
Revista Esmeril – 2020 – Todos os Direitos Reservados

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