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quinta-feira, 28 outubro, 2021

Crônica de uma coluna anunciada

Revista Mensal
Antonio Fernando Borges
Antonio Fernando Borges é escritor (Braz, Quincas & Cia. e Memorial de Buenos Aires, entre outros) e professor/consultor de Arte da Escrita.

Estreia da coluna do professor Antonio Fernando Borges!

Durante muitos anos acreditei que tinha crescido numa cidade turística de um país à beira-mar plantado, uma terra com praias ao Norte e vinhos e chocolates ao Sul. Na verdade, cresci dentro de uma grande biblioteca – que no fim das contas foram várias, porque na minha imaginação todas elas, juntas, iam formando esta grande biblioteca em que vivemos, e que constitui o único objeto digno de estudo: o Universo.

 Se você, leitor, reconheceu no trecho acima a sombra influenciadora de um grande escritor argentino, de um filósofo espanhol e de um compositor popular mineiro, saiba que você está pronto para falar sobre homens e livros, em especial sobre tudo aquilo que eles têm a nos inspirar. E assim uma ideia de Ortega y Gasset (“Só existe um objeto digno de ser estudado: o Universo”), uma reminiscência de Jorge Luís Borges e uma canção de Milton Nascimento (Ao Que Vai Nascer) ajudam a urdir, num primeiro parágrafo, mais um pedacinho dessa trama infinita chamada mundo real.

Ortega, precioso frasista, escreveu certa vez que “um tigre, quando nasce, é sempre o primeiro tigre do mundo”, extraindo da frase uma bela digressão sobre a diferença essencial entre felinos e humanos. Desconhecedor feliz da morte, prisioneiro do eterno momento presente, todo tigre se conforma a uma existência zoológica em meio a seus pares: nasce, vive e se extingue nos limites de uma vida selvagem, incapaz de destigrar-se. Já nenhum humano, desde Adão, pode almejar o privilégio alienante de ser o primeiro homem. Quando nasce, um homem já recebe esse legado magnífico feito de famílias e amigos, estantes e bibliotecas.

Ao insistirem na oposição Arte x Vida, os românticos só fizeram embolar o meio de campo. Afinal, depois de escrito, todo livro se torna parte inseparável na realidade, relegando ao campo minado dos equívocos o falso conflito que os Shelley da vida se impuseram: escrever ou agir? Escrever é uma forma de agir sobre o mundo. 

Convidado pela valorosa equipe de Esmeril para assinar esta coluna, gostaria de fazer dela uma oportunidade de enriquecer este debate, e dissipar alguns equívocos. E o mais perigoso deles talvez seja a promessa marota (feita sobretudo às crianças) de que a leitura é uma coisa prazerosa – conselho nefasto que traz como decorrência a ideia de que só se deve fazer aquilo que dá prazer. Seguindo este mesmo critério “hedonista”, descobri ainda na adolescência que há coisas bem mais prazenteiras do que ler – e aqui cada um pode fazer a própria lista. Porque ler é útil e necessário e, às vezes, pode chegar a ser agradável. Mas é, acima de tudo, imprescindível – porque nos dá acesso ao tesouro que herdamos, por não sermos tigres.

Nos livros (e pelos livros) aprendemos a viver. Ao não sermos tigres, logo percebemos que todos os acontecimentos das nossas vidas já estão de certa maneira prefigurados na literatura de ficção – que constitui, em linhas gerais, o conjunto dos esquemas imaginários das vidas possíveis. Tanto o velho Aristóteles quanto o contemporâneo Northrop Frye (cada um a seu modo e cada um em seu tempo) nos mostraram que a Arte, no fim das contas, representa o conjunto dos esquemas imaginários das vidas possíveis. E que este “conjunto das vidas possíveis” é formado pelos ecos terrenos da vida divina – em suma, é uma espécie de “reverberação do eterno no tempo”. Ler, portanto, é muito mais do que ler.

Estas não são apenas “palavras engenhosamente bonitas”: são exatas e verdadeiras. Nem foi à toa que o austríaco Hugo von Hofmannsthal (como já repeti tantas vezes) arriscou que nada existe na realidade política de um país se não estiver primeiro em sua literatura. Hofmannsthal estava apenas querendo lembrar que a imaginação vem antes da ação. Nada consegue concretizar em ato se não puder ser previamente concebido, em ideias e valores. Em outras palavras, o que não é passível de ser pensado é impossível de ser realizado. Basta, como exemplo, reparar que as ideias postas em prática pelos bolcheviques estão prenunciadas desde sempre no perfil dos intelectuais que protagonizam Os Demônios e Crime e Castigo, de Dostoiévski, ambientados décadas antes da eclosão dos fatos. Em muitos sentidos, toda literatura é sempre literatura de antecipação.

Esta Biblioteca de Borges – não apenas a deste Borges que escreve, ou a do Brujo argentino, mas sobretudo a grande Biblioteca que muitos chamam de Universo – quer, enfim, ajudar a desdobrar essa meada, suas tramas e urdiduras. Como G. K. Chesterton advertia: “Só uma coisa é necessária: tudo. O resto é vaidade das vaidades”.

Seja bem-vindo, leitor. A Biblioteca é sua!


O Universo, que outros chamam de Biblioteca…

Jorge Luís Borges, A BIBLIOTECA DE BABEL

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