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quarta-feira, 22 setembro, 2021

ANTIFAS: O exército infanto-juvenil da esquerda

Revista Mensal
Raimundo Bentes
Um jornalista investigativo qualquer

Baixe a parte 1 em pdf

CAPÍTULO I – ENSAIOS PARA UMA PRIMAVERA ÁRABE TUPINIQUIM

Segundo a Agência de Notícias das Favelas, em nove de fevereiro de 2012, diversas manifestações pelo Brasil reivindicaram redução das passagens nos transportes públicos municipais. Houve manifestações simultâneas em Guarulhos, São Paulo; Rio de Janeiro, Vitória, Espírito Santo, Belo Horizonte, Florianópolis, Santa Catarina e Goiânia. 

Em Vitória os manifestantes ‘ocuparam’ Sindicato de Transporte de Pessoas do Espírito Santo (STPES) e, segundo o periódico, foram violentamente reprimidos pela Polícia Militar que efetuou três detenções, sendo que um dos manifestantes estava sendo mantido preso num presídio comum. O manifestante portava bomba de fumaça colorida, um artefato pirotécnico, permitido por lei, que não oferece risco algum às pessoas. Sobre o manifestante, a informação foi colhida do Manifesto Contra Aumento – Espírito Santo. 

No Rio de Janeiro, cerca de cinquenta manifestantes organizaram um “catracaço” na Candelária – forma de protesto onde os manifestantes viajam de ônibus sem pagar a passagem, entrando pela porta de trás ou pulando a roleta. Chegando a Botafogo, ‘ocuparam’ a Secretaria Municipal de Transportes e solicitaram a presença do Secretário de Transportes Alexandre Sansão, para prestar esclarecimento sobre as contas que justificariam um aumento de 10%, em valor muito superior à inflação do ano de 2011. O grupo planejava entregar uma carta a qual reivindicava a revogação imediata do aumento. 

O Secretário não apareceu, mas somente a polícia militar foi enviada. A PM, segundo o periódico, empesteou o local com o famigerado gás de pimenta, agredindo manifestantes e também funcionários que trabalhavam na secretaria. Alguns policiais também sofreram os efeitos do gás. Os manifestantes evacuaram o local criticando a polícia militar por sua postura truculenta e questionando a greve dessa categoria que utiliza violência para lidar com as reivindicações dos trabalhadores. [1]

Em 10 de fevereiro de 2012, a TV Pula Roleta mostra como foram as atividades de mobilização feitas, à época, contra o aumento das passagens, no Rio de Janeiro, a qual foi noticiada pela Agência de Notícias das Favelas. Sobre o catracaço, o comentário de apresentação do vídeo o define como “um ato de desobediência civil”.  No vídeo, uma cena aparentemente cotidiana: ônibus lotado, pessoas subindo. Mas um grupo de militância começa a distribuir panfletos sobre a mobilização. No prospecto, nas mãos de um passageiro, podemos ver destacada a expressão “Passe Livre”. A prevalência é de jovens. Gritos de guerra são repetidos no ônibus, contra o aumento abusivo das passagens. 

A tomada do vídeo então é passada para o prédio da CET-RIO. Um grito de guerra inicia a tomada do vídeo: “Vem, vem, vem pra luta, vem contra o aumento, vem!”. Os jovens, em uníssono, repetem as palavras de um interlocutor deles com os representantes do governo. O senso de coletivo se reforça com essa postura. As palavras foram:

“Atenção! Acabamos de entrar em contato com o nosso advogado, e ele está disponível, em local próximo, para nos ajudar se houver qualquer tipo de agressão ou violência contra os manifestantes. A partir de agora, qualquer ato de violência é pura responsabilidade dos policiais presentes e da segurança. E continuaremos cantando nossa OCUPAÇÃO, estamos sendo transmitidos ao vivo pela internet. Companheiros do Brasil todo também estão vendo esse ato”. 

Algumas coisas ficaram claras nesse vídeo:

– Há suporte profissional, pois havia um advogado para o grupo. 

– Segundo palavras repassadas para o grupo, qualquer ato de violência é pura responsabilidade dos policiais presentes e da segurança. Logo, qualquer ato praticado pelo grupo seria de responsabilidade… Dos policiais e da segurança.

“Se a passagem não abaixar, pela roleta eu vou pular” foi o grito de guerra ecoado na mobilização. Ou seja, se não fossem atendidos os critérios do grupo, atos de ilegalidade seriam feitos. E claro, qualquer ato de contenção à ilegalidade poderia ser considerado violência. E a culpa…Seria dos policiais e da segurança, óbvio. 

– Aos 3:37 minutos do vídeo, uma bandeira vermelha aparece levantada, com as seguintes letras: “MEPR”. 

Num certo momento, um dos integrantes, em um megafone, diz que o objetivo da ‘ocupação’ era falar com o secretário. Se era uma ‘ocupação, a última coisa que iriam fazer era se retirarem, até que suas reivindicações fossem atendidas. Os manifestantes filmaram os policiais militares portando armas não letais, segundo legenda do vídeo, aos 8:01 min. Outros policiais portavam as armas, como mostrado aos 08min38s. Mas nenhum tipo de ameaça ou agressão feita pelos profissionais. Os gritos de guerra continuavam, como “resistir, resistir, até a passagem cair”.

– A partir de 08:40, um convite um tanto inusitado é anunciado: “Companheiros, estamos convidando aos funcionários a participarem desse ato também, ou se não quiserem, vocês podem se retirar do prédio também. Ocupar, resistir, ocupar pra garantir”. Estranho que havia duas possibilidades levantadas para os servidores que trabalhavam no prédio objeto de uma ocupação do grupo: ou participar do movimento ou sair. Democrático, não?

– Como o grupo que estava disposto a ‘ocupar’ não sairia, um gás é lançado para a dispersão. Gás de pimenta, segundo legenda do vídeo. Dentro do hall. Como foi lançado próximo aos elevadores, servidores que começaram a sair também aspiraram o gás. Um dos integrantes puxou um grito de guerra mais pujante: ”o povo unido é povo forte, não teme a luta, não teme a morte”. A coletividade aderiu ao coro. Por coincidência, logo após ao grito de guerra, ouve-se um barulho de vidro se estilhaçando. Cacos de vidro pelo chão aparecem. Outro grito de guerra é feito: “Abaixo a repressão!” 

Aos 10:46 min, já na parte externa do hall, um dos integrantes chuta uma caixa de papeis para dentro do hall. Após, uma menina também arremessou um objeto. Gritos de guerra continuam a ecoar entre os manifestantes. 

Estampidos são ouvidos. Policiais chegam ao alcance da captura do vídeo. A postura é apenas de contenção, sem agressão. Aparentemente não há feridos. Só a depredação do patrimônio público onde os integrantes da ‘ocupação’ estiveram. 

Enfim, uma outra tomada do vídeo mostra uma última concentração dos integrantes. Um rapaz, no meio dela anuncia um resumo do ocorrido no dia, aos 12:10 min do vídeo. E aqui o detalhe mais interessante: “Companheiros, infelizmente o senhor secretário não quis nos receber. E fomos tratados de forma violenta pela polícia. Obviamente não foi a primeira vez. Nem será a última. Porém, nós não iremos desistir de nossa luta. Essa catraca (referindo-se a uma catraca dourada de material perecível em sua mão) não será entregue ao Subsecretário. Então ela não serve pra nada. O que nós faremos com ela?.  Queimaram a catraca, sob os gritos de “Queima, queima, queima”. Filmaram policiais que estavam na guarda da entrada do prédio. Gritos de “foto, foto, foto” surgem. A câmera filma um policial. Segundo legenda do vídeo, “o policial também queria manter um registro visual do ato…”. Um jovem grita “Coloca no fecebook!”. 

Perceba que, na ação elaborada, o processo de intimidação e de depredação partiu dos próprios manifestantes. E os policiais foram todos filmados na ação. O próprio vídeo os coloca como seres ameaçadores, ostentando suas armas não letais, como se estivessem prontos, qualquer sinal de ameaça, a sacar das armas e as utilizar. O que não ocorreu. 

E uma proposta estranha termina o vídeo: “Venho agora propor a greve eterna da polícia”. Sob efusivos aplausos. E emendaram: “Pra sempre! Pra sempre! Pra sempre!”. 

Com a catraca, queimando no chão, sendo a imagem de desfecho do vídeo[2].

No ato de primeiro de março de 2012, contra o aumento das barcas, em novo vídeo da TV Pula Roleta, mostra-se uma manifestação em frente à Estação das Barcas no Rio de Janeiro. A partir de 06:56 min, algumas bandeiras tremulam na manifestação. Apesar da opacidade do vídeo, para supostamente proteger aqueles que se manifestavam da polícia, algumas bandeiras conseguem ser identificadas: a da União da Juventude Socialista (UJS), PCdoB (Partido Comunista do Brasil), a do PT (Partido dos Trabalhadores) e a bandeira do “Juntos!”. DCEs de Universidades Públicas Federais também estiveram presentes, no caso a UFF Livre. PSTU, outro partido de esquerda, também participou das mobilizações. O evento teve manifestação, atividades culturais de interação, feitas pelos jovens, e algum estranhamento com os seguranças das barcas. 

Um cartaz é destacado na filmagem: “Lutar com os trabalhadores da Barcas/SA e terceirizados contra os patrões pela tarifa zero. Reagrupamento revolucionário.

E óbvio, PSOL não poderia ficar de fora dessas mobilizações.

Em cinco de março de 2012, em novo ato contra o aumento das barcas, em outro vídeo exibido pela TV Pula Roleta, aos 1:48 min, um militante do PSOL participa do evento um tanto irreverente feito pelos jovens, em frente às barcas do Rio de Janeiro. 

A partir dos 06:15 min, uma imagem que dá um prelúdio do ano que se seguiria a 2012. Um manifestante, de preto, ostentando uma bandeira preta, ao lado de uma bandeira do…PSOL. 

JUNTANDO AS PEÇAS DO QUEBRA-CABEÇA…

Mas afinal de contas, quem era esse tal de “Juntos!” nas manifestações?

Segundo o próprio site deles, é um coletivo de juventude que se organiza de norte ao sul do Brasil, nas escolas, universidades, bairros, locais de trabalho e onde quer que esteja a juventude INDIGNADA que busca TRANSFORMAÇÃO. A missão do coletivo é para intervir na realidade, e também construir uma sociedade radicalmente diferente. 

Foi fundado em 2011, inspirado “nas grandes rebeliões populares que agitaram o mundo em resposta à crise de 2008, como a Primavera Árabe…”. “Sabíamos que essa onda de revoltas chegaria ao Brasil, e que precisávamos oferecer uma ferramenta de organização para a juventude estar na linha de frente dessa luta. Atentos e prestando solidariedade ativa às lutas internacionais, no Brasil impulsionávamos as mobilizações contra a usina de Belo Monte, as Marchas das Vadias e os protestos contra a ‘cura gay’ de Marco Feliciano”. 

Segundo nota do coletivo, as grandes manifestações das jornadas 2013 foram impulsionadas pelos eventos internacionais, jornadas das quais se orgulham muito de terem sido parte ativa da construção. Uma rebelião que começou por conta do preço da tarifa e se transformou num levante contra o regime político apodrecido e por mais investimento nos setores públicos. A partir dessa luta, conforme o Juntos! a mobilização nas ruas como método de luta voltou ao horizonte de milhões de brasileiros, e desde então, seguiram-se a primavera feminista, as ocupações de escolas e universidades e as fortes greves gerais no governo Temer. 

Também construíram uma resistência contra o governo Bolsonaro. Construíram o #EleNão. Juntos! Ocupou o parlamento: foram a juventude da campanha de Luciana Genro, candidata pelo PSOL. 

Segundo o site, “Em 2018, elegemos três deputados federais do Juntos!: Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna e David Miranda, todos pelo PSOL…”. Ou seja, aparentemente esse coletivo tem uma ligação quase que intestinal com o partido, por ter se esmerado tanto em eleger candidatos dessa legenda. 

O coletivo constrói sua militância nas universidades e escolas, em parceria com a Rede Emancipa de educação popular. O Rede Emancipa faz parte da Frente Povo Sem Medo. 

Algo muito interessante nesse coletivo deve ser destacado: o diálogo internacional. “Se o capitalismo é global, nossa luta também deve ser. Lutamos para construir vínculos e solidariedade ativa em todos os lugares do mundo onde há luta e resistência contra o poder do capital e da extrema-direita”. Logo, o diálogo com entes internacionais com mesma linha ideológica é importante para a entidade. Como eles mesmos se afirmam, são anticapitalistas e internacionalistas.

O que parece se elucidar é que as jornadas de 2013 não foram um evento orgânico da população, mas sim um evento estimulado por segmentos partidários de esquerda, em diálogos internacionais. Esse estímulo foi construído anos antes, em grupos de juventude organizados. São grupos mais fáceis de organização e combativo com autoridades. E há um fator muito importante nesse tipo de militante: a empatia com o povo.  Afinal de contas, ver um policial batendo num jovem de dezessete, dezesseis, quinze anos, é uma grande maldade para qualquer um, não é? E dessa situação constrangedora os agentes de segurança pública padeceram nos anos seguintes, em níveis cada vez mais crescentes de conflito. Pois, como foi dito por um grupo de manifestantes na CET-RIO, se houver algum tipo de violência, a culpa será sempre dos agentes de segurança. 

E qual jogo que fica? Se houver conflito, melhor. Pois se ataca a autoridade policial, por um lado; e se ataca o governo, por outro. 

Uma causa aparentemente justa é sempre o melhor estopim para um levante. Ainda mais com uma força de mobilização que detém a simpatia popular pela sua própria natureza imatura: a juventude. O jovem, no conceito geral da população, não é considerado alguém que saiu da infância e se encontra muito próximo da vida adulta, com direitos, deveres e senso de responsabilidade proporcional à sua percepção das coisas. Para o “afegão médio”, o jovem é a criança que ainda não cresceu. E essa falha na percepção da realidade é a grande arma para se sensibilizar a opinião pública. 

Por isso 2013 foi emblemático. Mas, antes de falarmos da praça de guerra, precisamos falar de alguns agentes de campo especializados…

CAPÍTULO II – UM BREVE RAIO-X DO MOVIMENTO PASSE LIVRE E O SURGIMENTO DOS ANTIFAS NO CENÁRIO BRASILEIRO

Segundo Wikipedia, O Movimento Passe Livre foi constituído numa plenária realizada em janeiro de 2005 no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, a partir de grupos e coletivos que pautavam a luta pelo passe livre estudantil em várias cidades brasileiras.

E o InfoEscola, acerca do Fórum, traz-nos um esclarecimento interessante a se destacar:

É importante frisar que o Fórum não se opõe ao movimento globalizador, mas propõe uma globalização tecida por interesses e responsabilidades mútuas, na qual todos têm seus interesses preservados e são interdependentes, algo como uma imensa teia de obrigações recíprocas de direitos igualmente respeitados, principalmente os da própria Natureza. É assim que seus integrantes e o criador deste evento, o engenheiro Oded Grajew, do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, imaginam o Fórum, como um meio essencial para promover a mudança do Globo. Daí seu slogan: um outro mundo é possível

Lembrou-se de Oded Grajew? Ex-assessor especial do presidente Lula que recebeu grana da Open Society? Pois é. Ele foi mencionado em Máfias Geopolíticas e o Brasil. 

Dentro do Fórum que ele idealizou nasceu o Movimento Passe Livre. Coincidência, não?

Conforme site da própria organização, o Movimento Passe Livre (MPL) era um movimento social autônomo, apartidário, horizontal (?!) e independente, que lutava por um transporte público gratuito para o conjunto da população e fora da iniciativa privada.

 Foi batizado na Plenária Nacional pelo Passe Livre, em janeiro de 2005, em Porto Alegre. Fatos importantes na origem e na atuação do MPL foram a Revolta do Buzu (Salvador, 2003) e as Revoltas da Catraca (Florianópolis, 2004 e 2005). Em 2006, o MPL realizou seu 3º Encontro Nacional, com a participação de mais de dez cidades brasileiras, na Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

ABRINDO UM PARÊNTESES

O MST tem contatos influentes.  Um deles é o ministro Gilmar Mendes, o qual aceitou um convite da organização para uma live na internet, em agosto de 2020, com a presença dos presidentes dos principais partidos da oposição ao governo atual. O evento foi transmitido pela organização para convidados do movimento, magistrados, juristas, políticos, artistas, além de bispos da Igreja Católica e Anglicana e presidentes das principais centrais sindicais do país. 

Apesar de prometer que falaria sobre a saga que tem marcado o ano 2020 sobre a COVID-19, Mendes foi além. Fez o que parecia ser um relatório de suas atividades como ministro diante das ações do governo federal e outras medidas, no contexto da pandemia. 

Gilmar Mendes afirmou que o Supremo Tribunal Federal “não faltou ao povo brasileiro” durante a crise: “Ele [STF] defendeu o texto Constitucional, algumas vezes de forma criativa”. 

Não seria melhor dizer… por protagonismo judicial, conforme ensinou Lewandowski? 

Entre os participantes estavam o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), e os presidentes do PT, Gleisi Hoffmann, Carlos Lupi (PDT), Carlos Siqueira (PSB), Luciana Santos (PCdoB) e Juliano Medeiros (PSOL), além de parlamentares dos partidos, os ex-ministros da Justiça Tarso Genro e José Eduardo Cardozo, de presidentes das centrais sindicais e apoiadores do MST, como o cantor Chico Buarque.

Cerca de 70 juízes e 200 juristas participaram do encontro, além dos presidentes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Sérgio Nobre, do presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT, Ricardo Patah, e de representantes da Intersindical e da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). Ao todo, cerca de 1,2 mil pessoas acompanharam o evento.

Por falar em juristas, em reportagem do site O Antagonista em 30 de outubro, Rodrigo Maia (DEM), criou comissões de juristas “que trabalham em sigilo para tornar leis já existentes menos rigorosas com os corruptos”, conforme matéria da Revista Crusoé, ligada ao site. Segundo o periódico, “vale até limitar a liberdade de imprensa”.

A reportagem informa que seis dos integrantes são ou já foram professores do Instituto Brasiliense de Direito Público, o IDP, fundado pelo ministro Gilmar Mendes. Entre eles está Laura Schertel Mendes, filha do ministro e RELATORA DO ANTEPROJETO DA LGPD Penal(…). Entre os integrantes, estão DEFENSORES DE RÉUS DA LAVA JATO, acusados por CORRUPÇÃO E LAVAGEM DE DINHEIRO. 

Imagine o resultado disso, leitor. 

FECHA O PARÊNTESIS

Voltando ao Movimento Passe Livre, as características da organização são peculiares:

– Autonomia e independência: segundo eles, as pessoas envolvidas na mobilização são responsáveis pelas escolhas e criação das regras do movimento, sem depender de organizações externas como e/ou entidades estudantis e financiamentos que exijam contrapartidas. Provar essa independência com fatos parece um pouco difícil  nas ações políticas de campo, porque entidades estudantis, de cunho partidário, e até partidos políticos participam nos movimentos. E isso é até justificado a seguir. 

– Horizontalidade: não havia hierarquia no movimento, nem uma direção centralizada onde poucos decidiam por muitos. Todos tinham igual poder de participação. Lucas Legume, em artigo ao Esquerda Diário, diz sobre a horizontalidade: “…expressa na divisão e na rotatividade de tarefas – o que seria fundamental para consolidar uma democratização de saberes e não consolidar posições hierárquicas…”

Com essas duas características acima, uma outra consequência prática era a dificuldade de responsabilização pelos atos realizados nos movimentos. Como era uma massa sem uma liderança (verticalidade), sem hierarquia, sem controle de comitês centrais partidários, o diálogo com autoridades públicas ficava a cargo daquele que assumia interinamente o diálogo com o movimento. Ainda assim, ninguém, em tese, poderia ser responsabilizado, dadas as características do MPL. 

Uma prova da dificuldade de definição de lideranças, pelo princípio da horizontalidade, ficava claro neste trecho de Legume ao periódico progressista: 

“A organização do MPL enquanto movimento social sempre teve dificuldade de definir quem fazia – e quem deveria fazer – parte do movimento. Ao longo do tempo tentamos desenvolver algumas definições de que movimento éramos, porém a ausência de registro regular e de sistematização não permitiu a generalização e a perpetuação desses saberes”. Ainda: “a ausência de registros fazia com que as práticas e reflexões feitas pelo próprio movimento só fossem passadas adiante em espaços informais”. Pelo que parece, apesar de uma aparente horizontalidade, a organização do movimento tinha submissão a ordens gerais. Mas, para não gerar a tal verticalidade, hierarquia, e consequente responsabilização por autoridades, práticas e reflexões eram repassadas em espaços informais, longe de futuros registros que poderiam comprometer o movimento. 

– Apartidarismo mas não anti-partidarismo: não se organizam para eleições, mas defendem política além do voto, na prática cotidiana. Porém, afirmam categoricamente que ser apartidário não significa ser antipartidário. Militantes de partidos políticos eram totalmente benvindos para colaborar na pauta. 

Ou seja, não tinha uma bandeira partidária, logo era “apartidário”, mas, debaixo do movimento, poderiam reinar milhares de partidos e militantes. Poderiam ser de vários espectros ideológicos? Bom, não necessariamente, pois, segundo a página Passe Livre – Manifestações 2013:

“Os integrantes do MPL foram pressionados por diversos participantes a abraçar OUTRAS CAUSAS DA ESQUERDA POLÍTICA e disseram que concordam com as demandas (logo, era de esquerda e abraçava outras causas dela, dando uma diversidade de pautas apenas progressistas). “O MPL, como movimento social, tem sua bandeira”, como disse o professor de História Lucas Nogueira, um dos integrantes do MPL. Segundo Nogueira, isso não significava que o grupo não apoiasse atos de outros movimentos sociais, nem que excluísse a participação de partidos políticos de esquerda. “Os partidos como o PSOL e PSTU nos apoiam faz tempo e o apoio é benvindo”.  

Lucas Legume, ao alegar o fim do MPL em artigo ao Esquerda Diário, faz alguns apontamentos interessantes:

“O MPL sempre teve como uma de suas características centrais a crítica à “velha esquerda”, o surgimento do movimento foi fruto de uma heterodoxia na qual ex-militantes leninistas se aproximaram de práticas dos grupos autônomos. Não era uma revisão doutrinária ou de princípios abstratos, mas uma reflexão vinda da experiência concreta de luta”.

 “….Estabelecemos como princípios a autonomia, a independência, o apartidarismo e a horizontalidade”.

“Contudo, os princípios foram transformados em nossa própria doutrina. Considerávamos essa a única perspectiva correta de atuação e, portanto, seríamos superiores aos demais agrupamentos de esquerda”. Logo, o MPL tinha um eixo ideológico claro: a esquerda. 

A estrutura do movimento, segundo o ativista, criou um novo tipo de alcance, muito mais amplo:

A base social mais difusa que a dos movimentos tradicionais se deve a uma organização baseada não por um local de trabalho ou de moradia, mas por uma demanda que afetava diferentes pessoas ao mesmo tempo. Essa caracterização relacionava-se com a possibilidade de uma atuação ampla não sujeita a restrições territoriais ou por ocupação…”. 

OLHANDO UM DOS CAMPOS DE BATALHA: SAMPA. 

Em seis de junho de 2013 houve ato contra o aumento de tarifas do transporte público na cidade de São Paulo. 

Em um vídeo exibido pela ADVP (Ação Direta de Vídeo Popular), podemos observar algumas coisas interessantes no primeiro ato contra o aumento de tarifas do transporte público paulista.

– Grupos ligados ao PSOL, assim como PSTU, são parte integrante na mobilização. Lembremos do testemunho dado pelo Coletivo Juntos!, ligado à sigla. Há bandeiras de outros grupos como União Juventude Rebelião, que faz parte da Frente Povo Sem Medo. 

– A predominância é de jovens. Para garantir a força de suas ações táticas, eles paralisam o trânsito arriscando-se entre os carros em alta velocidade. 

– Obstáculos são colocados à rua para atrapalhar as ações policiais. Lembrando novamente que os agentes são em sua maioria jovens. 

– Aos 3:14min do vídeo, uma mensagem é colocada: “A manifestação que teve início na frente do Teatro Municipal foi brutalmente reprimida pela polícia. Vários blocos de manifestantes se somaram em focos de resistência pelas ruas, terminais de ônibus e estações de metrô. Porém, no próprio vídeo exibido pelo canal, as forças de contenção eram pequenos grupos, não chegando a dezenas de policiais, enquanto que os grupos manifestantes alcançavam, em alguns pontos do vídeo, às centenas. A desproporção é gritante do corpo policial, como se vê aos 2:30min e 2:59min. 

– Aos 4:30min, um agente de trânsito fala que vai pegar uma pessoa, mas é contido pelo colega por sua atitude. O grupo de trânsito não é um grupo tático de contenção. Logo, não teria condições de lidar com a massa de centenas de manifestantes. Retiraram-se. Logo após, entra em ação grupos policiais com equipamento tático, como escudos e balas de efeito moral. Percebe-se que a ação é para dispersão de multidão, não para ataque direto. Enfim, reforços chegam com a mesma ação tática: grupo fechado, de forma contida, com balas de dispersão, tentando evitar o confronto direto. 

– E sempre, sempre, as ações são filmadas. Pelos grupos supostamente independentes, como o Ação Direta de Vídeo Popular.

Em vídeo sobre o terceiro ato contra o aumento das tarifas, em 11 de junho de 2013, uma mensagem nos recebe: “Terça-feira, dia 11 de junho de 2013, a polícia agrediu manifestantes e prendeu jornalistas que participavam do ATO CONTRA O AUMENTO da passagem de ônibus em São Paulo”

“Nesta quinta-feira, 13 de junho, A LUTA CONTINUA: 1. Para a redução da tarifa; 2. Contra a violência de Estado-policial e 3. Pela imediata liberação d@s companheir@s pres@s!”

Perceba, leitor, que uma ordem geral é repassada pelo próprio vídeo àqueles manifestantes que participam do movimento. Apesar de ser um movimento dito horizontal. 

– Entre os manifestantes, um bom número de mascarados. Um presságio de guerra. Ao som do bumbo ritmado por um jovem, uma voz feminina, replicada pela multidão, fala do histórico das mobilizações:

“… Não é só São Paulo que está na luta contra o aumento da tarifa. Goiânia barrou o aumento. Rio de Janeiro também está na luta. Natal.  E São Paulo é o próximo. 

Ou seja, há um diálogo entre as militâncias gestadas nos mais variados Estados. Há uma organização, com inclusive exposição das progressões da mobilização, em caráter nacional, através dessas chamadas. 

Uma bandeira nos recebe, de cores vermelha e preta. No mesmo estilo de bandeiras encontradas em movimentos antifascistas, como os ocorridos em 2020. Um exemplo é a foto de capa da reportagem sobre o movimento, segundo o site Pleno News. Também encontramos uma bandeira vermelha e preta no ato de…Torcidas antifascistas no ano de 2020. 

Sobre o movimento antifascista, a reportagem nos esclarece:

Segundo o historiador Mark Bray, que escreveu o livro Antifa: The Antifascist Handbook (Antifa: O Manual Antifascista, em português), o logotipo usado atualmente possui duas bandeiras, uma preta e uma vermelha, dentro de um círculo. A bandeira preta representando o anarquismo e a vermelha o comunismo e socialismo.

Outro detalhe a ser considerado no símbolo é que as bandeiras fluem da direita para a esquerda, fato que apesar de não ter seu motivo explicado oficialmente é fora do comum no que diz respeito a bandeiras, que geralmente são representadas tremulando da esquerda para a direita, o que pode representar um rompimento com a ordem estabelecida.

– Nos cartazes exibidos, está um com os dizeres: “ETESP na luta contra o aumento da passagem”. ETESP é a sigla para Escola Técnica de São Paulo. Um reduto de juventude que faz cursos técnicos. Ou seja, jovens de lá podem ter sido mobilizados para as jornadas.

– A UJS (União da Juventude Socialista) mostra sua presença na mobilização.  Assim como o Juntos!, ligado ao PSOL. 

– As forças policiais acompanham a manifestação com motos (3:14min), e a pé (6:13min). Aos 6:21min, uma das preocupações principais da força policial, o vandalismo (queima de um ônibus), foi despertada em um dos agentes, o qual foi acalmado pelo colega a seu lado. 

– Aos 8:28min e seguintes, junto a uma tropa de contenção policial, localizada a certa distância de um conflito, outra tropa se forma logo atrás, cortejando a formação: de desconhecidos com câmeras e celulares. Entre eles, vários jovens de mochilas. Um dos policiais denuncia a fraqueza tática da situação: “Ó a retarguarda ae, tô sozinho na retarguarda, tô sozinho”. A própria câmera que nos dá as imagens infiltra-se facilmente para a poucos metros de distância do grupo de policiais, mostrando claramente o acesso fácil. Coros de “fascista!”, “pra que isso?” acompanhavam o pelotão, não só denunciando a posição do grupo, como também trazendo mais um elemento para atrapalhar o foco na ação tática. A voz parece vir de onde está o grupo de câmeras e supostos jornalistas independentes: atrás e junto ao pelotão. Note um detalhe: não há, entre os vários com câmeras, credenciais de reportagem. Ou seja: poderia ser qualquer pessoa a filmar o processo. Inclusive manifestantes, o que se parece denotar aos 9:23min, onde há um rapaz segurando uma placa, acompanhando os policiais. Ou seja, pela própria câmera, e pelos componentes do grupo, o que se parece ver, pelos vídeos apresentados, é uma pressão de manifestantes junto ao grupo de profissionais de segurança, restringindo sua ação tática não só pela sua presença, mas pelas câmeras exibidas. A questão não está na filmagem em si, mas nas edições de cada narrativa que poderia ser criada a partir de um fato real, não importando o lado. E isso inibe ações táticas: seja para restringir abusos da autoridade policial, seja para a ação policial impedir o caos na ordem pública. 

– Aos 9:41min, conduções coercitivas ocorrem. Acumula-se jovens com câmeras a redor de uma viatura policial. Como a massa de desconhecidos sem credenciais ao redor traz dúvidas à autoridade policial, este inicia uma ação de alerta: ordena o afastamento de elementos estranhos à atividade, com ordens de “sai fora, sai fora”. 

– Aos 10:23 min, uma nova plenária surge no meio da rua. Há uma nova convocação e uma lembrança das atividades militantes em outros Estados. Como se percebe, apesar horizontalidade, a organização é muito bem estruturada. 

“…Todos que estão aqui devem ter o compromisso de mobilizar as suas quebradas para quinta-feira, às cinco horas, no Teatro Municipal, a gente parar a cidade de novo. Porto Alegre, Rio de Janeiro, Goiânia e São Paulo”. 

– Aos 11:19 min, uma tomada da câmera mostra a pichação a um ônibus com os dizeres “polícia fascista”. Perceba que a alcunha “fascista” já era trabalhada em 2013. Não é apenas algo recente. Mas construído dentro desses movimentos. Entre os jovens. Constantemente. 

E sigamos uma lógica simples, leitor: quem combate fascista éAntifascista, não é?

– Aos 12:42min, uma máscara específica para gás é ostentada por um dos manifestantes, no meio de gases de dispersão atirados pelas forças de segurança. Agentes de trânsito e forças policiais tentam dispersar a multidão, seja marchando ocupando espaço, seja através de agentes fazendo ações isoladas. Vários jovens com celulares e câmeras potentes, dentro dos movimentos, seguem fazendo registros. Não há credenciais de reportagem. Forças táticas em motos também tentam auxiliar na dispersão. 

– Aos 14:35min, uma situação de tensão: o câmera é abordado por um policial de moto para que se disperse: “desce, desce, desce, desce”. Com a insistência da permanência do dono da gravação, a ordem se torna mais enérgica. Devido à pressão feita pelas motos, o câmera se afasta, afinal. Outra tomada se segue: uma mulher é contida por dois policiais. Uma outra mulher chega  e um agente numa moto se interpõe entre esta e a ação de condução. Pessoas aglomeram. A mulher, que fora contida, é solta. E, como um presságio do próximo ato, duas frases terminam a exibição da mobilização: “Acabou o amor. Isso aqui vai virar inferno!” “Acabou o amor. Isso aqui vai virar Turquia!”

TURQUIA: O REFERENCIAL PARA O CASO BRASILEIRO

O Juntos! responde nossa estranheza à menção da Turquia feita por manifestantes das jornadas de 2013. Afinal, como o próprio grupo ligado ao PSOL havia confirmado, eles ajudaram a construir o movimento. Então, nada melhor do que os consultar, não é mesmo? 

Em 09 de junho de 2013, ao entrevistar Serkan Özkan, estudante da Universidade de Cukurova, localizada ao sul da Turquia, fala sobre os movimentos no país.

Os primeiros parágrafos da reportagem que encontramos são bem dramáticos:

A Turquia está em chamas, as chamas da revolução por uma democracia real e pela liberdade do povo, há exatamente 9 dias. Desde 2011, vimos o povo árabe derrubar ditaduras com muita mobilização por parte do povo que sofre com a intensa repressão policial.

…Jovens protestam contra a política do governo de cortar árvores, por exemplo, para a construção de um shopping center no Parque Gezi. Suas armas são apenas ideias e livros. Situação muito parecida (?!) com o que acontece no Brasil, da Amazônia, ao sul do país, como aconteceu em Porto Alegre, na última semana. Na Turquia, as mobilizações já duram nove dias, com milhares de pessoas nas ruas, contra Erdogan. 

Para o Juntos!, a Turquia é aqui. Essa realidade se manifesta durante os diversos protestos por um transporte público, de qualidade, contra o aumento da tarifa em diversas cidades do país, ou ainda na luta pela Educação Pública, moradia, entre tantas outras pautas. 

Na entrevista, porém, há algumas diferenças. Serkan afirma, na entrevista, que as mobilizações são muito pacíficas. Muitas vezes com crianças e também idosos. Sobre a repressão policial, em um primeiro momento eles eram muito violentos, porém mudaram: tentaram convencer a não protestar. Até a entrevista, seis policiais cometeram suicídio por não quererem impedir os manifestantes, por pressão do governo.  

Segundo o estudante, o caso do parque nacional chamado Gezi, em Istambul, foi um conflito gerado pela iniciativa do governo em cortar árvores, para ganhar dinheiro de forma ilegal, pois na Turquia há leis de preservação ao meio ambiente. Um grupo de pessoas se reuniu no Gezi de madrugada, para impedir o corte de árvores. A polícia apareceu de repente às 5 horas da manhã e começou a queimar tendas, jogar gás de pimenta, sendo que 16 pessoas foram presas. Ainda, segundo o Serkan, o próximo passo das manifestações seria…Depor o governo. 

Porém, depor o governo seria um problema, pois, conforme o entrevistado, os turcos não desejavam brigar. Eram pacíficos. Para se ter uma ideia, depois das manifestações, os protestantes realizavam mutirões de limpeza para deixar os parques e ruas limpos. 

A última pergunta a Özkan, feita pelo Juntos!, para descrever qual é o grande sonho do estudante para a Turquia, é um pouco estranha, para o grito de guerra nas manifestações em São Paulo:

“…Na verdade, nós não estamos tão mal para ter um sonho. O que eu quero dizer é nós estamos sendo forçados a isso, mas nos países árabes as pessoas estão lutando para mudar o país. Porém, aqui na Turquia, nós sempre quisemos viver com independência e liberdade. Está em nosso sangue. Eu não tenho sonhos, mas quero que o governo seja deposto”.

Pelo que parece, a Turquia, pelo estudante, não estava, naquele momento, na vibe de querer virar um…Inferno. 

RETORNANDO A SAMPA

O vídeo sobre o quarto ato contra o aumento das tarifas em São Paulo, realizado em 13 de junho, inicia com um título bem peculiar: “a barbárie da PM Paulista”. 

Um resumo do ato, segundo o vídeo, segue abaixo:

“No dia 13 de junho de 2013, a Polícia Militar de São Paulo novamente reprimiu com brutalidade a passeata do Movimento Passe Livre. Deixando mais de 1000 feridos, 215 presos e uma cidade em pânico”. 

Novamente uma bandeira vermelha e preta, similar às encontradas nos movimentos antifascistas, é destacada no vídeo. Alguns participantes do Movimento Passe Livre fazem alguns relatos, a partir de 1:10min, sobre alguns detidos e presos na manifestação passada:

“Na manifestação passada, teve vários presos. Dentre esses presos, dez ‘tão’ sendo colocados como presos por formação de quadrilha. Essa prisão por formação de quadrilha, junto com outros crimes, coloca eles sob uma condição inafiançável, e uma parte deles já está no CDP (Centro de Detenção Provisória)”. 

“Eles permanecem detidos…Os advogados que ‘tão’ ajudando o movimento ‘tão’ fazendo todos os esforços possíveis… Inclusive tinham entrado com habeas corpus, mas houve a transferência de dois presos pro presídio de Tremembé, de Segurança Máxima, que dificulta a soltura e atrasa a soltura desses dois camaradas, e há uma companheira em Franco da Rocha. Os demais ‘tão’ no segundo DP ainda, e a gente vai continuar fazendo esforço para libertá-los o mais rápido possível…E a nossa maneira de fazer isso é demonstrando a nossa força aqui na praça hoje”

“É um absurdo o crime de formação de quadrilha porque a definição criminal de formação de quadrilha é se reunir com a pretensão, com o objetivo de cometer um crime, de incorrer em crime. Ninguém veio aqui fazer crime, quem cometeu crime foi a Polícia Militar” (essa fala final não lhe é estranha, não é, leitor?).

“Então…Dois deles iam ser libertados agora, já ‘foram paga’ a fiança, ‘tavam’ no presídio de Tremembé…Além disso tem outros dez sem a fiança estipulada, e que já foram transferidos para a cadeia…A gente ‘tá’ tentando libertar eles (…), reverter essa situação, mas é muito difícil…E tem um preso com a fiança absurda de vinte mil reais. A gente já entrou com um pedido de habeas corpus pra eles, pra eles serem libertados, mas o pedido ainda não foi julgado pela juíza”. 

Quando surge uma indagação sobre o porquê de alguns membros terem sido presos em um presídio de segurança máxima, palavras-chave surgem no horizonte:

“Não tem motivo algum. É bom deixar claro que eles são presos políticos, são os nossos reféns de guerra. E a responsabilidade disso são dos governantes Haddad e Alckmin, que mantêm esses reféns como forma de pressionar e amedrontar o nosso movimento. Mas essa daqui é a demonstração de que nós estamos organizados, nós vamos reagir a isso. Não vamo permitir com que nossos companheiros estejam presos e que o movimento, que é legítimo, justo, seja criminalizado”.

Sobre o trabalho de militância do Movimento Passe Livre, revelações surpreendentes e óbvias aparecem:

“A gente faz trabalho em ESCOLA desde 2005…Nos últimos anos a gente faz trabalho em ESCOLAS EM COMUNIDADES, o Movimento Passe Livre faz trabalho em escola, faz debates em escolas, faz organização em escolas, e é fruto dessa organização cotidiana, ao longo de todos os anos de trabalho, que a gente tem uma luta contra o aumento forte como essa”.

Veja isso, leitor: segundo um de seus membros, um movimento de esquerda faz um trabalho POLÍTICO por OITO ANOS, COTIDIANAMENTE, EM ESCOLAS. ORGANIZA ESTUDANTES, que deveriam estar na escola aprendendo matérias elementares da vida, A PARTICIPAR DE AÇÕES INCLUSIVE PARA ENFRENTAR POLICIAIS. O fato de ESTUDANTES ENFRENTAREM FORÇAS DE SEGURANÇA É UM FRUTO DE ANOS DE TRABALHO, logo a intenção era justamente esta: uma militância estudantil pronta para ser ativada em momentos interessantes politicamente para determinados grupos políticos.

É tão bom deixar seu filho despreocupado numa escola, não é, leitor? Pra que saber o que ele anda aprendendo por lá, não é? Vai ver que… Trampar na porrada com a polícia seja uma boa maneira de começar a vida adulta, não é mesmo?

Embora tenhamos visto jovens paralisando trânsito, no meio de carros andando velozes na via, pichações em ônibus, com palavras agressivas a policiais, e palavras de ordem que esta manifestação iria virar um inferno (ou melhor, uma Turquia), o relato de um manifestante tenta apresentar outro tom, aos 3:45min:

“A expectativa hoje é fazer um ato muito grande, muito bonito…(…) A Polícia Militar, junto com o Governo do Estado, fizeram um terrorismo na mídia nas últimas 48 horas…(…)Colocaram até cota-preso aqui. Tem oitenta pessoas que tem que prender. Nunca vi preso ter cota, a gente não pode ser preso a priori, né, a priori é ser inocente, mas pelo jeito aqui a gente a priori é culpado. Até fazer um ato pacífico. Hoje os grupos isolados, a expectativa é que eles sejam mais acuados, pela presença ostensiva da PM, nosso objetivo nunca foi quebrar nada…”

“…Mas, de uma forma ou de outra, esse movimento ganhou um IMPACTO POLÍTICO (AH! NÃO DIGA!!!), que nunca nenhum movimento (…) pela redução da passagem em São Paulo ganhou. Vamos fazer mais um, e mais outro, e mais outro, até baixar”. 

A União da Juventude Socialista (UJS) marcou presença entre as bandeiras que tremulavam entre os manifestantes. Assim como a bandeira da União Brasileira dos Estudantes Secudaristas (UBES).

O reforço policial e dos agentes de trânsito foi grande nesse dia. A palavra de ordem dos manifestantes diante das forças de segurança, de início, foi “sem violência”. 

Vários manifestantes mascarados e outros, munidos de câmeras e celulares, mantinham-se focados diante dos agentes do governo. 

Essa situação de tensão logo iria cambiar para conflito, óbvio. Gases de dispersão foram usados. Palavras de ordem surgiram na multidão : “Polícia! fascista!”.

E, NO MEIO DE ESTUDANTES…UM EX-TERRORISTA?!

Aos 9:37min, surge uma entrevista inusitada, no meio da rua, no meio da manifestação, com José Luiz Del Roio. Segundo o vídeo, em 2013 ele era assessor Especial da Comissão Nacional da Verdade e ex-senador da Itália. 

Se assessor especial é ser colaborador da Comissão Nacional da Verdade, então é verdade (perdoe o trocadilho), pois ele está na Comissão como colaborador dela. 

Roio se pronuncia no vídeo:

“A Polícia Militar, como tal, não deveria existir. (…) Nós deveríamos ter uma polícia: inteligente, capaz, competente, para defender o cidadão contra criminosos…”

Lembrou a “greve eterna”, companheiro de leitura?

Mas, vamos saber um pouco mais sobre Luis Del Roio?

Segundo a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, pertencente à Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo, Roio tem uma vida dedicada à militância comunista. Atuou, entre outras tarefas, na criação de sindicatos rurais. Foi um dos organizadores da Ação Libertadora Nacional (ALN). Perseguido no Brasil teve que se exilar e passou a viver em países como Chile, Cuba, Peru, União Soviética e Itália. Neste país atuou como radialista e participou com outros companheiros da criação do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro. Os documentos do Arquivo se encontram atualmente depositados no CEDEM da Unesp. Ainda na Itália, Del Roio foi Senador da República italiana em Roma. Também exerceu os cargos de Deputado da Assembleia parlamentar do Conselho de Europa em Estrasburgo e Deputado da União Européia Ocidental em Paris.

Segundo Roio, em abril de 2020, o caminho para sair da combinação de uma crise tecnológica, financeira e de saúde está em uma palavra que muitos temem: REVOLUÇÃO. 

Na opinião do ativista, “o sistema financeiro mundial está totalmente debilitado. Essas crises estão se cruzando de uma forma difícil de analisar. Quando a crise é tão forte só através de uma revolução”, reiterou.

Sobre a Ação Libertadora Nacional, na qual Roio foi um dos organizadores, nada melhor que uma mídia como Brasil Escola para nos informar sobre:

A Ação Libertadora Nacional, conhecida também pela sigla ALN, foi uma das facções revolucionárias de orientação comunista que atuaram no Brasil durante o período do Regime Militar (1964 a 1985). Valendo-se dos métodos da guerrilha urbana, como assaltos, sequestros e AÇÕES TERRORISTAS, a ALN, que tinha como principal comandante Carlos Marighella, foi formada em 1968 a partir de uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Além de Marighella, outros dois importantes comandantes da facção foram Carlos Joaquim Câmara Ferreira e Carlos Eugênio da Paz.

Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira eram antigos integrantes do Partido Comunista Brasileiro. Em 1967, após a criação da OLAS, Organização Latino-Americana de Solidariedade, por parte de Cuba, da qual Marighella participou da primeira conferência, perspectivas diversas daquelas do PCB apareceram. A OLAS propunha “exportar” a revolução (que até então havia sido “exitosa” em Cuba) para toda a América Latina. Uma das propostas estratégicas para isso era a “teoria do foco revolucionário”, elaborada por Ernesto “Che” Guevara e Regis Debray, que pregava a instalação de vários focos guerrilheiros no continente, a fim de, partir deles, tomar o poder.

Marighella, Joaquim Câmara Ferreira e outros membros do PCB, influenciados pelos teóricos cubanos, decidiram romper com a perspectiva legalista democrática do partido e formar uma dissidência, com vistas ao início imediato do combate armado. O núcleo dessa dissidência nasceu ainda no ano de 1967, em São Paulo, sob o nome de “Pronunciamento do grupo comunista de São Paulo”. Em 1968, assumiu o nome de Ação Libertadora Nacional.

Cabe ressaltar que a perspectiva da instalação de focos revolucionários de orientação comunistas, com vistas à tomada do poder no Brasil, não era exclusiva da ALN e também era anterior ao próprio golpe militar de 1964. Em 1963, militantes do PC do B (Partido Comunista do Brasil) e da AP (Ação popular) receberam treinamento militar na Academia Militar de Pequim, na China – país que também havia feito sua revolução dentro da perspectiva comunista, e que tinha estratégias de foco revolucionários semelhantes às de “Che” Guevara.

Um dos precursores das estratégias revolucionárias do século XX, o bolchevique Vladimir Lênin, encarava a prática do terrorismo como “a propaganda armada da Revolução”. Ações terroristas sempre estiveram relacionadas às atividades revolucionárias, fossem elas anarquistas, comunistas ou nacionalistas. Guarde esse último parágrafo na memória, leitor. 

A ALN, em seu programa, deixava claro que: “Todos nós somos guerrilheiros, terroristas e assaltantes e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem o dever de fazer a revolução”.

Carlos Marighella, que escreveu o Mini-Manual do Guerrilheiro Urbano (livreto lido por facções comunistas de várias partes do mundo), desenvolveu todo um tópico advogando pela prática do terrorismo como “arma” decisiva para o revolucionário:

‘O terrorismo requer que a guerrilha urbana tenha um conhecimento teórico e prático de como fazer explosivos. 

O ato do terrorismo, fora a facilidade aparente na qual se pode realizar, não é diferente dos outros atos da guerrilha urbana e ações na qual o triunfo depende do plano e da determinação da organização revolucionária. É uma ação que a guerrilha urbana deve executar com muita calma, decisão e sangue frio. 

Ainda que o terrorismo geralmente envolva uma explosão, há casos no qual pode ser realizado execução ou incêndio sistemático de instalações, propriedades e depósitos norte-americanos, fazendas etc. É essencial assinalar a importância dos incêndios e da construção de bombas incendiárias como bombas de gasolina na técnica de terrorismo revolucionário. Outra coisa importante é o material que a guerrilha urbana pode persuadir o povo a expropriar em momentos de fome e escassez, resultados dos grandes interesses comerciais. 

O terrorismo é uma arma que o revolucionário não pode abandonar’.

As principais ações perpetradas pela ALN durante o período em que a facção esteve em atividade (1968 a 1968) foram: o assalto ao trem pagador da linha Jundiaí-São Paulo (no qual o próprio Marighella esteve à frente), a participação no sequestro do embaixador Charles Elbrick, planejado pelo grupo Dissidência Comunista Guanabara, o assassinato do empresário Henning Boilesen (que era colaborador da OBAN – Operação Bandeirante –, órgão de repressão do Regime Militar) e o assassinato do militante da própria ALN, Márcio Toledo, considerado traidor da facção.

Currículo e conexões invejáveis, não acha?

Segundo o vídeo, Roio foi assessor especial da Comissão Nacional da Verdade. O que raios foi essa Comissão?

Segundo Wikipedia, A Comissão Nacional da Verdade foi um colegiado instituído pelo governo do Brasil para investigar as graves violações de direitos humanos ocorridos entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. Agora o detalhe mais importante: as violações aconteceram no Brasil e no exterior, praticadas por AGENTES PÚBLICOS, PESSOAS A SEU SERVIÇO, COM APOIO OU NO INTERESSE DO ESTADO BRASILEIRO. 

Mencionaram investigação a ações terroristas contra o Estado brasileiro, leitor?

Não. 

Por isso é plenamente justificável um ex-terrorista ser assessor especial numa Comissão que tem como objetivo cobrar reparações do Estado que perseguiu seu grupo tático de ações terroristas, não é?

Mas que presidente acataria esse tipo de constrangimento tão grave ao Estado Brasileiro?

Bom, a comissão foi composta de sete membros nomeados pela presidente do Brasil, Dilma Rousseff, que foram auxiliados por assessores (como Roio, por exemplo), consultores e pesquisadores. 

Por pura coincidência, Dilma Rousseff também participava de uma organização guerrilheira como a ALN: a VAR-Palmares. 

E, segundo reportagem de Reinaldo Azevedo na Veja

A presidente eleita, Dilma Rousseff, para todos os efeitos, nunca pegou em armas, embora ela tenha admitido certa feita ter participado de treinamentos promovidos pela guerrilha — treinamento de quê? Certamente não era de arremesso do Manifesto Comunista. Sempre perguntei que diabos, então, ela fazia na guerrilha. Promovia chás? Participava de sessões lítero-musicais? Parte do mistério começa a ser desvendado. Leiam o que segue. Volto em seguida:

Por Matheus Leitão e Lucas Ferraz, na Folha:

A presidente eleita, Dilma Rousseff, zelava, junto com outros dois militantes, pelo ARSENAL da VAR-Palmares, organização que combateu a ditadura militar (1964-1985). Entre os armamentos, havia 58 fuzis Mauser, 4 metralhadoras Ina, 2 revólveres, 3 carabinas, 3 latas de pólvora, 10 bombas de efeito moral, 100 gramas de clorofórmio, 1 rojão de fabricação caseira, 4 latas de “dinamite granulada” e 30 frascos com substâncias para “confecção de matérias explosivas”, como ácido nítrico. Além de caixas com centenas de munições.

A descrição consta do processo que a ditadura abriu contra Dilma e seus colegas nos anos 70. A Folha teve acesso a uma cópia do documento. Com tarja de “reservado”, até anteontem ele estava trancado nos cofres do Superior Tribunal Militar. Trata-se de depoimento dado em março de 1970 por João Batista de Sousa, militante do mesmo grupo de guerrilha do qual Dilma foi dirigente.

Sob tortura, ele revelou detalhes do arsenal reunido para combater a repressão e disse que Dilma tinha recebido a senha para acessá-lo. Quarenta anos depois, Sousa confirmou à Folha o que havia dito aos policiais – e deu mais detalhes. Dilma já havia admitido, em entrevista à Folha em fevereiro, que na JUVENTUDE fez treinamento com armas de fogo. O documento do STM, porém, é a primeira peça que a vincula diretamente à ação armada durante a ditadura. Procurada pela Folha, a presidente eleita não quis falar sobre o assunto.

O armamento foi roubado do 10º Batalhão da Força Pública do Estado de São Paulo em São Caetano do Sul (SP), de acordo com o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). A ação ocorreu em junho de 1969, mês em que as organizações VPR e Colina se fundiram na VAR-Palmares. Sousa disse que foi responsável por guardar o arsenal após a fusão. Com medo de ser preso, fez um “código” com o endereço do “aparelho” -como eram chamados os apartamentos onde militantes se escondiam.

Para sua própria segurança e do arsenal, Sousa dividiu o endereço do “aparelho” em Santo André (SP) em duas partes. Assim, só duas pessoas juntas poderiam saber onde estavam as armas. Uma parte da informação foi entregue a Dilma, codinome “Luisa”. A outra, passada a Antonio Carlos Melo Pereira, guerrilheiro anistiado pelo governo depois de morrer. O documento registra assim a informação: “Que, tal código, entregou a “Tadeu” e “Luisa”, sendo que deu a cada um uma parte e apenas a junção das duas partes é que poderia o mencionado código ser decifrado”. “Fiz isso para que Dilma, minha chefe na VAR, pudesse encontrar as armas”, diz, hoje, Sousa.

Tido pelos colegas como um dos mais corajosos da VAR-Palmares, Sousa afirma ter sido torturado por mais de 20 dias. Ficou quatro anos preso e, hoje, pede indenização ao governo federal. Aposentado, depois de trabalhar como relações públicas e com assistência técnica para carros no interior de São Paulo, ele diz ter votado em Dilma. Na entrevista, chamou a presidente eleita de “minha coordenadora”. 

[Reinaldo Azevedo ] Voltei
Como vocês viram, aquela que nunca pegou em armas era considerada “chefe” na organização. Parece que ela fazia mais do que tocar piano e promover chás na guerrilha. O Superior Tribunal Militar considerou que o eleitor não tinha o direito de ter acesso a essas informações. Importante destacar que Dilma não faz mea-culpa por esse passado, como podemos classificar? Controverso. Ela insiste ainda hoje que só queria democracia.

Como posso homenagear a verdade neste post? Lembrando as vítimas, inocentes, das duas organizações a que ela pertenceu, cujas famílias não tiveram direito a indenização: Comando de Libertação Nacional (Colina) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares). O segredo de aborrecer é dizer sempre a verdade. Se a presidente eleita se orgulha tanto de seu passado, não custa, então, homenageá-la com nomes. Mas atenção, hein? A arma não estava na sua mão. Ela só era guardiã do arsenal.

PESSOAS ASSASSINADAS PELO COLINA OU COM SUA PARTICIPAÇÃO
–29/01/69 – José Antunes Ferreira – guarda civil-BH/MG
– 01/07/68 – Edward Ernest Tito Otto Maximilian Von Westernhagen – major do Exército Alemão – RJ
– 25/10/68 – Wenceslau Ramalho Leite – civil – RJ

PESSOAS ASSASSINADAS PELA VAR-PALMARES OU COM SUA PARTICIPAÇÃO
– 11/07/69 – Cidelino Palmeiras do Nascimento – Motorista de táxi – RJ
– 24/07/69 – Aparecido dos Santos Oliveira – Soldado PM – SP
– 22/10/71 – José do Amaral – Sub-oficial da reserva da Marinha – RJ
– 05/02/72 – David A. Cuthberg – Marinheiro inglês – Rio de Janeiro
– 27/09/72 – Sílvio Nunes Alves – Bancário – RJ

PESSOAS ASSASSINADAS PELA VPR OU COM SUA PARTICIPAÇÃO
– 26/06/68- Mário Kozel Filho – Soldado do Exército – SP
– 27/06/68 – Noel de Oliveira Ramos – civil – RJ
– 12/10/68 – Charles Rodney Chandler – Cap. do Exército dos Estados Unidos – SP
– 07/11/68 – Estanislau Ignácio Correia – Civil – SP
– 09/05/69 – Orlando Pinto da Silva – Guarda Civil – SP
– 10/11/70 – Garibaldo de Queiroz – Soldado PM – SP
– 10/12/70 – Hélio de Carvalho Araújo – Agente da Polícia Federal – RJ
– 27/09/72 – Sílvio Nunes Alves – Bancário – RJ

Nota – A VAR-Palmares foi a fusão do Colina, de Dilma, com a VPR, de Carlos Lamarca. Os assassinatos praticados por essa última corrente estão aqui porque, na fusão, creio que o grupo levou o seu ativo moral – vale dizer: os seus cadáveres.

Parece que uma presidente, que participou de grupos de ações terroristas, precisava, como colaborador numa Comissão, alguém que também participou de grupos de ações terroristas, para cobrar indenizações do governo que caçava grupos de ações terroristas.

E sabe quem paga a conta das indenizações milionárias, não é, amigo?

Parece que matar certas pessoas pode tornar alguém milionário da noite pro dia. 

DEPOIS DA ENTREVISTA, VOLTEMOS ÀS RUAS…

As palavras de ordem nas manifestações se tornaram mais rigorosas, entre “Polícia Baderneira” e “Sem Violência”. 

Uma tropa de cavalaria das forças de segurança entra em cena. Alguns dos manifestantes ordenam para todos se juntarem e se sentarem. 

Uma mensagem no vídeo aparece: “sempre tentamos nos reagrupar, mas a PM, dessa vez, nos cercou…”

Veja a palavra utilizada: reagrupar. A massa foi desfragmentada. Logo, o poder de força e coesão foi quebrado. Logo, não havia como avançar de forma orgânica no cenário. 

O NEGÓCIO É FAZER BAGUNÇA 

Em 18 de junho de 2013, um grupo de manifestantes tentou invadir a Prefeitura de São Paulo, durante o protesto contra o aumento das tarifas de ônibus e metrô. Guardas civis faziam um cordão de proteção e entraram no prédio, enquanto manifestantes pichavam o local e atiraram objetos. A polícia chegou a usar spray de pimenta contra os manifestantes, depois que atravessaram a proteção de grades que cercava o prédio. Alguns manifestantes tentavam acalmar os mais exaltados e recolocaram as grades de proteção. Até o momento da reportagem não havia informações de pessoas feridas ou detidas. 

O público foi formado na maioria por jovens e estudantes. As bandeiras de partidos estavam proibidas no manifesto. Os únicos estandartes aceitos foram da UNE (União Nacional Estudantil), do próprio “Movimento Passe Livre” e de frentes contra a corrupção. 

Esse foi o sexto protesto promovido contra o aumento das passagens de transporte público. Os primeiros atos foram marcados por confrontos entre policiais e manifestantes. O protesto mais violento ocorreu no dia 13 de junho, quando cerca de cem pessoas ficaram feridas e mais de 200 foram detidas. 

VANDALISMO? NÃO… REVOLTA POPULAR!

No dia 19 de junho, o Movimento Passe Livre disse condenar a violência, mas classificou como “revolta popular” os atos de vandalismo e saque ocorridos em São Paulo no dia anterior. 

Marcelo Hotimsky, um dos líderes do MPL (Movimento Passe Livre), disse que os episódios registrados foram a prova de que “o prefeito vai ter que baixar a tarifa”.

“Tudo o que aconteceu é revolta popular. Se quiser manter a cidade em ordem, vai ter que mudar para conter esse sentimento de revolta”, afirmou Hotimsky em entrevista à Folha. 

A Folha apurou que, na visão da prefeitura paulista, como o movimento não tem comando nem controle, as tentativas de diálogo dificilmente conseguirão prosperar. Ainda, segundo Edson Aparecido, secretário da Casa Civil do governo do Estado de São Paulo, à época, as lideranças do MPL não poderiam ficar alheias aos atos de vandalismo nas manifestações. 

Parece que a tal horizontalidade não passava de um excelente método de estratégia, na prática.

E, mesmo dia, o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e o Movimento Periferia Ativa planejavam parar as ruas da periferia da Grande São Paulo para um protesto a favor das demandas dos trabalhadores.

Com o apoio do MPL.

RETIRADA ESTRATÉGICA

Segundo o jornal O Globo, em 21 de junho de 2013, com a manifestação contra o reajuste da tarifa do transporte coletivo transformada em protesto contra partidos políticos e outras causas que se impuseram ao longo das semanas, o Movimento Passe Livre abandonou o protesto na Avenida Paulista, da mesma forma que os movimentos sociais. 

Representantes do grupo haviam anunciado que não assumiriam, por ora, a frente de novos atos, assim como não levantar nenhuma bandeira sem antes discutir com seus militantes e grupos alinhados à esquerda. 

Assim como os partidos, o Passe Livre, que deu origem às manifestações contra o aumento da tarifa de metrô e ônibus, foi chamado de oportunista, aos gritos, por uma parte dos manifestantes. Grupos próximos ao MPL eram os movimentos de moradia, o MST e o coletivo Consulta Popular. 

O REAL MOTIVO DA RETIRADA

Segundo Fátima Sandalhel, uma das representantes do Consulta Popular, que deixou a Avenida Paulista, “desde o protesto de segunda-feira, já sentíamos que a manifestação estava ganhando características conservadoras. A direita instrumentaliza pessoas que não têm informação, infelizmente. Estão organizados para expelir as organizações”. Essa afirmação, dada toda a organização e construção elaboradas ao longo de oito anos, não seria expelida por contornos conservadores. O problema, pelo que parece, é que o povão viu que o movimento “apartidário” era de esquerda. Logo, oportunista. Simples, não é?

Aliado também a grupos anarquistas, o Passe Livre tentava romper o bloqueio de outros manifestantes gritando “fascistas”. Um dia antes, sentindo que a manifestação ganhava novas pautas, o Movimento Passe Livre reuniu-se com partidos de esquerda, inclusive com o PT, e com movimentos sociais. PSTU, PSOL, PT, prometeram se aliar no protesto, do qual também participaria o PCO e a Liga de Esquerda (LER). 

No vácuo, grupos que se organizaram pela internet, como Revoltados Online e Pátria Minha, afirmaram que os protestos iriam continuar. Só que focados em outras pautas, como a queda da PEC 37 e em pautas contra a corrupção. O mote do MPL “vem pra rua, vem contra o aumento” mudou para “vem pra rua, vem contra o governo”. 

Mas sem integrantes do Passe Livre. 

Caro companheiro de leitura, acho interessante lembrarmos o que significado da bandeira do antifascismo (antifa). Três movimentos participam do antifascismo: o anarquismo, o socialismo e o comunismo, segundo a simbologia de sua própria bandeira. Se grupos anárquicos estavam em um movimento de esquerda, o que tínhamos, no mínimo, era o Movimento Passe Livre ter em sua própria estrutura, o antifascismo. 

Movimento antifascista. 

Com estudantes secundaristas.

E, por falar em anarquia…

A ESTRATÉGIA…

Segundo coluna de Felipe Patury à Época, em 28 de julho de 2013, primeiro a ONG (Organização Não-Governamental) Defensoria Social espalhou voluntários pelo país para defender manifestantes por vandalismo. Os anarquistas também recebiam treinamento de instrutores experientes. Nos fins de semana, os jovens se reuniram em cidades de Mato Grosso para fazer coquetel molotov e escudo de madeirite, e produzir líquidos que anulavam o efeito do gás lacrimogêneo. Nos encontros, eles escolhiam bancos e empresas multinacionais como alvos de depredação. Participaram dessas reuniões os anarquistas Anonymous, Anarcopunk e Acción Directa, ex-militantes do MST, alguns dissidentes das Farc e remanescentes da GUERRILHA uruguaia Tupamaros e da Central Operária Boliviana. 

Notícia da Época mostrou alguns eventos preocupantes no emblemático ano das jornadas de 2013. 

Segundo o periódico em 05 de setembro, o movimento anarquista Black Block, caracterizado pelo quebra-quebra como ação política durante as manifestações de rua, marcou protestos em 140 cidades no dia 7 de setembro. Em Brasília, as manifestações ganharam o nome de “badernaço”, sendo uma referência ao quebra-quebra que ocorreu em novembro de 1986 na capital, que transformou a Esplanada dos Ministérios em uma praça de guerra entre a polícia e os baderneiros

Em outubro, ocorre uma apreensão feita pela Polícia Militar de São Paulo: 119 bananas de dinamite e cordões detonantes. O movimento anarquista Ação Direta assume a propriedade dos artefatos. O jornalista Leonardo Morelli, que se apresentava como líder e porta-voz do grupo, afirmava que elas foram fabricadas artesanalmente. A Ação Direta prometia um “dia de fúria” em novembro. 

Nesses eventos ficava uma pergunta: quem eram os black blocs, aqueles caras que surgiam, do nada, quebrando tudo o que se encontrava pelo caminho? O jornalismo tupiniquim tentou responder a essa pergunta. 

A Época, em novembro daquele ano, fez um furo de reportagem. Conseguiram uma entrevista exclusiva com um grupo de black blocs e com o jornalista Leonardo Morelli, da ONG Defensoria Social. A reportagem trouxe a nós uma primeira impressão: ao contrário do que as forças de segurança, à época, pareciam conceber, os black blocs tinham método, objetivos, um programa de atuação e acesso a financiamento de entidades estrangeiras. 

Ex-funcionário da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), Morelli coordenava a ONG Defensoria Social, um braço visível e oficial apoiador do grupo. A justificativa para a entrevista? Morelli acreditava que os “blockers” precisavam de visibilidade e reconhecimento dos meios de comunicação. Só por meio deles, dizia, poderiam superar a rejeição de quase toda a sociedade, que condenava o quebra-quebra característico das aparições dos Black Blocs. O termo, de acordo com o grupo, designa uma forma de atuação, não um grupo ou movimento organizado. 

Um parêntese. Pensemos juntos, leitor: se Black Bloc é uma forma de atuação, ela pode ser usada por grupos de ação. Logo, quem usa a tática é responsável por ela, não é? 

Sigamos.

Leonardo participou de pastorais católicas de direitos humanos. Integrou o grupo que originou a Comissão Pastoral Operária. Militou com petistas como Luiz Gushiken (1950-2013), ministro da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula, e o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh. Seu nome aparece em quatro relatórios dos órgãos oficiais de espionagem. Datado de 1987, um documento do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) relacionava Morelli entre punks e anarcosindicalistas. Segundo o texto, Morelli propunha “furar os pneus e quebrar os vidros dos ônibus” para parar São Paulo e provocar uma GREVE GERAL dos trabalhadores. 

Ele foi demitido da RFFSA por participar de uma greve nos anos 1980. No fim da década, foi anistiado e aposentado. Então, passou a tentar influenciar os Black Blocs com novas causas. Ergue bandeiras ambientais, denunciava lixões e a contaminação de áreas da periferia. Defendia a desmilitarização das polícias, a liberação de biografias não autorizadas, o controle social das pesquisas científicas, combate ao Marco Civil da Internet e cobrava as renúncias dos governadores de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral. 

Entre os ativistas reunidos por Morelli, havia jovens. O mais moço, com 17 anos à época, era um típico punk da periferia paulista, de cabelo moicano. Tentava concluir o ensino médio. Num dos últimos conflitos, foi fotografado quebrando a pontapés uma vidraça de uma agência bancária. Um outro jovem testemunhou, na noite de 26 de outubro, o espancamento do comandante da Polícia Militar de São Paulo, coronel Reynaldo Rossi. Ele relatou que Rossi fora “marcado” pelos “blockers”. A ordem era bater nele sem acertar a cabeça, para evitar o risco de morte. “Vi muito amigo ser espancado pela polícia lá no meu bairro. É assim que vamos responder daqui pra frente”, disse. 

O “QG” DE TREINAMENTO. 

O local de encontro dos ativistas era um sítio a 50 quilômetros de São Paulo. O grupo comprou uma kombi e um Jeep Willys com dinheiro que recebeu de entidades nacionais e estrangeiras.

Segundo Morelli, desde o início de 2013, ingressaram nos cofres da Defensoria Social E 100 mil. Ele afirmava que o dinheiro foi repassado pelo Instituto ST Quasar, uma ONG ligada a causas ambientais. Morelli também citava, entre seus doadores, organizações como as suíças La Maison des Associations Socio-Politiques, sediada em Genebra, e Les Idées, entidade ligada ao deputado verde Jean Rossiaud. Em reposta à Época, ambos negaram ter enviado dinheiro. Morelli disse que a Defensoria Social foi abastecida pelo Fundo Nacional de Solidariedade, da CNBB, que também negou os repasses. Morelli ainda relacionou entre seus contatos os padres católicos colombianos e a Central Operária Boliviana. O dinheiro financiava os treinamentos dos militantes, como no fim de semana de Finados e outro realizado em julho, na cidade de Cárceres, em Mato Grosso. Nessas ocasiões, os ativistas são informados de que a pré-condição para ser Black Bloc é ter disposição para enfrentar a polícia. Em Cárceres, aprenderam a se proteger das balas de borracha com escudos feitos com tapumes. Foram orientados a formar paredes com escudos para se defender em bloco, como as tropas de choque fazem hoje – e, no passado, fizeram as falanges gregas e legiões romanas. Em Cárceres, havia rapazes que prestaram serviço militar. Ex-recrutas do Exército, eles ensinaram aos Black Blocs o que aprenderam na caserna. Em Cárceres e no interior paulista, os ativistas tiveram aulas com o ex-militante do MST Paulo Matos. Matos acumulava 21 anos de militância. Participou de cinco invasões, foi preso e processado. Ajudou a organizar o assentamento mato-grossense Antônio Conselheiro, o maior do país à época. Trabalhou como enfermeiro e aprendeu a fazer pequenas cirurgia. Carregava um kit com bisturi, agulha de sutura, pinça, tesoura e luvas para socorrer quem se ferisse no combate das ruas. “Somos gladiadores sociais”, afirmava Paulo Matos. 

No sítio paulista, foram exibidos vídeos de protesto para os ativistas, como “Setembro negro: Estado, violência e REAÇÃO”, produzido pela carioca 2020 filmes. Também assistiram a um vídeo gravado durante o treinamento de Cárceres produzido pela desconhecida Aliança Latino-Americana de Ação Direta que ensinava a manusear pistolas. 

Muitos vieram de fora de São Paulo. Havia gente do Rio de Janeiro, do Paraná, de Mato Grosso, de Minas Gerais, de Pernambuco e do Amazonas. Costumavam adotar apelidos como Marmota, Irmão ou Jow, para não serem identificados pelas autoridades. 

Ninguém é considerado traidor se não entrar no quebra-quebra, mas o vandalismo é visto como ato de coragem. 

DA CADEIA PARA A RUA

Daniela Ferraz é mais um caso de pessoa seduzida pelo movimento. Paulistana criada no complexo de favelas do Capão Redondo, cometeu dois assaltos e cumpriu cinco anos de prisão. Possui um filho que mora com o pai. “Tinha filho para criar e uma irmã criança para ajudar a criar. Não tive alternativa, e o desespero me levou a assaltar. Mas nunca me envolvi com homicídios”, disse. Ainda cumprindo pena em liberdade, Daniela armou-se de paus e pedras para atacar agências bancárias. 

VOCÊ FALA DEMAIS E A MORTE ESBARRA CONTIGO?  COINCIDÊNCIA.

E quase um mês depois da reportagem, Leonardo Morelli aparece… Morto. Encontrado num hotel de Florianópolis em 15 de dezembro. Não foi identificada a causa mortis, mas aparentemente deveu-se a fatores naturais. 

ESTUDO DE CASO: APLICANDO O QUE APRENDEU EM SALA DE AULA. 

Como exemplo da procedência, unidade e harmonia das ações táticas desses grupos, destacamos um vídeo da mídia de esquerda “Jornal A Nova Democracia”: nele podemos ver uma “célula” em ação, em 28 de agosto de 2013: predominância de jovens, tapumes como defesa, e ataques, vindos por detrás dos tapumes, em um grupo de policiais. 

A ocupação do espaço de conflito dos ativistas é muito mais vantajosa que a da célula de contenção policial, nos primeiros minutos do vídeo. Com a chegada de reforço, a dispersão é a tendência. 

Na célula há grupos com funções distintas: aqueles que ordenam as manobras táticas (atacar ou recuar, por exemplo); aqueles que visualizam o movimento do grupo de policiais (se está atrás do ônibus, se está chegando por uma viela); qual local é campo de batalha adequado (perceba que o local de conflito é uma rua com entulho, onde há farto material de ataque à disposição, provando a coordenação da ação); uso do ambiente para melhor proteção e/ou utilização tática (mover um carro, por exemplo).

Perceba uma tática em paralelo: entre os próprios ativistas, estão aqueles que registram as cenas de ação. Aos 0:51 min do vídeo, à esquerda surge um dos ativistas convocando o bando a se aproximar para o conflito. Ato contínuo, prepara sua câmera para registro. Ou seja, os próprios manifestantes que fazem a ação têm sua própria mídia para divulgar, em canais simpatizantes, a própria versão dos fatos. 

A polícia, ao chegar em local de conflito, possuirá uma dificuldade enorme em distinguir, na quantidade de pessoas filmando a ação, qual deles é o “tático” pertencente ao movimento, sendo alvo fácil de qualquer postura a ser capturada, no click exato, para se encaixar numa narrativa adequada. O que se confirma nas próprias fotos divulgadas pela Frente Independente Popular (FIP), em seu site.

Segundo nota do vídeo da ação, curiosamente disponível no youtube, o ato foi organizado pela FIP (Frente Independente Popular). Tinha como destino o Palácio Guanabara, sede do governo estadual. Uma nota da FIP contém os seguintes dizeres, acerca do ato:

“Saudações, companheiros de luta. A Frente Independente Popular (FIP) vem saudar todos os companheiros (as) da resistência e dar todo o apoio para que continuemos a resistir. A polícia mais uma vez truculenta e arbitrária faz o que bem quer com manifestantes que tentam se expressar, mas isso só vai aumentar nossa luta cada vez mais. IR AO COMBATE SEM TEMER! OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER!”

E quem é essa Frente Independente Popular? Um bando de pessoas, caminhando contra o vento, sem lenço, sem documento? Não, caro leitor. 

A FIP é um conjunto de organizações. Dentre elas, o “Black Bloc RJ”. A própria FIP designa os componentes na própria página, como Anonymus Rio, Comitê de apoio ao jornal A Nova Democracia – RJ, Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), Movimento Feminino Popular (MFP), Organização Anarquista Terra e Liberdade. Há outros grupos que merecem destaque, como:

– Coletivo Inimigos do Rei (UERJ)

– GLP (Grupo de Luta dos Petroleiros)

Ocupa Cabral

Universidade Indígena Aldeia Maracanã

Perceba que há grupos de atuação em universidades e entidades públicas. 

E, e em prospecto, vemos a amplitude de grupos que tinham alguma correlação com os movimentos de 2013:

Anonymus Rio, Black Block RJ, Coletivo Inimigos do Rei (UERJ), Coletivo Lênin, Comitê de apoio ao jornal A Nova Democracia – RJ, Frente Internacionalista dos Sem-Teto, Frente Nacional dos Torcedores (FNT), Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), Movimento Feminino Popular (MFP), Movimento de Resistência Popular (MRP), Ocupa Cabral, Organização Anarquista Terra e Liberdade (OATL), Rede Estudantil Classista e Combativa (RECC), Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, Unidade Vermelha. 

Lembre-se, leitor: a Organização Anarquista Terra e Liberdade faz parte da Frente. Logo, temos uma organização anárquica. E, pelo que vimos, onde há anarquismo, socialismo e comunismo juntos… Há o antifascismo.

E estamos em 2013, só para lhe situar. Não em 2020. 

Ainda. 

Mas parece que não somente algumas organizações militantes acharam interessante fazer agitações na rua. 

Em outubro, setores de inteligência das polícias de São Paulo descobriram que membros da facção criminosa PCC discutiam uma série de ataques, caso chefes de organização fossem transferidos para penitenciárias do Estado com regras mais rígidas. Policiais interceptaram “salves” (ordens) dados a integrantes da facção, nos quais classificavam as reações do crime organizado em ao menos três níveis. Em última instância poderiam até infiltrar bandidos em meio a manifestações populares em que houver vandalismo.

A ideia dos criminosos era aproveitar o quebra-quebra promovido por adeptos da tática de protesto “black bloc” para atacar policiais.  

Antes de chegar a esse ponto, a reportagem da Folha apurou, com seis investigadores que acompanhavam os passos de chefes da quadrilha, os detentos cogitarem uma série de pequenos protestos dentro das penitenciárias, como impedir a entrada de novos presos em alas dos presídios. A segunda etapa seria o ataque direto a prédios das polícias Civil e Militar, como ocorreu em maio de 2006, onde 500 pessoas morreram. 

A infiltração nos protestos seria só no caso de transferência dos 35 chefes do PCC para a penitenciária de Presidente Bernardes, onde os detentos ficariam sob o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). 

A investigação identificou que, naquela época, a organização criminosa detinha cerca de 11.400 membros em 22 Estados, no Paraguai e na Bolívia. 

E, segundo Brasil247, o movimento Black Bloc não tinha ojeriza ao PCC. Pela matéria, os manifestantes estavam agora buscando um apoio inusitado, junto ao Primeiro Comando da Capital. Segundo os líderes do movimento nas ruas, não estava em curso a formação de uma aliança, mas a expectativa era de um somatório de esforços em comum. 

“Não temos aliança nem somos contra o PCC. Só que eles têm poder de fogo muito maior do que o MPL (Movimento Passe Livre, que iniciou as manifestações, em 2013, com a ajuda dos Black Blocs). Pararam São Paulo”, disse uma das lideranças do Black Bloc em entrevista ao jornal Estado de São Paulo. Segundo ele, quando integrantes do movimento foram presos por participarem de manifestações violentas, líderes do PCC teriam se solidarizado com eles durante o tempo em que permaneceram nos presídios paulistas. 

De acordo com este membro do Black Bloc, “o caos que o Estado tem colocado na periferia, por meio da violência policial, na saúde pública, com pessoas morrendo nos hospitais, na falta de educação, na falta de dignidade no transporte, na vida humana, é o caos que a gente pretende devolver de troco para o Estado”. “E não na forma violenta como ele nos apresenta. Mas vamos instalar o caos, sim. Esse é um recado para o Estado”, complementou. 

OUTRO CAMPO DE BATALHA: RIO DE JANEIRO

Mas como foram os protestos no Rio de Janeiro?

Graças aos manifestantes, tudo foi documentado por eles próprios, orgulhosos de sua luta pela democracia. 

No canal SOUL ANRKHOS hospedado no youtube, um vídeo nos é apresentado: BLACK BLOC BRASIL / Beds are Burning. A legenda do vídeo é:

Brava Resistência e Revolta Popular no dia 07 de outubro de 2013 na cidade do Rio de Janeiro. Manifestação em prol da Educação e em repúdio a Repressão e Truculência do Estado. 

A concentração para a mobilização impressiona. No início das mobilizações, entre alguns idosos, alguns homens vestidos com roupas indígenas, jovens…Muitos jovens. Alguns rostos parecendo ser de adolescentes. 

Entre mascarados. 

– Aos 0:23min, garotos mascarados cumprimentam a câmera. Ao fundo, ostenta-se a uma faixa do Sindicato dos Professores do Estado do Rio (Sepe), marcando presença. 

– Aos 0:33min, alguns jovens, vestidos com uniforme da Rede Pública de Ensino do Rio de Janeiro, ostentam alguns adesivos com a expressão #ReUna. O Diário do Centro do Mundo nos dá a resposta sobre esse adesivo, numa matéria intitulada “Atrizes da Globo criam #Reúna, movimento de apoio aos professores”. Segue trecho da matéria:

Sophie Charlotte é uma das atrizes e personalidades que aderiram ao Movimento #Reúna, criado para usar a força das mídias sociais em protestos. Nesta manifestação silenciosa, gente como Sophie, Fiorella Mattheis, Yuri Sardenberg e Thaila Ayala (uma das criadoras do projeto) foram clicados com o uniforme da rede municipal de ensino, em apoio às reivindicações dos professores.

– Aos 0:53min e seguintes, percebe-se uma grande aglomeração de jovens mascarados. Câmeras e celulares, entre os manifestantes, são direcionados à porta do prédio da Câmara Municipal quando projéteis são atirados contra a enorme porta do prédio. Pequenas explosões ocorrem. Mais artefatos explosivos são arremessados. Câmeras e celulares brilham, filmando, famintos, os eventos.

– Aos 1:55min e seguintes, tapumes são escorados na entrada do portão. Pedras são arremessadas para dentro do prédio, por jovens escorados atrás dos tapumes. Parece que houve alguma resistência, pois os jovens atrás dos tapumes se retiraram com pressa. Objetos foram arremessados em direção ao portão. Rojões também foram deflagrados para o mesmo local. Numa nova tomada, um tapume é escorado praticamente rente ao portão, protegendo quem o usa como base para continuar os ataques. Vários artefatos explosivos são jogados contra o prédio da Câmara. O símbolo do movimento anárquico aparece escrito em um dos tapumes usados como escudo. 

– Aos 2:55min e seguintes, entre as várias placas de avanço tático trazidos pelos manifestantes, um cartaz escrito F.I.P. se destaca entre eles. Seria a sigla para Frente Independente Popular? O vídeo segue, com os manifestantes juntando material encontrado na rua para queimar.

– Aos 3:20min e seguintes, uma tropa de choque da polícia é deslocada para o local e se posiciona apenas. Perceba, novamente, que a câmera em que acompanhamos os eventos está do lado dos manifestantes. 

– A partir de 3:34min, projéteis de artifício são enviados contra a tropa de policiais. E câmeras, do lado dos manifestantes, documentam os eventos. Os que ostentam as câmeras estão munidos de proteções de cabeça e máscaras. Vindo logo atrás, jovens, também mascarados, arremessam objetos e projéteis em ataque combinado. Contra a tropa de choque. 

– Aos 4:13min e seguintes, a tropa de choque parece recuar, o que dá fôlego para o avanço em bloco dos manifestantes. Alguns carregam objetos de proteção encontrados no ambiente, enquanto a chuva de objetos, arremessados pelos que protestam, não dá trégua. Uma curiosidade: o local para onde a tropa de choque recuou era exatamente em frente a um Batalhão da PM do Rio de Janeiro, no centro da cidade. Da parte da tropa, balas de dispersão são enviadas. 

– Aos 4:34min e seguintes, uma tentativa de avanço: um dos manifestantes tenta avançar, usando um tapume como proteção; atrás deles, outros estão, a postos, para o acompanhar. Porém, não consegue resistir, junto com os outros, às investidas de balas de gases de dispersão. Recuam, enfim, com alguns deixando tapumes pra trás. Perceba que há método, inclusive, na ocupação tática de espaço. E os manifestantes são acompanhados por… Câmeras, sendo algumas até profissionais. 

– Aos 5:51min e seguintes, um grupo tático policial avança pela rua. Não encontra resistência. A multidão se dispersa, em meio a nuvem de gás de dispersão que permeia a área. 

– Aos 6:09 min e seguintes, uma espécie de propaganda do trabalho realizado: um ônibus incendiado. 

Lembre-se, leitor. Não são adultos com mobilização tática e organizada. Boa parte são jovens.

 Contra a polícia. 

No canal Thiago Firmino, o mesmo evento, com tomadas mais próximas. 

O vídeo nos recepciona com um título: Manifestação dos Professores – 07 de outubro de 2013 – Candelária – RJ

Segundo informações do próprio vídeo, Thiago Firmino e Tandy Firmino foram os responsáveis pelas imagens.

– Nas imagens iniciais, novamente uma bandeira preta e vermelha tremula no meio da manifestação. Logo o movimento Antifa demarca sua posição, NUMA MANIFESTAÇÃO DE PROFESSORES. A partir de 0:26min, uma placa, contendo a sigla F.I.P. encontra-se ao lado de outra, com os dizeres: “A rebelião do povo se justifica”, entre símbolos comunistas. Uma jovem ostenta outra placa com os dizeres “Rebelar-se é justo”, frase comumente usada pelo MEPR (Movimento Estudantil Popular Revolucionário), grupo pertencente à Frente Independente Popular (FIP). 

– Aos 0:40min, uma bandeira do Movimento Feminino Popular, também pertencente à Frente Independente Popular, também tremula no movimento, junto com bandeiras do MEPR. 

– Aos 0:45min, manifestantes ostentam placas com palavras de ordem. A população concentrada possui uma diversidade de idades, apesar de uma grande concentração de jovens, inclusive mascarados. Porém, nesta etapa da filmagem, muitos jovens com rostos descobertos. 

– Aos 0:50min, fica clara a forte presença da FIP no movimento com uma faixa segurada por um pelotão de manifestantes. 

– Aos 2:00min e seguintes, uma concentração em frente à Câmara de Vereadores. Uma enorme faixa chama a atenção: “ocupa câmara Rio”. E… Muitos jovens se movimentam em direção à Câmara do Rio. 

– Aos 2:45min e seguintes, fica mais clara a utilização de morteiros, placas e tapumes como meios de defesa e/ou avanço de espaço, além das pedras portuguesas, retiradas da calçada, como elementos de ataque. Tática que foi vista anteriormente por nós, leitor. O Câmera, pelo qual vemos as manifestações, está junto com os manifestantes. 

-Aos 3:50min e seguintes, outra tática de ataque: coquetéis Molotov são arremessados para dentro das dependências da Câmara de Vereadores, com o objetivo de incendiar o prédio. 

– A partir de quatro minutos, uma cena que comprova uma obviedade constatada até aqui: mídias só para as ações táticas. O manifestante que vai depredar um banco espera um outro manifestante começar a filmar… Para melhor tomada da depredação. Nós, telespectadores, somos as testemunhas oculares disso, pela própria câmara da qual analisamos o cenário ocorrido. 

– Aos 5:15, uma placa nos chama a atenção, pelo que nós lemos anteriormente: “Ação Direta”, dando a impressão que o grupo marcou presença nos atos. 

Aos 5:23min, um brado ecoa nas ruas dos blockers: “Vamo quebrar! O Clube Militar!”

– Aos 5:32min e seguintes, um ônibus é arrastado por um grupo de manifestantes. Acumulam-se mais blockers. E a depredação começa. Entres eles, uma bandeira do MEPR. O ônibus é incendiado. Outros focos de incêndio são feitos nas ruas. Bombeiros chegam para apagar o fogo do coletivo.  

– Aos 8:31min e seguintes, uma tomada no grupo de ataque aos policiais, traz alguns elementos novos: algumas placas com mensagens, apresentadas no início das manifestações, eram, por óbvio, escudos de defesa e/ou avanço tático. São usados, nessa tomada, para se defenderem dos ataques do corpo policial. O que parecia ser apenas um veículo de mensagens de protesto eram armas de combate. Ostentadas desde o início das passeatas. Elementos do ambiente, como cabines derrubadas, também são usadas como meios de atraso e/ou defesa contra as tropas do governo. As tropas do governo avançam. Percebemos a presença da imprensa registrada atrás de um pelotão, por uma pessoa com um capacete identificando o profissional. 

– A partir de 10:29min, um aviso nos aparece: “Manifestantes detidos para averiguação são levados para a delegacia dentro de um ônibus na Lapa parado pela Polícia”. Percebe-se a fragilidade tática do quadro policial nessas ações. Um grupo de policiais fazendo a detenção, sem nenhum reforço tático, cercado por vários desconhecidos, com celulares e câmeras, alguns próximos demais dos detidos. Para se ter uma ideia, a câmera na qual estamos vendo a cena acompanha a condução dos detidos ao coletivo numa proximidade inferior a dois metros, chegando até a uma proximidade de contato com a autoridade policial. Tudo isso com os policiais cercados de pedestres, sob vaias e palavras de ordem: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar”. A fragilidade tática é gritante. Não se sabe ali quem são os que estão ao redor dos agentes de segurança. Poderiam ser, inclusive, aqueles que, antes, atiraram pedras, molotov e objetos. A célula policial estava totalmente desprotegida, improvisando o uso de um coletivo público para detenção. Ônibus que foram arrastados com facilidade pelos manifestantes, e incendiado. 

– Aos 12:52min e seguintes, nova tomada. Uma tropa tática chega ao cenário. Um pedestre, acompanhado de uma moça, enfrenta um dos policiais táticos, tirando-o do foco. E, por uma ironia típica na vida carioca, pessoas reunidas, bebendo, bradam pelo fim da Polícia Militar. Revoltados e embriagados. 

AVISAR NÃO CUSTA, NÃO É?

Em 08 de outubro, a Folha veicula uma notícia. A Segurança Pública do Rio decidiu que, a partir de nove de outubro de 2013, seriam indiciadas as pessoas flagradas em atos de vandalismo durante as manifestações no Estado. 

Segundo o “Jornal Nacional”, da Rede Globo, eles poderiam ser enquadrados na Lei de Organização Criminosa (12.850/2013), em vigor desde 19 de setembro, podendo a pena chegar a oito anos de cadeia. 

A medida foi anunciada um dia após confronto entre os “black blocs” e a Polícia Militar no centro do Rio, ao final do protesto pacífico de professores da rede pública de ensino, em greve há 50 dias. 

Por volta das 20h de sete de outubro, quando os profissionais da educação já haviam deixado o centro, um grupo de mascarados passou a atirar coquetéis molotov e bombas caseiras em direção ao prédio da Câmara Municipal. Prédios públicos, agências bancárias e consulados foram atacados. De acordo com a Polícia Civil, 28 ônibus foram depredados. A Polícia Civil informou ainda que 18 pessoas foram detidas durante a manifestação e liberadas mais tarde. 

ANTIFAS SÃO BLACK BLOCS? 

Sobre os atos ocorridos no dia 15 de outubro de 2013, o canal SOUL ANRKHOS disponibiliza dois minutos de cenários de combate dos manifestantes com as forças policiais, com o logo do jornal de esquerda “A Nova Democracia”. Mas a legenda do vídeo é que nos deixa uma interessante mensagem:

Resistência Popular Antifascista no dia 15 de Outubro de 2013 na cidade do Rio de Janeiro Brasil. 

Em outros vídeos do canal, como no protesto do MPL no Terminal Parque Dom Pedro, a ação tem nome semelhante: Revolta Popular e Resistência Antifascista (ANTIFA). 

Ou seja, pela mensagem, parece que há uma ligação entre a tática black bloc e o movimento Antifascista (ANTIFA). 

O que confirma aquilo que já percebíamos antes. Movimentos anárquicos, junto de movimentos socialistas e comunistas, são a base para o movimento antifascista. 

Onde estão os três, o antifascismo também está presente. 

A POLÍCIA CHEGA

Em 16 de outubro, a Polícia Civil divulgou o balanço das detenções realizadas após protesto no dia 15, no Centro do Rio. Segundo nota enviada pela assessoria de imprensa, 64 pessoas foram presas e 20 menores, apreendidos em flagrante. Desse total, 27 foram autuadas com base na Lei do Crime Organizado (Lei 12.850/2013), por crimes como dano ao patrimônio público, formação de quadrilha, roubo e incêndio, delitos inafiançáveis. 

A Polícia Civil autuou ainda 43 pessoas no crime de formação de quadrilha que, de acordo com a alteração da legislação, enquadravam-se na Lei do Crime Organizado. Ao todo, 190 pessoas foram conduzidas para oito delegacias da capital, sendo 57 menores de idade. 

Todos os homens detidos na manifestação foram encaminhados para a Cadeia Pública Juíza Patrícia Acioli, em São Gonçalo, na região Metropolitana do Rio. As mulheres que foram detidas foram encaminhadas para Bangu. 

Durante a manifestação foram apreendidos: facas, canivetes, estilingues, bolas de gude, esferas de aço, um estilete, um tchaco, uma lâmina de serra, máscaras e escudos. 

A matéria do G1 informa a lista completa dos detidos. Entre eles, um nome que nos será conhecido nas páginas seguintes: Elisa De Quadros Pinto Sanzi, vulgo Sininho. 

O CONCEITO

Black blocs pra cá, black blocs pra lá, mas ao final, não temos uma descrição mais técnica e acurada sobre o que é isso. Então, nada melhor que artigos técnicos sobre o assunto para aclarar a nossa ignorância, certo?

Que tal então um artigo de Bruno Fiuza, publicado no site Viomundo, em outubro de 2013?

Para o articulista, uma das grandes novidades que as manifestações de junho de 2013 introduziram no panorama político brasileiro foi a dimensão e a popularidade que a tática black bloc ganhou no país. E o especialista se impressiona com a falta de disposição dos críticos em se informar sobre essa tática militante que existe há mais de 30 anos. Perceba que o termo é designado como tática. E ele explica o porquê dessa denominação: 

Em primeiro lugar, usam um artigo definido e letras maiúsculas para se referir ao objeto, como se “o Black Bloc” fosse uma organização estável, articulada a partir de algum obscuro comando central e que pressupusesse algum tipo de filiação permanente.

Ora, tratar um black bloc desta forma seria o mesmo que tratar uma greve, um piquete ou uma panfletagem como um movimento.

(…)

Por mais redundante e bobo que possa parecer, nunca é demais lembrar que um “black bloc” (assim, com artigo indefinido e em letras minúsculas) é um “bloco negro”, ou seja: um grupo de militantes que optam por se vestir de negro e cobrir o rosto com máscaras da mesma cor para evitar serem identificados e perseguidos pelas forças da repressão.

(…)

Eles apenas optaram por uma determinada tática de luta. É exatamente o que fazem os militantes que decidem formar um bloco negro (leia-se, “black bloc”) durante uma manifestação.

Não há dúvida de que a opção pelo anonimato e a disposição para o enfrentamento com a polícia são peculiaridades que diferenciam profundamente o bloco negro de outras táticas, mas nem por isso a opção por esse tipo de ação dá margem para confundi-la com um movimento.

Sobre a origem dos black blocs, os primeiros grupos surgiram na Alemanha Ocidental, no início dos anos 1980, no seio do movimento autonomista daquele país. 

Um dos países onde o movimento mais se desenvolveu foi na Alemanha. Fiel ao espírito revolucionário original do marxismo, mas renegando o fetiche pelo poder das burocracias sindicais e partidárias, o autonomismo se desenvolveu como um conjunto de experimentos sociais organizados por setores que optaram por se manter à margem do modo de vida dominante imposto pelo capitalismo e criar focos de sociabilidade alternativos no seio das próprias sociedades capitalistas, mas pautados por valores e práticas opostos aos dominantes.

Uma curiosidade interessante sobre o movimento autonomista: as ocupações. 

Na Alemanha Ocidental, o movimento autonomista surgiu no fim dos anos 1970, quando grupos começaram a organizar ações diretas contra a construção de usinas nucleares no interior do país por meio da criação de acampamentos nos terrenos onde as centrais seriam erguidas.

(…)

Enquanto os acampamentos antinucleares surgiam no interior da Alemanha Ocidental, em grandes cidades, como Berlim e Hamburgo, grupos de jovens e excluídos começaram a ocupar imóveis vazios e transformá-los em moradias coletivas e centros sociais autônomos (consegue lembrar alguma tática semelhante hoje, caro leitor?).

Assim nasceram os primeiros squats alemães, inspirados pela experiência de grupos que já faziam isso havia anos na Holanda e na Inglaterra.

A mobilização contra a construção de usinas nucleares no interior e as ocupações urbanas nas grandes cidades se tornaram os dois pilares do movimento autonomista alemão.

Para os envolvidos nesses processos, a criação de espaços autônomos era uma forma de questionamento da ordem capitalista na prática, por meio da criação, no interior da própria sociedade capitalista, de pequenas ilhas onde vigoravam relações sociais opostas às vigentes no entorno dominante.

ALGUMAS COINCIDÊNCIAS…

… Mostrando um artigo recente da Gazeta do Povo, o qual fala sobre a criação de uma zona autônoma em Seattle, Estados Unidos. E um julgamento recente do STF (?!) inusitado.

Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou usar força militar para tomar uma área da cidade de Seattle, definida como “zona autônoma” pelos manifestantes que protestavam contra o racismo e a violência policial. (…) o Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para restringir ainda mais as ações policiais nas comunidades do Rio de Janeiro. Os ministros julgam uma ação do PSB que questiona várias medidas da política estadual de segurança. Depois de o STF proibir operações da polícia nas favelas, agora impede ações com helicópteros, e a justificativa é diminuir a letalidade. Enquanto o tráfico se expande, moradores são expulsos de suas casas. O STF e o PSOL são favoráveis a essas medidas.

Composta por seis quarteirões, a chamada zona autônoma de Seattle [EUA] foi ocupada por manifestantes Antifas e Black Lives Matter. 

Ainda:

No Brasil, o STF concedeu direitos semelhantes para grupos como Comando Vermelho, Amigos dos Amigos, Primeiro Comando da Capital e milícias, entre outros. As comunidades viraram um mini-Estado, um santuário para sua ocupação ilimitada, causando dano à cidade e à propriedade privada, obstruindo o direito de circulação ou criando condições perigosas e criminosas como agressões, homicídios, estupros e o uso e venda de drogas. A área se tornou território sem, ou melhor, com a lei imposta pelos donos da área. Isso nada mais é do que ação de terroristas domésticos travestidos de organização criminosa que tomaram uma boa parte da cidade do Rio de Janeiro. 

Vejamos, leitor.

Nos Estados Unidos, uma zona autônoma feita por anarquistas, socialistas e comunistas, junto com o movimento afeto a esses movimentos. 

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal atende um pedido do Partido SOCIALISTA Brasileiro, com o apoio do Partido SOCIALISMO E Liberdade, tornando, por consequência, áreas de ocupação do tráfico em espécies de zonas autônomas. E vimos a relação de solidariedade entre manifestantes das jornadas de julho e o crime organizado. 

Uma outra coincidência apareceu. No programa do Partido Socialismo e Liberdade, do PSOL, nas Bases do programa estratégico:

5) A defesa de um internacionalismo ativo.

São tempos de agressão militar indiscriminada do imperialismo. Os EUA se destacam como país agressor, que agora chefia a ocupação do Iraque, intervém na Colômbia, no Haiti, promove tentativas de golpes na Venezuela e apóia o terrorismo de Estado, de Israel contra os palestinos. A retomada do internacionalismo é objetivo do novo partido. Para além do nosso continente, temos que empenhar todo o esforço no apoio ao movimento anti-globalização, com seus fóruns sociais e suas mobilizações de massas iniciadas a A PARTIR DE SEATTLE.

VOLTANDO AO CONCEITO DE BLACK BLOCS

O articulista continua.

Ao longo dos anos 1990, outros black blocs se organizaram nos Estados Unidos, mas a tática permaneceu praticamente desconhecida do grande público até que um bloco negro se organizou para participar das manifestações contra a OMC em Seattle em novembro de 1999.

Graças à ação desse black bloc, a tática ganhou as páginas dos grandes jornais no mundo inteiro, principalmente porque, a partir de Seattle, os black blocs passaram a realizar ataques seletivos contra símbolos do capitalismo global.

(…)

Ou seja: o black bloc de Seattle inaugurou uma dimensão de violência simbólica que marcaria profundamente a tática a partir de então.

Ou seja, leitor: foi em Seattle onde começou e se expandiu, tanto a tática black bloc, quanto os movimentos antifa e Black Lives Matter…Movimentos com táticas black bloc. 

E que o PSOL empenhará todos os seus esforços para apoiar.

E o articulista continua…

Daquele momento em diante, os black blocs, até então um instrumento basicamente de defesa contra a repressão policial, tornaram-se também uma forma de ataque – mas um ataque simbólico contra os significados ocultos por trás dos símbolos de um capitalismo que se pretendia universal, benevolente e todo-poderoso. Foi nesse contexto que a tática chegou ao Brasil.

Já no Brasil…

Os acontecimentos de Seattle levaram grupos de militantes brasileiros a se articular em coletivos para construir no país o movimento de resistência mundial à globalização neoliberal. Assim surgiram os núcleos brasileiros da Ação Global dos Povos, uma rede de movimentos sociais surgida em 1998 que criou os Dias de Ação Global, articulações mundiais para organizar protestos simultâneos em várias partes do planeta contra as reuniões das instituições internacionais que sustentavam a globalização neoliberal.

O primeiro Dia de Ação Global que contou com ações no Brasil foi 26 de setembro de 2000, marcado contra a reunião do FMI em Praga. Neste dia, em São Paulo, um grupo de manifestantes atacou o prédio da Bovespa, o que gerou confronto entre policiais e ativistas. Na época, o incidente não ganhou destaque na imprensa e o termo “black bloc” não foi mencionado, mas a lógica da ação desses militantes, em sua maioria ligados ao movimento anarcopunk de São Paulo, seguia a lógica da tática black bloc.

(…)
    Em São Paulo, um grupo entre os manifestantes adotou a mesma tática do black bloc de Seattle, em 1999, e atacou símbolos capitalistas na Avenida Paulista, como uma loja do McDonald´s. Mais uma vez, a imprensa nacional não fez referência ao termo “black bloc”, mas a tática utilizada na Paulista foi claramente a dos blocos negros. O curioso é que a mesma edição de 21 de abril de 2001 da Folha de São Paulo que noticia o protesto na Paulista traz uma matéria do enviado do jornal ao Canadá sobre o “bloco de preto” que atuou em Quebec.

E sobre as manifestações de 2013?

Assim como os black blocs, o MPL estava longe de ser uma novidade no Brasil, mas, pela primeira vez, ambos começaram a ganhar um protagonismo inédito conforme as manifestações cresciam.

Até o dia 13 de junho, aquela era uma mobilização muito parecida com as que o MPL vinha organizando desde 2004.

Era um movimento restrito a um núcleo militante que reunia ativistas do próprio MPL, integrantes de partidos e coletivos libertários – alguns dos quais formaram black blocs durante os atos.

A violência policial contra a marcha do dia 13 de junho em São Paulo, no entanto, mudou tudo.

Os ataques contra jornalistas e jovens da classe média e da elite indignaram uma parcela da população normalmente avessa à militância política.

Vale notar, leitor, que boa parte desses jovens de classe média já era parte do trabalho de base dos grupos envolvidos nos movimentos. E os jornalistas nas manifestações…Bem, havia mais jovens com câmeras e celulares e um “jornalismo alternativo” rolando solto na rua. E lembremos que toda massa de mobilização não foi um movimento espontâneo. Foi estimulado. Com trabalho árduo e constante. Lembra?

Continuando… 

As manifestações de 17 de junho abriram a caixa de Pandora, e gente de absolutamente todas as tendências políticas foi para a rua. Por um breve momento, a elite mais reacionária marchou ao lado do militante mais revolucionário. Mas em algum momento a contradição teria de aparecer.

Falando sobre São Paulo, o articulista mostra suas impressões…

Quem esteve na Paulista no dia 18 de junho já podia farejar, de certa forma, o que aconteceria no dia 20.

Aquilo era a Revolução Francesa. As reivindicações mais contraditórias conviviam nos cartazes empunhados por grupos sociais muito diferentes entre si, muitos deles antagônicos.

O pessoal das bandeiras verde-amarelas e dos slogans moralistas era claramente uma elite que tinha pouco ou nada a ver com os anarquistas e trotskistas que circulavam com palavras de ordem anticapitalistas.

A direita, a extrema-direita e a extrema-esquerda já estavam ali. Faltava a esquerda moderada, dos partidos no poder. E, quando ela apareceu, a bomba-relógio explodiu.

Logo, se era uma bomba-relógio, estava armada para explodir quando determinado evento ocorresse. O minuto para a explosão era…A esquerda moderada, dos partidos políticos. Veja que, pelos artigos apresentados, não é uma coincidência. Mas um trabalho, um experimento social, com táticas e agendas trabalhadas, de forma constante e cotidiana. Para chegar aonde chegou, muito se fez. Olhando apenas o movimento em si, não se vê a profundidade do negócio. 

Pode-se acusar o PT de muitas coisas por ter convocado sua militância a ir para a Paulista no dia 20 de junho, mas uma coisa é certa: aqueles militantes tinham todo o direito de estar lá.

(…)

Olhando em retrospecto, o ataque fascista aos militantes partidários no dia 20 de junho parece um desdobramento natural do que vinha acontecendo: com a revogação do aumento das tarifas, a única bandeira que unificava aquela multidão de opostos deixou de existir.

Sem o elemento unificador, apareceram as profundas contradições que já existiam entre os inúmeros grupos que saíram às ruas.

A elite queria a cabeça do governo do PT, a extrema-esquerda queria a revolução social, e, espremida entre os dois extremos, sobrou para a esquerda moderada o papel de defender o status quo, sobrou para a esquerda moderada a posição conservadora – no mais literal sentido da palavra.

Na prática, a esquerda detinha todo o controle dos experimentos preparatórios e da eclosão do movimento. Ainda, após a explosão das mobilizações, coube à própria esquerda a função de conservadora, pois não havia um movimento conservador para responder àqueles estímulos realizados pela esquerda. 

Hegemonia é pouco pra essa rapaziada. 

E os black blocs no Rio de Janeiro?

Aqui é preciso abrir um pequeno parêntese para falar do Rio de Janeiro, pois este foi o único lugar em que os protestos de fato continuaram com força depois da revogação do aumento das passagens.

Acontece que, além da tarifa, lá havia outra bandeira que unificava o movimento: a oposição ao governador Sérgio Cabral.

E talvez seja por isso mesmo que lá os black blocs tenham se tornado mais fortes e atuado de forma mais coerente.

Vale lembrar que o movimento contra Sérgio Cabral girou em torno de uma ocupação urbana – o acampamento montado em frente à residência do governador – e, não por acaso, os black blocs cariocas desempenharam um importante papel de autodefesa do movimento contra a repressão policial.

Ou seja: justamente no momento em que caiu na boca do povo no Brasil, a tática black bloc estava voltando às origens, atuando como uma organização popular de defesa dos movimentos sociais.

Na minha opinião, a situação no Rio ajuda a explicar porque em São Paulo os black blocs nunca chegaram a contar com o apoio que tiveram na capital fluminense.

Em São Paulo, a partir do fim de julho os black blocs se formaram como uma força isolada, inicialmente em solidariedade aos cariocas, e depois lançando uma campanha contra o governador paulista, Geraldo Alckmin.

Ao se voltar contra Alckmin, os black blocs paulistas poderiam se articular com a esquerda moderada, por terem um inimigo comum, mas a incompreensão mútua impossibilitou a aproximação.

E aqui chegamos ao x da questão: a desconfiança mútua entre duas culturas militantes distintas, mas que compartilham muitos objetivos, está acabando com as possibilidades de aproveitar a incrível energia social gerada pelas manifestações de junho para construir novos espaços de debate e mobilização que poderiam abrir perspectivas inéditas de ação política no Brasil.

Não se trata aqui de querer apagar as diferenças entre a cultura de militância partidária – baseada na hierarquia, na centralização e na estabilidade – e a cultura libertária que está na base da tática black bloc – horizontal, descentralizada e instável – mas de propor que, apesar de suas diferenças, estes dois setores podem trabalhar juntos em prol de causas que os unem.

Até porque…

Os momentos em que os black blocs foram mais fortes foram justamente aqueles em que atuaram no seio de movimentos mais amplos, que englobavam grupos com táticas muito diferentes, todos lutando por causas comuns.

Ou seja, os momentos em que os blacks blocs ganharam mais força foram os momentos nos quais, de dentro dos movimentos mais amplos, estavam blindados por estes e, surgindo “do nada”, em certos horários, faziam suas operações táticas. 

Você viu isso ocorrer nas ruas, e em reportagens apresentadas, caro leitor?

Mas não se preocupe com essa falta de diálogo com as mais variadas facetas da esquerda, seja partidária ou não partidária. 

Elas já estão dialogando. E muito. Como nós descrevemos anteriormente, através das fundações, partidos políticos e frentes amplas. Ou com a malha de rede de conexões, a se perder de vista, inclusive com Fundações Internacionais. 

Fica tranquilo. 

Estão trabalhando duro pra esse dia chegar: os blocos negros tocarem suas infestas festas “de boaças”. 

Há um trecho no texto que merece destaque:

O grito de junho foi, acima de tudo, um grito contra o autismo da política institucional no Brasil – e nesse autismo se incluem absolutamente todos os partidos com alguma representação parlamentar (com exceção, talvez, do PSOL, cujos militantes estavam nas ruas desde o começo).

Ah, esse artigo também está disponível em um site da… Universidade FEDERAL de Santa Catarina

… INVENTANDO NOVOS JOGOS DE GUERRA…

Ainda em outubro de 2013, conforme noticiou a Redação da Veja, uma greve dos professores cariocas tinha sua legitimidade manchada. Entre o impasse, intransigência e atos violentos que envolvia a greve, o SEPE (sindicato estadual dos Profissionais de Educação) decidiu manter a paralisação, parcial, após uma Assembleia no Clube Municipal, na Tijuca, no Rio de Janeiro. O problema estava, porém, num manifesto do próprio Sepe dizendo defender “incondicionalmente os black blocs das ações policiais”.

A postura do sindicato continuava a ser a de enxergar os fatos e discutir apenas o que interessava aos sindicalistas, controlados pelo PSOL e pelo PSTU. O texto afirmava que os dirigentes da categoria não pretendiam discutir os atos de vandalismo, mas sim as “ações violentas da PM durante os protestos”. Ou, seja, para o Sepe, só existia violência se fosse cometida por policiais, e a tentativa de incendiar a Câmara dos Vereadores, a depredação de cinco agências bancárias e um ônibus incendiado não eram problemas. 

O sindicato também divulgou que pretendia “organizar a sua própria autodefesa contra as ações dos policiais”. A entidade também resolveu aderir de vez aos mascarados: “as manifestações dos profissionais de educação continuarão a ser organizados pelo Sepe, mas os Black Blocs serão sempre bem-vindos. O Sepe não pode se responsabilizar por atos anteriores, mas, nos protestos dos professores, os causadores dos conflitos não foram os black blocs e, sim, a polícia”, afirmou o coordenador-geral do Sepe, Alex Trentino, ao Jornal O Dia. 

ARTE, CRIME E VIOLÊNCIA

Ainda no final de outubro, Reinaldo Azevedo faz uma matéria à Veja, criticando um vídeo de atores globais dando suas opiniões a respeito das mobilizações, e prisões, feitas no ano de 2013. O jornalista tece alguns comentários sobre o vídeo “O grito da Liberdade 3110”. Seguem alguns trechos:

Quem não faz a distinção entre manifestantes e bandidos são os atores globais e os outros dois ou três que se manifestam. Notem:

a) não há uma só palavra de censura às depredações;
b) a polícia é vista como a única responsável pelos confrontos;
c) pessoas detidas depredando a cidade são chamadas de “presos políticos”.

Caro leitor, você lembra um manifestante nas jornadas de rua que utilizou, ao falar de seus “camaradas”, as expressões refém de guerra, e preso político?

Sigamos com Reinaldo…

Uma jovem chamada Bianca Comparato — nunca vi, mas parece ser atriz —, aos 3min23s, defende, as palavras fazem sentido, o quebra-quebra. Transcrevo sua fala (…):
“[órgãos de imprensa] só reportam o que é que foi quebrado, o que foi destruído. E eu também acho que tem de parar para pensar o que é que está sendo destruído. São casas de pessoas, como (sic) a polícia joga uma bomba de gás dentro de um apartamento? Não! São lugares simbólicos”.

Nunca vi a PM jogando bombas de gás dentro de apartamentos, mas Bianca viu. Ok. Mas isso não é o mais importante. É evidente que ela está defendendo a ação de destruição dos black blocs, mas só a dos “lugares simbólicos”. Do quê? Que eu saiba, quebram bancos, lojas, prédios públicos, praças, estações de trem, de metrô… Lugares simbólicos da civilização?

Algumas estrelas do vídeo merecem breves considerações:
a) Wagner Moura, hoje, é o líder dos engajados no Brasil. Tornou-se uma espécie de garoto-propaganda do PSOL, em especial da linha freixista (de Marcelo Freixo);

(…)

Os “artistas”, evidentemente, não disseram uma só palavra de censura ao comportamento dos manifestantes. Linchar policiais pode. Mas o silêncio não é o mais grave. No vídeo que convoca um novo protesto, a violência dos vândalos não só é negada como chega a ser bem-vista e estimulada por uma das participantes. Se quem editou as falas manteve a de Bianca Comparato e se todos concordam com o produto final, então é evidente que a endossam.

Sobre o tal linchamento a policiais, Azevedo faz referência a um vídeo exibido pela Mídia de Esquerda “A Nova Democracia”, sobre as manifestações ocorridas no Rio de Janeiro, durante as Jornadas de 2013. Mas, tenha em mente, ao ver o vídeo,  o seguinte:

– Nós abordamos a estrutura tática de movimentação dos blockers. Apenas assista e veja o padrão tático. 

– Lembre-se do que Bruno Fiuza disse acerca do Rio de Janeiro: “E talvez seja por isso mesmo que lá os black blocs tenham se tornado mais fortes e atuado de forma mais coerente”. E ainda: “Ou seja: justamente no momento em que caiu na boca do povo no Brasil, a tática black bloc estava voltando às origens…”

Ah, são cenas fortes. Dezenas de manifestantes linchando um policial, que sai arrastado. Se não consegue suportar ver esta covardia, sinta-se à vontade para não a assistir.

DE LEWANDOWSKI PARA DAMASCENO

Reinaldo Azevedo nota que, além da classe dos artistas, parece que a Justiça trocou o vestido cordato da imparcialidade por uma cinta liga de militância, com salto alto e batom vermelho sangue. No vídeo em que os artistas fazem uma defesa às Jornadas, havia alguém que não era um artista, mas tinha sua importância. Segue Azevedo:

A fala desses bacanas do miolo mole, no entanto, tem muito menos importância do que a de um homem em particular. 

Muito bem. A personagem em questão é o juiz João Damasceno, da 1ª Vara de Órfãos e Sucessões, no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. 

(…)

Tento de novo: temos um juiz, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que participa de um vídeo que convoca manifestações e que acolhe as ações dos black blocs, que, afinal de contas, só depredam o que tem de ser mesmo depredado, segundo se entende….

O juiz Damasceno pertence a tal entidade “Associação Juízes para a Democracia”, como se fosse possível haver uma outra, em que juízes fossem contra a democracia. Esse grupo, declaradamente de esquerda (e sabemos como países socialistas foram verdadeiros reinos de justiça) tem noções muito particulares de direito. Já entrei em alguns embates com eles aqui. Um de seus membros resolveu que, se me ofendesse bastante, elucidaria os absurdos escritos num documento da entidade.

Qual foi o busílis de então? Essa associação, composta, reitero, de juízes, teve a ousadia de dizer QUE HÁ, SIM, HOMENS ACIMA DA LEI. Fez isso num documento tornado público em 2011. Escrevi a respeito. Reproduzo trecho do despropósito assinado pelos meritíssimos.

 Volto em seguida.


“Não é verdade que ninguém está acima da lei, como afirmam os legalistas e pseudodemocratas: estão, sim, acima da lei, todas as pessoas que vivem no cimo preponderante das normas e princípios constitucionais e que, por isso, rompendo com o estereótipo da alienação, e alimentados de esperança, insistem em colocar o seu ousio e a sua juventude a serviço da alteridade, da democracia e do império dos direitos fundamentais.
Decididamente, é preciso mesmo solidarizar-se com as ovelhas rebeldes, pois, como ensina o educador Paulo Freire, em sua pedagogia do oprimido, a educação não pode atuar como instrumento de opressão, o ensino e a aprendizagem são dialógicos por natureza e não há caminhos para a transformação: a transformação é o caminho”.

[Azevedo]Retomo
Atenção! O texto não é só cafona e pernóstico. É também perigoso. Aqueles vetustos senhores e aquelas vetustas senhoras, todos togados, estavam apoiando, em 2011, a invasão da reitoria da USP. Pois bem… Em 2013, o prédio está invadido de novo, como vocês sabem. A universidade recorreu à Justiça com um pedido de reintegração de posse. Foi negado. O juiz Adriano Marcos Laroca produziu a seguinte pérola, vandalizando também a língua:
“A ocupação de bem público (no caso de uso especial, poderia ser de uso comum, por exemplo, uma praça ou rua), como forma de luta democrática, para deixar de ter legitimidade, precisa causar mais ônus do que benefícios à universidade e, em última instância, à sociedade. Outrossim, frise-se que nenhuma luta social que não cause qualquer transtorno, alteração da normalidade, não tem força de pressão e, portanto, sequer poderia se caracterizar como tal.”

“O juiz Laroca também pertence à Associação Juízes para a Democracia…”  

(…)

Digam-me: esses juízes estão interessados na paz? Pouco me importa a convicção de cada um deles. Envergam a toga para cumprir a lei. Não estão lá para expor suas noções particulares de justiça. Também não têm o direito de usar o aparelho de estado a serviço de suas ideologias. Se a lei não for o seu instrumento, então será o arbítrio.

Tudo aquilo por que um indivíduo comum precisa torcer é para não dar de cara com um membro da Associação de Juízes para a Democracia. Por que não? Vai que o pobre coitado tenha seu direito agravado por uma daquelas pessoas que esses doutores considerem acima da lei… Se for assim, amigo, você já perdeu, mesmo que esteja certo. Afinal de contas, esses iluminados acham que a Justiça é uma instância que pode estar em contradição com a verdade. Se está, a Justiça, que nem sempre é bem servida pela verdade, pode se socorrer, então, da mentira. É só uma questão de lógica.

De um juiz, espera-se que cumpra a lei, não uma cartilha ideológica. De resto, o doutor Damasceno sempre pode abandonar a toga e disputar uma vaga na Câmara dos Vereadores, na Assembleia ou no Parlamento Federal. E dirá o que lhe der na telha. “Juízes, então, não são livres para se manifestar, Reinaldo?” Claro que são, mas sem se esquecer de sua condição, afinal, nós somos obrigados a fazer o que eles mandam, mas a recíproca não é exatamente verdadeira. Sim, eles também são regulados por códigos. E, até onde sei, participar de eventos que estimulem a depredação, a violência e o desrespeito às leis não lhes é facultado. Ou é? Do mesmo modo, não podem usar salas do tribunal como palanque.

Quando você tem SERVIDORES PÚBLICOS como MILITANTES POLÍTICOS, há coisa melhor que pertencer à militância que eles também participam?

E, quando servidores públicos não são devidamente punidos, não são sumariamente demitidos por fazerem esses atos de improbidade, a impunidade se torna um hábito junto com as ações criminosas que são chanceladas?

Sim ou claro?

E qual o nome que nós poderíamos dar a isso leitor? Vagabundagem?

Claro que não. O nome disso é… PROTAGONISMO. 

Lembra a aula do Lewandowski?

 E FHC FALA 

Em um artigo de novembro, destacado pelo periódico Brasil247, Fernando Henrique Cardoso diz o seguinte a respeito das táticas e grupos de “Black-Blocs”:

“No Brasil, também há sinais preocupantes. Às manifestações espontâneas de junho se têm seguido demonstrações de violência, desconectadas dos anseios populares, que paralisam a vida de milhões de pessoas nas grandes cidades. A estas se somam às vezes atos violentos da própria polícia. Com isso, deixa-se de ressaltar que nem toda ação coercitiva da polícia ultrapassa as regras da democracia. Pelo contrário, se nas democracias não houver autoridade legítima que coíba os abusos, estes minam a crença do povo na eficácia do regime e preparam o terreno para aventuras demagógicas de tipo autoritário.

Temos assistido ao encolhimento do Estado diante da fúria de vândalos, aos quais aderem agora facções do crime organizado. Por isso, é de lamentar que o secretário-geral da Presidência se lamurie pedindo mais “diálogo” com os black blocs, como se eles ecoassem as reivindicações populares. Não: eles expressam explosões de violência anárquica desconectadas de valores democráticos, uma espécie de magma de direita, ao estilo dos movimentos que existiram no passado no Japão e na Alemanha pós-nazista”.

É complicado ver supostos movimentos de direita em coletivos como “Coletivo Lênin”; mas consideremos que FHC talvez, talvez, não tenha notado quais grupos apoiavam os Black Blocs. Apesar de sabermos que, segundo ele próprio, FHC entende de marxismo. 

Se não for isso, a única opção que sobraria seria FHC ser apenas um desinformante melindroso raso, mudando o foco para uma direita, que nunca existira no Brasil, a fim de não perceberem o seu patrocínio nas sombras. 

Conforme comentário do ex-presidente tucano, havia vândalos, aos quais aderiram elementos do crime organizado. Ainda, explosões de violência andavam pelas ruas. E organizações, ligadas de alguma forma aos Black Blocs, ensinavam táticas e distribuíram equipamentos que só se viam em ações terroristas. 

Com chancelas de servidores públicos que poderiam cuidar de restringir a liberdade desses responsáveis pelos atos violentos, se fossem submetidos ao dever de ofício, e não a militância política de seus “camaradas”. 

Num cenário desses, 2014 acabaria sendo explosivo…


FIM DA PARTE 1

Continua na próxima semana

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